Morrendo na primeira pessoa

Depois de se tornar interdita e silenciada no século 20, a morte ganha cada vez mais espaço em narrativas confessionais de notáveis e de anônimos

Tarô de Marselha-Camoin

Tarô de Marselha-Camoin

por Eliane Brum

Em 24 de julho, Oliver Sacks, escritor, neurologista e um dos pensadores mais interessantes do nosso tempo, escreveu um novo artigo sobre o seu morrer, na página de Opinião do The New York Times. Em fevereiro, ele tinha anunciado que estava com câncer no fígado, sem possibilidade de cura, em um texto belíssimo sobre a vida, que foi traduzido e publicado no mundo inteiro. Agora, aos 82 anos, Sacks começa a se sentir nauseado e enfraquecido pela doença, mas não menos encantado e curioso com a existência. Ele segue esperando com alegria a chegada das revistas científicas, ansioso pelas descobertas sobre um universo que o fascina. Semanas atrás, ele estava no campo, longe das luzes da cidade, quando se deparou com a inteireza monumental do céu “polvilhado de estrelas”. Sacks concluiu: “Esse esplendor celeste de imediato me fez perceber o quão pouco era o tempo e a vida que me restava. Minha percepção da beleza do céu, da eternidade, era inseparável da minha percepção da transitoriedade – e da morte”. Contou então seu sentimentos aos amigos que o acompanhavam, Kate e Allen, dizendo: “Eu gostaria de ver esse céu novamente quando estiver morrendo”. E os amigos garantiram que fariam com que pudesse ver as estrelas uma vez mais.

Ao nos contar sobre o seu morrer, um morrer vivo, no qual a experiência de chegar ao fim é mais uma novidade para um homem curioso com o mundo e com a existência, Oliver Sacks tornou-se um dos sinalizadores de que algo fundamental está mudando na nossa época. E de forma bastante rápida, já que nosso tempo histórico é acelerado. Embora o silêncio sobre a morte, a doença e o luto ainda persista na vida cotidiana – e talvez seja ainda o que se impõe para a maioria das pessoas –, já não vivemos a morte “envergonhada” ou “clandestina” que se estabeleceu no século 20. O doente terminal que finge que não está morrendo, para não alarmar nem a família nem a equipe médica, pode estar começando a se tornar um espécime em extinção. A morte começa a ficar desavergonhada – e especialmente confessional, bem ao tom desse momento em que se narra tudo nas redes sociais.

A história humana pode ser contada pelo modo como cada sociedade, em diferentes períodos históricos, olhou para a morte e lidou com ela. O trabalho mais completo sobre esse tema possivelmente ainda seja o do historiador francês Philippe Ariès (1914-1984), primeiro em um livro chamado História da morte no Ocidente e, depois, numa obra maior, intitulada O homem diante da morte. Nesta análise, o historiador mostra como, no século 20, a morte passou a ser escondida e calada. Não mais um evento público, mas uma espécie de não acontecimento. Na sociedade tecnicista era necessário que a morte fosse ocultada entre as paredes de um hospital, o mais asséptica possível, e imediatamente esquecida. Essa mentalidade ajuda a explicar por que, até hoje, alguém que perde aqueles que ama tem legalmente um tempo curtíssimo para se ausentar do trabalho e começar a elaborar o seu luto. Quando se espera que a ciência prolongue a vida a qualquer preço e a juventude torna-se um valor em si, a morte passa a ser um fracasso que deve ser escamoteado.

No século 20, o fim da vida tornou-se algo a ser ignorado e, assim, não precisava nem ser superado, já que o melhor seria fingir que nem mesmo tinha acontecido. “A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras”, escreveu Philippe Ariès. A morte tornara-se quase contagiosa, e aquele que morria o portador de uma doença/má notícia cuja contaminação deveria ser evitada a todo custo pelos vivos.

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No século 20, a morte se tornou tão obscena quanto o sexo na era vitoriana; e o luto, tão secreto quanto a masturbação

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Outro pensador, o antropólogo britânico Geoffrey Gorer (1905-1985), escreveu um ensaio sobre o que chamou de Pornografia da Morte. “Hoje a morte e o luto são tratados com o mesmo pudor que os impulsos sexuais há um século”, afirmou. A interdição do sexo, na era vitoriana, tinha sido substituída pela interdição da morte, no século 20. A morte teria se tornado obscena e feia e, portanto, deveria ser escondida. E o luto, circunscrito ao âmbito privado, havia se tornado tão secreto e individual como a masturbação.

Como acontece tantas vezes, a arte antecipou a interpretação da sua época. Essa mudança no olhar sobre a morte consolidada no século 20 já podia ser detectada, no final do século 19, na pequena obra-prima de Tolstói: A morte de Ivan Ilitch. Em um seu livro Educação para a morte – Temas e reflexões, a psicóloga brasileira Maria Júlia Kovács assim analisa a novela do escritor russo: “Ninguém quer falar sobre o que está acontecendo com o doente, nem ele próprio, que sofre, geme, mas nada diz. Os familiares também sofrem, não sabem o que fazer, mas fingem que está tudo bem”. Apesar de todos tentarem banalizar o acontecimento, transformando-o num não acontecimento, o doente, embora nada diga, sabe o que vive.

O século 21, este que testemunhamos nascer, começa a engendrar um outro olhar sobre a morte, cujos sinais já podiam ser percebidos nas últimas décadas do anterior. A história, como se sabe, é movimento e conflito. O próprio surgimento do conceito de “Hospice” e da prática dos “cuidados paliativos”, nos anos 60 do século passado, com a ideia de que cuidar é mais importante do que curar e de que é preciso escutar aquele que vive o seu morrer, começou a colocar em xeque o silenciamento da morte.
Hoje, não são apenas as séries de TV e os filmes no cinema que passaram a abordar a morte, a doença e o envelhecimento com frequência cada vez maior. Neste novo olhar sobre o fim da vida, a internet, com as redes sociais, tem desempenhado um papel central e crescente. Se a literatura nunca deixou de ter a morte como tema, o morrer vem tornando-se uma narrativa confessional, de não ficção, escrita na primeira pessoa do singular.

Oliver Sacks não foi o primeiro a escrever sobre o fim da vida neste século. Longe disso. Em 2005, a jornalista Joan Didion publicou um livro, O ano do pensamento mágico, em que contava sobre a morte do marido e o seu luto. Logo no início faz uma síntese sobre a condição humana: “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”. Essa mistura de narrativa confessional com investigação jornalística entrou para a lista dos mais vendidos em vários países, inclusive no Brasil. Mais tarde, em 2011, Didion lançaria Noites Azuis, sobre a morte da única filha, seu próprio envelhecimento e sua solidão. Este último livro é a história da mulher que restou, a narrativa de quem se descobriu sozinha para testemunhar o próprio fim. Portanto, um relato ainda mais duro e perturbador, que parece ter sido mais difícil para os seus leitores. Didion agora se vê às voltas com formulários de hospital, onde fazem a ela uma pergunta que não pode responder: quem chamar numa hora de emergência? Já não há.

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Susan Sontag, que morreu sem se reconciliar com a morte, escreveu sobre como o câncer foi a morte “suja” do século 20

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Em 2008, o escritor e analista político David Rieff lançou um livro sobre como foi testemunhar o fim da vida da mãe, a pensadora americana Susan Sontag, morta pelo terceiro câncer de sua trajetória quatro anos antes, aos 71. David deu à obra um título pungente: Nadando em um mar de morte – memórias de um filho. Susan Sontag publicou livros fundamentais sobre o tema. Em Metáforas da doença, escrito quando ela já tinha lidado com um câncer no seio e o superado, Sontag analisa como a tuberculose foi a morte romântica, no século 19, e o câncer, doença-símbolo do século 20, a morte “suja”. Defende também que o câncer seja tratado como uma doença, loteria genética, e não como uma ideia que chegou a ser muito popular e ainda persiste em alguns meios, de que a pessoa teria “feito” o seu câncer ou o “atraído”, por repressões sexuais e questões psicológicas mal resolvidas.

Susan Sontag, nas palavras do filho, ao mesmo tempo sentia pavor da morte e obsessão pela morte. Morreu sem jamais se reconciliar com a ideia de morrer. Mesmo sendo informada pelos médicos que um transplante de medula teria escassas chances de êxito no seu caso, ela escolheu fazê-lo. Quando soube que a cirurgia fracassara, estava presa a 300 metros de tubos, por onde eram injetadas as substâncias que a mantinham viva, e perguntando o que mais os médicos podiam fazer por ela. Morreu coberta de hematomas e feridas, esperando “vencer” o câncer, sem se despedir de ninguém e sem permitir que se despedissem dela. Foi a sua escolha, só ela poderia fazê-la. “Era impossível até eu dizer que a amava, porque fazer isso teria significado dizer: ‘você está morrendo’”, escreveu David Rieff, num livro que enfrenta as perguntas espinhosas sobre o lugar de um filho diante do morrer da mãe, na singularidade de cada história, sempre particular e irrepetível.
Mortality, aqui no Brasil traduzido como Últimas palavras, é baseado nas colunas publicadas na revista americana Vanity Fair pelo escritor, jornalista e grande polemista Christopher Hitchens, um feroz defensor do ateísmo que se manteve fiel a suas ideias até o fim. Ele morreu de câncer em dezembro de 2011, aos 62 anos, e o livro foi lançado em 2012. Com o mesmo desassombro e a ironia que sempre caracterizaram seus artigos, Hitchens discorreu sobre a vida no que chamou causticamente de “Tumorlândia”.

No estilo que o fez angariar tanto admiradores quanto inimigos ao longo de uma extensa coleção de polêmicas, ele sugeriu a criação de um “Manual de Etiqueta do Câncer”, destinado “aos doentes e também aos simpatizantes”. Hitchens explica: “Meu manual teria de impor deveres a mim, bem como àqueles que falam demais, ou de menos, na tentativa de disfarçar o inevitável constrangimento nas relações diplomáticas entre Tumorlândia e seus vizinhos”. Ele gostaria de lembrar às pessoas, em geral, que não circulava por aí com um enorme broche de lapela no qual estava escrito: “PERGUNTE-ME SOBRE CÂNCER DE ESÔFAGO EM METÁSTASE NO QUARTO ESTÁGIO E APENAS SOBRE ISSO”. É um livro tão vivo este em que Christopher Hitchens escreve sobre o seu morrer que, ao terminá-lo, sentimos imensa saudade do seu autor.

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O livro de maior sucesso deste século 21 transformou seu autor numa “celebridade” antes de sua morte

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Mas o marco deste início de século, na escrita sobre a morte e especialmente sobre o câncer, é possivelmente o livro de Randy Pausch. Nenhuma obra sobre o tema foi tão festejada e popular quanto A lição final. E não por acaso. Morto de câncer pancreático em 2008, o professor universitário Randy Pausch construiu uma narrativa bem ao gosto da cultura americana, marcada pela divisão entre losers (perdedores) e winners (vencedores). A sua era uma escrita de “superação” da adversidade, da “batalha” contra a doença, uma jornada do herói adaptada ao tão difundido discurso no senso comum e nos meios médicos do “guerreiro que lutou até o fim a guerra contra o câncer”. Randy morreu, mas como um “vencedor”, já que havia tornado seu câncer um “case” de sucesso. Não pôde “vencer” a doença, mas, naquilo que parecia essencial para ele e para a sociedade em que vivia, vencera. Naquele momento, era bastante revelador que, depois de tanto silêncio, a mais comentada era uma morte “bem-sucedida”, materializada num best-seller internacional que rendeu milhões de dólares e transformou seu autor numa celebridade.

Tudo indicava que esta poderia ser a linha narrativa preponderante do nosso tempo: a morte a serviço da superação e do sucesso, da indústria e do culto a celebridades. Falada, sim, mas apenas para mais uma vez encobrir a dor e os conflitos da condição humana. Não é o que tem acontecido, como provam a escrita de Christopher Hitchens, de Joan Didion e do próprio Oliver Sacks, entre vários outros. Não há uma forma “certa” nem “errada” de falar sobre a doença e a morte, seja a própria ou a de quem amamos. Do mesmo modo que não há nenhuma narrativa acima de um debate honesto sobre o que diz de sua época e sobre como a influencia, mesmo sendo seu autor alguém que está morrendo.

A morte é lambuzada de vida e de humanidades. Há tantas formas de pensar sobre ela quanto vivedores e morredores. A beleza, mesmo quando brutal, é quando essas narrativas são capazes de enfrentar a complexidade deste momento, com todos os sentimentos ambíguos e as contradições que o povoam. Seria uma pena, afinal, reduzir um momento tão abissal quanto inescapável a um manual pobre do “morrer bem”. Como na frase que adoro: “A morte não é o contrário da vida, a morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”.

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“Hello! Eu tenho câncer!”, disse a comediante Tig Notaro em um stand-up histórico

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Minha expectativa de que estamos num novo momento no que se refere ao olhar sobre a morte aumentou ao acompanhar a história de Tig Notaro, 44 anos. Comediante de stand-up, a americana Tig pensava em ter um filho, em 2012, quando primeiro foi atingida por uma infecção que quase a matou. Logo depois da alta do hospital, perdeu a mãe, que nas suas palavras era a pessoa que mais a enxergava, compreendia e incentivava. Tig descobriu-se sem chão. Mas não era tudo. Em seguida, ela soube que tinha câncer no seio.

Tig estava às vésperas de um show. E agora, deveria fazê-lo? A humorista pensou que, afinal, depois de tudo o que acabara de viver, era muito ridículo ter ainda por cima um câncer. Subiu ao palco e fez um espetáculo considerado histórico.

–Hello, good evening, hello! Eu tenho câncer. Como vão vocês? Todo mundo se divertindo? Fui diagnosticada com um câncer…

Ainda que possa parecer apenas bizarro, quando aqui reproduzido, assistindo ao show percebemos que Tig conseguiu fazer algo sofisticado e profundo com o câncer e o medo de morrer: conseguiu fazer humor. Ela não negava a dor da sua condição, mas a usava para produzir arte, reflexão e… riso. Sem que tivesse planejado essa performance, sua carreira deu um salto. Logo Tig estava na capa de revistas, em talk shows na TV.

Neste ponto, eu temi que ela poderia se tornar uma espécie de “celebridade do câncer” e nunca mais pudesse falar de outra coisa. Mas, se o que fez com a doença a colocou num outro lugar, e este é um fato, o caminho de Tig parece ser o de colocar o câncer, o luto pela mãe, os fracassos reprodutivos e também o sucesso no contexto de uma vida com um pouco de tudo, às vezes bastante de alguma coisa, mas não monotemática.

Essa escolha, pelo menos, é o que aparece num documentário sobre o seu percurso, lançado em julho deste ano pelo Netflix, chamado apenas “Tig”. A dela é uma história em aberto, como qualquer outra, e a vimos frágil e confusa diante do futuro. Acompanhamos a artista em seu dilema sobre fazer ou não um tratamento reprodutivo, na tentativa de ter um filho, e arriscar-se a aumentar as chances de o câncer voltar por conta dos hormônios; compartilhamos sua ansiedade para que o embrião vingue numa barriga de aluguel, assim como o seu amor por uma outra mulher, que num primeiro momento a rejeita, porque até então só tinha tido relacionamentos heterossexuais. E testemunhamos também sua insegurança sobre com que material trabalhar em seus shows, depois de ter alcançado um nível tão paradigmático ao levar o câncer para o palco.

Mas talvez o momento-síntese da narrativa de Tig sobre o câncer e a possibilidade de morrer seja uma cena que não está no documentário, apesar de mencionada. Em novembro de 2014, Tig tirou a camisa no palco, mostrando a ausência do que a doença lhe arrancou, numa mastectomia dupla sem cirurgia de reconstrução, e as suas cicatrizes. Até aí, poderia ser apenas uma espécie de “performance de choque”, um truque para ganhar a plateia. Depois do impacto inicial, porém, o público acolheu e superou essa nudez assinalada pela doença e pela condição humana, graças ao talento de Tig.

Como disse o crítico Jason Zinoman: “Tig Notaro mostra que o humor não apenas consegue transformar tragédia em comédia, como também é capaz de desviar a atenção das pessoas da imagem mais vendida e objetificada da cultura popular: o corpo feminino nu”. Ali estava alguém dolorosa e alegremente viva que não negava suas marcas. Essa transcendência coletiva foi um grande momento de vida, com toda a incerteza e a fragilidade que é viver como um ser que se sabe para a morte.

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“E o meu direito de não querer viver?”, pergunta a leitora

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Minha aposta é de que o mais fascinante deste novo olhar sobre a finitude humana possivelmente ainda virá. E virá não por aqueles que já têm um lugar de escuta, mas pelos anônimos que começam a produzir narrativas na internet sobre o envelhecimento, a doença e a morte. Assim como as redes sociais vêm produzindo tanto sobre tudo – e não só discursos de ódio –, também autorizaram um dizer que revela como cada um se coloca diante da mortalidade. Se a internet permitiu que aqueles que comungam de desejos sexuais considerados fora dos padrões se encontrassem e pudessem viver sua expressão de forma consensual, entre adultos, também começa a se estabelecer como um lugar de confissão e de troca sobre luto, perdas e morte. Um espaço para narrativas múltiplas, para viveres múltiplos do morrer. Quando uso a palavra “fascinante”, não estabeleço se é bom ou mau, apenas que estamos diante de algo instigante e talvez surpreendente, exatamente porque contraditório.

Meses atrás, a carta de uma leitora de 78 anos no Painel do Leitor da Folha de S. Paulo me impactou. Ao discordar da abordagem de um artigo sobre o desejo e o envelhecimento, ela assim se colocou: “Quem leu Simone de Beauvoir vai me entender. São inócuas as ‘cenouras’, surpresas ou prazeres externos quando você tem a noção de que, por dentro, está apodrecendo aos poucos. Chegar a esta constatação é de uma crueldade ímpar. Não há sorriso de neto que consiga esvanecê-la. Acima de tudo, não quero mais lidar com essas mazelas e, para isso, estou em plena e ocupada fase de desapego. Para mim, chega. E o meu direito de não mais querer viver? Onde fica?”.

O que importa aqui não é concordar ou discordar, até porque cada um sabe de sua dor e de suas escolhas. O fato é que já é possível dizer e já existe espaço para ser escutado, mesmo que o que você tenha para dizer esteja fora do senso comum e da publicidade sobre a “terceira idade”, fora do manual e dos discursos edificantes ou das “lições de vida” bem comportadas.

Em um artigo interessante sobre esse fenômeno das narrativas de morte em tempo real, o jornalista Lee Siegel lembra do depoimento de uma mulher na coluna Private Lives (Vidas Privadas), do The New York Times, marcado por uma crueza sem qualquer pudor: “Por falar de perdas, não perdi somente meu marido e minha vida, perdi também os meus cabelos. Recentemente um policial me mandou encostar o carro por ficar parada. O tráfego estava sendo redirecionado, mas eu havia congelado e retinha uma longa fila. Levantei as mãos, esperando ser algemada, dizendo que não há nada que você possa fazer comigo que seja pior do que já foi feito. Ele disse: ‘Que história é essa, madame?’. Eu disse: ‘Não tenho marido, não tenho amigos, não tenho cabelo’”.

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“Vamos falar sobre o luto?” é uma das plataformas lançadas na internet em 2015

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O mesmo Times tem um outro espaço, The End, com depoimentos sobre o morrer, o luto e sobre o cuidar de quem tem uma doença. No Brasil, a Folha de S. Paulo criou, em outubro de 2014, um blog chamado Morte Sem Tabu, produzido pela dramaturga Camila Appel. Por todo o país, usando as redes sociais, surgiram e surgem grupos para compartilhar experiências de perda, como o Mães Sem Nome, que reúne pessoas de diferentes classes sociais e histórias de vida: “Quando um (a) filho (a) perde seus pais fica órfão (ã). Quando perdemos o marido/esposa ficamos viúvos (as). Quando a mãe perde seu filhos, não tem nome”. Em junho deste ano, sete amigas que perderam pessoas que amavam lançaram uma plataforma na internet para a escuta deste momento tão profundo e em geral solitário: “Vamos falar sobre o luto?”. Os muros de silenciamento rompem-se por todos os lados.

Em 2008, acompanhei como repórter os últimos 115 dias de vida de uma mulher com um câncer incurável. Também testemunhei por meses a rotina de uma enfermaria de cuidados paliativos de São Paulo, liderada por uma médica especialíssima, Maria Goretti Maciel, na qual se acreditava mais na largura da vida do que no seu comprimento: mais importante do que prolongar a vida a qualquer preço, em geral um preço alto, era garantir a qualidade da vida que restava. Assim como mostrava-se fundamental respeitar e acolher o modo como cada um escolhe viver esse momento, sem dogmas nem julgamentos. Não era um lugar em que a humanidade era dividida entre “perdedores” e “vencedores”, nem o tratamento da doença, em geral câncer, era encarado como uma “guerra”. O fundamental era garantir as condições para que cada um pudesse escolher como viver o tempo que tinha, sem tratamentos inúteis, dolorosos e invasivos, cercados por quem amava ou mesmo solitário, caso este fosse o seu desejo. Do como viver a sua morte, só sabe aquele que a vive.

Naquela ocasião, ao decidir contar a morte em geral silenciada, aquela causada pela doença e pela velhice, calada exatamente por ser a da maioria – e não a morte violenta, provocada por crimes, acidentes e catástrofes, mais comum à narrativa jornalística –, fui seguidas vezes acusada de “mórbida”. Eu retrucava, dizendo que era o contrário. Mórbido era aquilo que nos paralisava, o medo que não podia ser nomeado ou pronunciado.

Ao calarmos sobre o envelhecimento, a doença e a morte, perdíamos uma oportunidade insubstituível para pensar sobre a vida – e em especial sobre o tempo. Eu tinha sido transformada para sempre por uma frase de Ailce de Oliveira Souza, a mulher que me permitiu contar o seu morrer, num enorme ato de confiança. Logo no nosso primeiro encontro, ela, que acabara de se aposentar e tinha começado a viver aventuras até então adiadas, disse: “Quando eu tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado”. Sou imensamente grata por esta frase, que multiplicou a largura da minha vida.

Hoje, passados menos de dez anos, acredito que não seria mais acusada de “mórbida”. Não tanto, pelo menos. Homens e mulheres anônimos começaram a dizer de si de forma desassombrada. Não sei o que escutaremos nem o quanto esses tantos dizeres vão influenciar nossa forma de encarar a finitude de nossa condição. Mas essa possibilidade de falar e de ser escutado também sobre o envelhecimento, a doença, a perda e a morte me encanta. Espero apenas que continue existindo espaço não para o silenciamento, esse ato que nos reprime e aniquila, mas para o silêncio daqueles que preferem se recolher dentro de si e da casa e nada dizer. Que falar e “confessar” não vire um novo imperativo ou dogma. Que exista espaço para todas as formas de ser, viver e morrer.

Mas a interrogação que mais me move neste momento é: o que diremos agora que podemos dizer?

Escutar o outro é arriscar-se ao outro. É viver.

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ESPECIAL ‘MORTE SEM TABU’
Cemitérios para os vivos
Vamos falar sobre a morte
Beleza é a ‘alma’ do negócio
Seremos adubo, mas fará sentido
Sem medo da morte

 Gianfranco Uber

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“Poetisas suicidas y otras muertes extrañas” de Luzmaría Jiménez Faro

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Este libro reúne las biografías de un grupo de poetisas extraordinarias que tienen en común la presencia oscura de la muerte en sus vidas. Mujeres apasionadas que dejaron su huella poética, cada una en su estilo, con gran emoción y enorme riqueza expresiva, siempre bajo ese hálito de misterio y de sombras irrenunciables.

Luzmaría Jiménez Faro presenta en esta obra una selección de autoras, que apagaron sus vidas de una manera trágica, en una preciosa edición en tapa dura.

Incluye fotografías de las autoras y sus tumbas, y un listado de 40 poetisas que se suicidaron.

La oscura sensibilidad de las poetas suicidas

La poesía hace visible lo invisible, cura o mata, porque esa sensibilidad de los poetas para regalar al mundo experiencias radicales puede tener un costo caro y más si se es mujer. Violeta Parra, Alfonsina Storni o Alejandra Pizarnik son algunas de estas poetas que pusieron fin a sus vidas. Imagen: Alejandra Pizarnik, fotografiada por Sara Facio

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Así lo muestra el libro, Poetisas suicidas y otras muertes extrañas, de Luzmaría Jiménez Faro, que acaba de publicar Torremozas y que recoge la biografía de poetas de América Latina y España que tuvieron la presencia oscura de la muerte en sus vidas.

Delmira Agustini, Eunice Odio, Julia de Burgos, Teresa Wilms, Carolina Coronado, Clementina Suárez y María Mercedes Carranza también forman parte de este libro.

“Cuando la palabra se vuelve desesperanza, cuando no se ve la luz al fondo del túnel, cuando se pierde la ilusión y nos rodea la indiferencia […] aparece la necesidad de transgredir la frontera de la vida”, escribe en el prólogo Jiménez Faro.

Suicidas o víctimas de una muerte trágica, estas mujeres inteligentes, creativas y con ciencia de género tuvieron una vida apasionante con amores y desamores al límite. Todas ellas forman parte de la gran historia de la literatura, como dice Jiménez Faro.

Uno de los grandes ejemplos lo encarna la poeta y cantante chilena Parra (1917-1967), que en algún momento ya había dicho que “el día que no tenga un amor, me dejaré morir”, se quitó la vida de un tiro en la cabeza poco después de escribir Gracias a la vida.

Apasionada, la hermana del poeta Nicanor Parra, se casó con Luis Cereceda en 1938 con el que tuvo dos hijos, y al que advirtió que nunca dejaría de cantar. Se separaron y en 1949 se volvió a casar con Luis Arce, ebanista, con el que tuvo dos hijas. Pero tras separase y ya muy desilusionada le llegó un amor loco por un músico suizo, Gilbert Favre, 18 años más joven, del que se enamoró perdidamente.

Un amor que no fue nada fácil, con distancias y altibajos, pero que hace que Parra pueda Volver a los 17, otra de su composiciones míticas, aunque finalmente “el cansancio, las dudas, la nostalgia…” contribuyen a que su vida se vuelva oscura. Y así, el 5 de febrero en Santiago de Chile, se suicidió dándose un disparo en su pequeña habitación.

Otra amante de la palabra, defensora reivindicadora del universo femenino y suicida es Storni, que nació el 29 de mayo de 1892 en Suiza, aunque se trasladó a los cuatro años a Argentina. Mujer apasionada, y al final víctima de un cáncer de pecho, el 18 de octubre de 1938 tomó un tren con dirección a Mar del Plata, se alojó en una pensión y a los pocos días, el 25 por la noche, se entregó al mar.

Una muerte que se ha convertido en leyenda y en canción, Alfonsina y el mar, de Ariel Ramírez e interpretada por Mercedes Sosa.

Dos poetas simbólicas a las que se suman en el libro, la argentina Delfina Tiscornia (1966-1996), autora del poema Quiero arrancar la muerte de mi vida o la limeña Marta Kornblith (1959-1997), que se quitó la vida tirándose de un quinto piso, autora de “La calle está llena/ y hay una mujer que en el fondo de su cuarto/llora sola”.

El libro, que reproduce muchos poemas, encierra a estas poetas y a otras mucho menos conocidas y se completa con abundante material gráfico en un capítulo denominado Ellas y el silencio.

Fuente: Carmen Sigüenza. EFE

Capítulo de romance inédito de Urariano Mota

Um escritor sempre pronto para refletir

Urariano autógrafo

Fazendo jus a sua pena que não deixa de tecer letra a letra uma nova aventura ou reflexão, o renomado escritor e jornalista pernambucano, Urariano Mota, que também é colunista do Portal Vermelho, está trabalhando em mais um livro e nos brinda, com exclusividade, com um cálice de uma nova história.

A seguir, o primeiro capítulo de uma obra que já promete muitas reflexões sobre os dias de hoje e as transformações que remodelam a sociedade. In Portal  Vermelho

Urariano Mota: Bandeira do partido

Ao caminhar para o necrotério, próximo ao necrotério, eu não estava preparado, porque ninguém está preparado para a surpresa da morte. Ela vem como se, de repente, o chão se abrisse e mergulhássemos no escuro de um espaço sem referência. Mas minto, porque mais próximo da verdade é isto: mergulhamos no espaço escuro com a consciência dilacerada, com a memória em terremoto, os miolos deslocados à procura de um ponto de abrigo. Isto: à procura de um norte no espaço quando estamos sem nave, sem sinal de planeta ou qualquer azul com o nome de Terra. Quero dizer: eu estava e não estava naquele enterro. Eu me via nele, mas o que chamo de meu corpo não estava ali. Quero dizer enfim do modo mais claro: o meu ser, o nosso ser ainda não havia sido respondido naquela morte. A nossa vida ainda estava sem reflexão ou resposta.

Eu me deixei sentar, antes, caí sentado num bar perto do necrotério. Eu me sentei como um pugilista atordoado senta no banquinho no intervalo do gongo. Haverá um próximo assalto, eu sabia, e como fera acuada via pelos cantos dos olhos, pelos cantos da consciência um ligeiro raio que passava gritando, no próximo assalto é você. Os próximos são vocês. Nesta altura da idade, fala o estúpido bom senso, somam-se as quedas biológicas. “Quedas”, um outro gênero de quedas, diferentes e iguais à morte na ditadura, porque morremos quando tudo está por se construir, antes e agora. Lembrança do poeta Alberto da Cunha Melo:

“Tudo condenado a nascer
e essa urgência de terminar
o que será realizado
de qualquer maneira a seu tempo”.

Mas é tão diferente, hoje. Estamos na legalidade, o partido, se não é o poder, é chamado ao poder pela força da sua militância. Sim, tudo é tão diferente, mas a morte do camarada nos expõe a fratura do que parecia confortável, estabilizado: “acorda, o ser não foi respondido”. O porquê da vida continua sem resposta. Acorda, porque o tempo é adverso, a duração do tempo é adversária, a resposta não virá andando, a resposta deve ser buscada.

Se assim nos chama a voz que reflete o raio fugaz, na hora não a ouvimos bem, ainda que se apresente pelo seu portador, o corpo morto de Luiz do Carmo. Por isso divagamos na mesa, eu, minha esposa e uma antiga namorada de Luiz. Tomamos distância das questões mais graves, apesar do abalo sísmico sob nossos pés. Em lugar da olhada de frente, evitamos a procura essencial: “onde está o nosso ser?”. Temos os olhos rápidos para os cantos, olhos de louco, de animal a farejar o inimigo que vem pular em cima de nós.

– Como ele morreu? – pergunto. E com isso gostaria de fazer de conta que as circunstâncias explicam a razão da sua morte.
– Foi de repente. Passou mal de repente – a ex-namorada me responde.
– Ele estava em casa?
– Não, foi num bar.
– Ah! – exclamo.
Ah, se não fosse num bar, se ele não estivesse levando a vida que levava, estaria vivo. E assim sou compreendido na mesa, e dessa forma somos iludidos.
– Eu soube que ele andava meio solitário – a ex-companheira fala. – Bebia muito.
– Ah! sei – fala minha esposa.

Peço outra bebida, eu não estou solitário, então eu posso pedir outra. Isso até pareceria cômico, mas está na fronteira entre a comédia e o trágico. Porque o conteúdo de “bebia muito”, e por isso morreu, quer nos convencer que se não fosse o álcool ele estaria vivo, quem sabe, se para sempre. Então a morte não é um ponto de encontro com o desencontro, não é uma fatalidade biológica, é apenas e só um produto das circunstâncias. Fossem outras, ah, teríamos a duração eterna, estamos convencidos, conquistados, sem que seja necessário qualquer murro lógico. Já estamos derrubados a nocaute na ilusão.

– Mas foi num bar? – Volto, e corrijo porque estou num também: – Ele estava de passagem pelo bar?
– Ele estava bebendo – a ex-companheira responde.
– Na hora, ele bebia o quê? Você sabe? – quero saber, porque devemos evitar o que pode ter sido a causa do seu falecimento.
– Acho que era vinho – ela fala, numa versão que mais adiante saberei ser falsa. Mas talvez se refira à bebida dos namorados nas histórias românticas.
“Vinho! Num clima quente não é bom”, penso.
– Com este calor… – completa minha mulher.

Isso mesmo, eu não falo, porque tenho a desconfiança do absurdo a que gostaria de chegar, que é: está explicado, com este calor, beber vinho é o mesmo que procurar a própria morte. Faz, faria sentido, sei, mas não como a causa, e causa de gênero terrorista, causa do óbito, como eu gostaria, para então afastar de mim tudo que lembre uva, com especial distância da maldita fermentação. Mas a minha comodidade não se detém, não a consigo parar na busca de uma razão para a morte de Luiz do Carmo.

– Ele morreu lá mesmo no bar?
– Sim – a ex-companheira me responde. – Eu soube que ele estava sentado, arregalou os olhos, e desceu a cabeça por cima da mesa. O garçom pensava que ele estava dormindo. Quando foram ver, estava morto. Ele morreu dormindo.
– Ah – consigo dizer, para nada dizer. Esse “morreu dormindo” é mais brutal que a imaginação anterior “arregalou os olhos”. O que pesquisarei meses adiante provará que os olhos saltados vêm de uma construção imaginosa. No entanto, apesar de mais dramáticos para uma cena teatral, na espécie de espetacularização da morte, esses “olhos arregalados” angustiam menos que “morreu dormindo”. Porque o ato de dormir é mais natural e comum que saltar os olhos, que pode significar uma falta de fôlego, uma obstrução. E dormir, por sua naturalidade inescapável, que se une a morrer, não é bem uma fórmula carinhosa, amenizadora, como se fosse o mesmo que “morreu sem dor”. Na hora, sinto, sentimos a lâmina que vai desabar também sobre as nossas cabeças. Então um homem não pode mais dormir. Que traição mais suja.

– Sei – falo, enquanto mergulho num gole longo do uísque, de vez. Eu quero me anular no álcool. E não consigo. Apenas atinjo o meu outro, fora de mim. –Sei – respondo, porque de nada eu sei. Não sei de nada e quero saber. Eu quero saber a mais elementar razão: por quê, para quê estamos vivos. – Sei – e viro o rosto de lado, talvez com aqueles olhinhos de louco, que voam rápido para os cantos, metidos em si e faros da fera que vai atacá-lo.

Na selva sem esperança recebo a cara de Luiz do Carmo no caixão, com bigode mexicano na face, que não era mais a do amigo que gritava Ula! Ula! em 1970. Do Carmo, que golpe à traição foi esse? Então a ex-companheira, como no verso de um tardio retrato 3 x 4 onde se dedicava “como prova de carinho, amor e amizade”, fala, como se nada dissesse na tarde:

– Ele estava comemorando a notícia da publicação do próximo livro.
– Um livro?
– Um livro, que a editora em Pernambuco vai publicar.
– Um livro – murmuro.
Um livro, sinto, eis uma razão para viver. Não sei agora se é um barco salva-vidas na hora do naufrágio, mas em mim, até o mais imo, sei que é uma razão de viver, e de morrer. Nesse momento o cidadão Luiz do Carmo se ergue sobre a mesa, e não é mais o ridículo bigode de filme de hollywood. Não. O senhor Luiz do Carmo é um homem que acredita num lugar mais alto que falecer na mesa de um bar, sozinho. O ex-falecido Luiz do Carmo é um escritor capaz de frases laminares que vão além da lápide, como aqui:

“Engoliu a metade da bebida e acendeu um cigarro oferecido por ela. Os dois fumando. O fio preto do querosene juntou-se à fumaça dos cigarros. Se houvesse relógio na parede, teria ponteiros desinteressados nas horas”.

E me vem, de 1970:
– Ula, Ula, o que você vai fazer com o disco de Ella Fitzgerald?
– Eu vou escutar Ella quando eu tiver um toca-discos.
– Ula, Ula, vamos ver a manhã nascendo no cais.
E depois, ele me pergunta na maturidade, na mais longa duração da juventude:
– Júlio, você já leu os contos de Memória de Caçador, de Turguêniev? É um autor do grande mundo da literatura.
Então, de repente, mais de repente que a sua própria morte, me atinge o pensamento como um raio na tarde:
– Luiz do Carmo tem que ser enterrado com a bandeira do partido. Ele não pode partir sem a bandeira do partido.

Para mim, no momento, é oculto o processo de luz, emoção, que resulta na necessidade do seu caixão se envolver com a bandeira vermelha da foice e martelo. Não sei como veio o salto do livro e da morte para a bandeira do partido. Mas sei que veio com força o desejo de ver a bandeira, que significava, “esta é a sua identidade”. E o cheiro de álcool, de bagaço, da cana esmagada de Goiana me chegou mais forte. E veio a fragrância da aguardente, de outra mesa, em outro lugar e dia, quando ele me falou que um dos valores máximos da sua vida era o partido. E a literatura, que ele não declarou, mas sei agora, como se fosse um amor escondido, clandestino, paixão pecaminosa, de tabu, que o fez morrer na mesa de um bar, comemorando a publicação do novo livro.

Na hora, o que me assalta em mistura de alegria, dor e angústia em mais um movimento absurdo, inexplicável, de dor e alegria em um só sentimento, é a urgência da bandeira do Partido Comunista do Brasil. Para os ateus, ou como falaria Luiz do Carmo, “para os materialistas históricos, dialéticos, sob as luzes de Marx, Engels e Lênin”, onde falta Deus há uma continuação da vida na luta histórica da militância. Quem é de fora não entende. É mais que a perpetuação de um só personagem, como o Fantasma do gibi, das histórias em quadrinhos. Na historinha, as gerações se sucedem e vestem o mesmo uniforme e máscara, de tal modo que serão sempre o mesmo Fantasma. Mas não como os militantes comunistas. Eles são mortos, falecem, caem, mas os que ficam vão para o lugar do que se foi ou partiu. E o que se foi continua em nova vida pelo fio histórico da atividade partidária. Isso eu compreendia, dentro de uma compreensão cética. Mas ali, quando me ocorreu a necessidade da bandeira do partido em seu caixão, os motivos eram outros. Os motivos não eram assim desse modo grandiloquente, ou pelo menos guardavam uma distância do extraordinário, do retumbante. Quero e preciso dizer: quando eu vagava em um vale de almas penadas sem uma razão para a vida, me veio a bandeira vermelha, que era uma razão para ele. Mas uma razão que traduzo de modo diverso, quando busco o terrorista a partir daquela noite no puteiro da Vigário de Tenório. O tecido vermelho se abre mais amplo e sobre ele caminhamos sem que nos tivéssemos dado conta, desde 1970. Como vou escutar Ella Fizgerald sem ter nem um toca-discos? A resposta parece vir agora, estendida na mais longa duração da juventude. A mais longa duração da juventude, observo à distância. Mas isso é tão grandiloquente, que melhor é dizer: enterrem Luiz do Carmo com a bandeira do partido.

O inventário de Lara de Lemos – a herança de um tempo malsinado [a ditadura militar]

Lara de Lemos deixou-nos fisicamente, em 2010. Uma Poeta de linha de frente, autora de clássicos como “Aura Amara” e “Águas da Memória”.

Um dos últimos livros publicados pela gaúcha (contemporânea de Maria Carpi e Leonor Scliar -Cabral) é o tema de nosso relevante assunto: Inventário do Medo (1997), onde a escritora rememora, e vivencia em poemas, a dura imagem da ditatura militar no nosso país.

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Dá-se o dito

por não dito

dá-se o dado

por não dado.

Dá-se o dado

por perdido

dá-se o braço

por torcido

Dá-se o vidro

por partido

dá-se o grito

sufocado

Dá-se o medo

desmedido

dá-se o corpo

dizimado.

Nani

Nani

O tal do Tempo malsinado é precedido por muitas celas de terror:

Eram corpos de trevas e lonjuras

cobertos de brasas e feridas.

Pelas noites sombrias eles choravam,

pela manhã cinzenta adormeciam.

Eram corpos doridos que sofriam,

sem repouso, sem calma, sem estima,

Descalços, nus, pele encardida,

olhos que olhavam sem retina.

Lamentos de homens soterrados

em negros cativeiros, sem

o pão e o lume necessários.

Comparsas no medo, desolados

pressentiam, em pátios silenciosos,

os próximos passas imprecisos.

——

Viajo entre túneis de sono

como um cão vadio à procura

do dono.

Viajo em barcos fantasma

onde o tempo retrocede em busca

da alma.

Viajo consultando arquivos

e a memória ilumina rostos

redivivos.

Viajo procurando portos

e me encontro no país

dos mortos.

—-

No escuro – cegueira,

no sangue – soro ácido

na hora vazia – cansaço.

Na noite desvivida – insônia

no dia amordaçado – sono,

no ardor renovado – asco.

——-

Aprisionados no estreito retângulo

vislumbramos o azul

entre grades de ferro.

Breve encanto

– estratégia de hera,

teimosia de musgo.

Carlos David Fuentes

Carlos David Fuentes

——

Lara de Lemos explora a sequência de um ato criminoso, desde o instante decisivo ao momento doloroso das reminiscências.

Assim o seu livro está distribuído:

I – INVASÃO DE DOMICÍLIO

II – TEMPO DE INQUISIÇÃO

III- CELAS

IV- REMINISCÊNCIAS

É nítido: primeiro a busca, depois o interrogatório, a prisão no extremo e o sofrimento, ao ser tolhido a liberdade do sonho.

A dúvida e o gesto

antecipam julgamentos.

Presa na garganta

a resposta é a mola

da desgraça e da luta.

Tantas as perguntas,

tantas as denúncias,

tantos os indícios de culpa.

que só resta

aceitar a sentença

e beber, sem pressa, a cicuta.

A partir da culpa

(falsa ou verdadeira)

o homem muda o destino

perde o direito ao protesto

fica sem beira nem eira

é apenas: o culpado.

—-

Cantarei versos de pedras.

Não quero palavras débeis

para falar do combate.

Só peço palavras duras,

uma linguagem que queime.

Pretendo a verdade pura:

a faca que dilacere,

o tiro que nos perfure,

o raio que nos arrase.

Prefiro o punhal ou foice

às palavras arredias.

Não darei a outra face.

Um dia, de repente,

arrastam-nos à força

para um lugar incerto.

Um dia, de repente,

desnudam-nos impudica/

mente.

Um dia, de repente

é o duro frio

do escuro catre.

Um dia, de repente,

somos apenas um ser vivo:

verme ou gente?

De súbito é o susto

estampado no rosto

refletido no espelho

parado na garganta.

Invasores transitam

pelo quarto

desrespeitam o sono

em furor incontido.

Colocam algemas

em pulsos inocentes.

Contra palavras – há muros

contra lamentos, murros.

Levam jovens na mira

de fuzis reluzentes.

De que serve a palavra

se a desdida brinca com a sorte

num perverso jogo

de inventar vida e morte?

De que serve a dor

ou o grito contido

se sentir, seja o que for,

é pânico e perigo?

De que serve a voz

do algoz e o precipício

se o desastrado ser

já foi proscrito?

POEMAS DE LARA DE LEMOS

MINUTA DE DIEGO MENDES SOUSA

“Nossa vida não termina diante da pedra de um sepulcro”

A pedra removida

 

vaticano ressur

«A pedra do sofrimento foi removida deixando espaço à esperança»: na evocativa imagem escolhida pelo Papa Francisco para descrever «o grande mistério da Páscoa», está a chave de leitura para viver o tríduo santo. De facto, na vigília do início das celebrações pascais, o Pontífice dedicou a audiência geral ao «ápice de todo o ano litúrgico» e, acrescentou, «também o ponto culminante da nossa vida cristã». Porque, explicou aos numerosos fiéis presentes na praça de São Pedro, «a nossa vida não acaba diante da pedra de um sepulcro»; ao contrário, «vai além com a esperança em Cristo que ressuscitou precisamente daquele sepulcro».

“Adorando a Cruz, olhando Jesus, pensemos no amor, no serviço, na nossa vida, nos mártires cristãos e também nos fará bem pensar no final da nossa vida. Ninguém de nós sabe quando isso vai acontecer, mas podemos pedir a graça de poder dizer: Pai, fiz o que pude. Está consumado”.

 

Última Ceia (C. 1150). Catedral de Chartres, França

Última Ceia (C. 1150). Catedral de Chartres, França

 

O Tríduo se abre com a celebração da Última Ceia. Jesus, na véspera de sua paixão, oferece ao Pai o seu corpo e o seu sangue sob as espécies de pão e de vinho e, doando-os em alimento para os apóstolos, ordenou-lhes perpetuar a oferta em sua memória. O Evangelho desta celebração, recordando o lava pés, exprime o mesmo significado da Eucaristia sob outra perspectiva. Jesus – como um servo – lava os pés de Simão Pedro e dos outros onze discípulos (cfr Jo 13, 4-5). Com esse gesto profético, Ele exprime o sentido da sua vida e da sua paixão, aquele do serviço a Deus e aos irmãos: “O Filho do homem, de fato, não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10, 45).

Isso aconteceu também no nosso Batismo, quando a graça de Deus nos lavou do pecado e fomos revestidos de Cristo (cfr Col 3, 10). Isso acontece cada vez que fazemos o memorial do Senhor na Eucaristia: fazemos comunhão com Cristo Servo para obedecer ao seu mandamento, aquele de nos amarmos como Ele nos amou (cfr Jo 13, 34; 15, 12). Se nos aproximamos da santa Comunhão sem estarmos sinceramente dispostos a lavarmos os pés uns dos outros, não reconhecemos o Corpo do Senhor. É o serviço de Jesus que doa a si mesmo, totalmente.

Depois, depois de amanhã, na liturgia da Sexta-Feira Santa, meditamos o mistério da morte de Cristo e adoramos a Cruz. Nos últimos instantes de vida, antes de entregar o espírito ao Pai, Jesus disse: “Está consumado!” (Jo 19, 30). O que significa esta palavra? Que Jesus diga: “Está consumado”? Significa que a obra da salvação está cumprida, que todas as Escrituras encontram seu cumprimento no amor de Cristo, Cordeiro imolado. Jesus, com seu Sacrifício, transformou a maior injustiça no maior amor.

Ao longo dos séculos há homens e mulheres que, com o testemunho da sua existência, refletem o raio deste amor perfeito, pleno, não contaminado. Gosto de recordar um heroico testemunho dos nossos dias, Don Andrea Santoro, sacerdote da diocese de Roma e missionário na Turquia. Algum dia antes de ser assassinado em Tresbisonda, escreveu: “Estou aqui para morar no meio desse povo e permitir a Jesus fazê-lo emprestando-lhe a minha carne… Uma pessoa se torna capaz de salvação somente oferecendo a própria carne. O mal do mundo seja suportado e a dor seja partilhada, absorvendo-a na própria carne até o fim, como fez Jesus” (A. Polselli, Don Andrea Santoro, as heranças, Cidade Nova, Roma 2008, p. 31). Este exemplo de um homem dos nossos tempos e tantos outros nos apoiam em oferecer a nossa vida como dom de amor aos irmãos, à imitação de Jesus. E também hoje há tantos homens e mulheres, verdadeiros mártires que oferecem suas vidas com Jesus para confessar a fé, somente por esse motivo. É um serviço, serviço do testemunho cristão até o sangue, serviço que Cristo noz fez: redimiu-nos até o fim. E este é o significado daquela palavra “Está consumado”. Que belo será se todos nós, ao fim da nossa vida, com os nossos erros, os nossos pecados, também com as nossas boas obras, com o nosso amor ao próximo, possamos dizer ao Pai como Jesus: “Está consumado”; não com a perfeição com a qual Ele disse, mas dizer: “Senhor, fiz tudo o que pude fazer. Está consumado”. Adorando a Cruz, olhando Jesus, pensemos no amor, no serviço, na nossa vida, nos mártires cristãos e também nos fará bem pensar no final da nossa vida. Ninguém de nós sabe quando isso vai acontecer, mas podemos pedir a graça de poder dizer: “Pai, fiz o que pude. Está consumado”.

O Sábado Santo é o dia em que a Igreja contempla o “repouso” de Cristo no túmulo depois do vitorioso combate da cruz. No Sábado Santo, a Igreja, uma vez mais, se identifica com Maria: toda a sua fé é recolhida nela, a primeira e perfeita discípula, a primeira e perfeita crente. Na obscuridade que envolve o criado, Ela permanece sozinha a manter acessa a chama da fé, esperando contra toda esperança (cfr Rm 4, 18) na Ressurreição de Jesus.

E na grande Vigília Pascal, em que ressoa novamente o Aleluia, celebramos Cristo Ressuscitado centro e fim do cosmo e da história; vigiamos cheios de esperança à espera do seu retorno, quando a Páscoa terá a sua plena manifestação.

Às vezes a escuridão da noite parece penetrar na alma; às vezes pensamos: “agora não há mais nada a fazer” e o coração não encontra mais a força de amar… Mas justamente naquela escuridão Cristo acende o fogo do amor de Deus: um brilho quebra a escuridão e anuncia um novo início, algo começa no escuro mais profundo. Nós sabemos que a noite é “mais noite”, é mais escura pouco antes que comece o dia. Mas justamente naquela escuridão é Cristo que vence e acende o fogo do amor. A pedra da dor é abatida, deixando espaço à esperança. Eis o grande mistério da Páscoa! Nesta noite santa, a Igreja nos entrega a luz do Ressuscitado, para que em nós não haja o remorso de quem diz “por agora…”, mas a esperança de quem se abre a um presente cheio de futuro: Cristo venceu a morte, e nós com Ele. A nossa vida não termina diante da pedra de um sepulcro, a nossa vida vai além com a esperança em Cristo que ressuscitou justamente daquele sepulcro. Como cristãos, somos chamados a ser sentinelas da manhã, que sabem discernir os sinais do Ressuscitado, como fizeram as mulheres e os discípulos reunidos no sepulcro na aurora do primeiro dia da semana.

Queridos irmãos e irmãs, nestes dias do Tríduo Santo não nos limitemos a celebrar a paixão do Senhor, mas entremos no mistério, façamos nossos os seus sentimentos, as suas atitudes, como nos convida a fazer o apóstolo Paulo: “Tenhais em vós mesmos os sentimentos de Cristo Jesus” (Fil 2, 5). Assim, a nossa será uma “feliz Páscoa”.

 

¿Tiene cura Alemania? ¡Europeos, ayudémosla!

No, Alemania no puede enseñar civilidad o democracia a nadie. No es comprensiva ni con sus propios hijos, así que cómo va a ser una conductora o una buena educadora

hitler alemanha Merkel

por Suso de Toro

 

Quienes deseamos estabilidad en nuestras vidas y si no prosperidad al menos conformidad vivimos dando por seguras cosas que pueden serlo o no. Somos europeístas y deseamos una Europa en el mundo que represente las libertades personales y cierta comprensión social, todo bien, ¿pero y si ese propósito tan razonable es un imposible? ¿Y si estamos presos de nuestra fe europeísta?

Europa es un gigante cultural y económico, con el parlamento más democrático donde están representadas la mayor diversidad de posturas, una democracia que los intereses norteamericanos quieren retratar como “la vieja Europa”, sin embargo es un adolescente que no acaba de madurar. La crisis actual lo demuestra. Está atrapada entre los estados que la fundaron y un futuro posible como gran potencia, su historia y su fuerza viene de los estados pero los problemas que le causan daños internos también.

Para actuar como una potencia autónoma en el mundo, no estar supeditada a EEUU, tendría que tener un liderazgo y ese liderazgo tiene que nacer de uno o dos de los estados existentes. Es evidente que tendría que ser de Alemania, pero también es evidente que Alemania es totalmente incapaz de liderar a los europeos y se comporta como una potencia egoísta que practica el abuso de poder como una forma natural de la política. No sólo es incapaz como líder sino que actúa como un peligro interno pues solo practica políticas de humillación y expolio. ¿Tiene solución Alemania o debemos darla por imposible? No sé si alguien lo sabe, yo no.

Un recorrido por la tierra alemana o por su historia demuestra que no solo es imposible una Europa sin Alemania sino que es el centro inevitable de cualquier idea europea. Y ya no hablo de su poderío y creatividad económica, científica, tecnológica y cultural. Su propia lengua resurge entre los europeos, mal que bien todos iremos aprendiendo algo de alemán como lo hacían las generaciones ilustradas hace cien años. Sin embargo Alemania es un peligro, un gigantón con cabeza de niño caprichoso y salvaje que una vez y otra bate contra la pared y no aprende. No, no es cierta la confianza en que descansa el sueño europeo, Alemania no aprende. Y claro que lo que vivimos es que se está comportando como siempre, ella contra los países que la rodean. No pretende liderar Europa, pretende dominar su “espacio vital”, su “lebensraum”.

Es un estado europeo muy peculiar, no tuvo las experiencias propias de las potencias coloniales, como Inglaterra, España o Francia, ni tampoco la vida cívica de las sociedades burguesas. Unificado el territorio por los “junkers” de Prusia, aquella que idealizaba infantilmente Ortega, que crearon una cultura de estado burocrática y militarista, incluso periodos con democracia parlamentaria estuvieron marcados por la tutela carismática de militares nacionalistas como Hindenburg y Lundendorff, el único periodo donde se pudo desarrollar vida civil fue en la república de Weimar, una época asimismo marcada por los conflictos sociales y la crisis de 1929. La época nazi no solo educó a la población en el salvajismo inhumano también eliminó físicamente a los elementos críticos y civilizadores. Tras la guerra la reconstrucción de la economía y la sociedad fue conducida por los mismos poderes que habían provocado el desastre, con la tutela de los EE.UU. Y cuando cae el muro de Berlín y la RDA es engullida se integró una población que no había tenido tampoco experiencias democráticas. Puede que no sea casualidad que Angela Merkel sea una criatura producto de esa sociedad tan rígida e implacable.

No olvido a Goethe, a los escritores nos gusta más Hölderlin pero el cortesano de Weimar en “Poesía y verdad” demuestra que es cabalmente el primer europeo, encarna una Europa tolerante. Sin embargo la historia nos recuerda el fracaso del espíritu ilustrado en Alemania: al mismo roble debajo del que se sentaba Goethe a escribir poemas le construyeron alrededor un campo de exterminio, acabó delante de las cocinas de Buchenwald.

No, Alemania no puede enseñar civilidad o democracia a nadie. No es comprensiva ni con sus propios hijos, así que cómo va a ser una conductora o una buena educadora. “La muerte es un maestro venido de Alemania“, ese frágil verso de Paul Celan es lapidario.

Entonces, ¿qué va a ser de Europa? ¿O qué podemos hacer? Lo único que podemos hacer los pobrecitos europeos de los países que sirven a su ama es decirle lo que es, tan fuerte, admirable y también tan detestable. Lo único que podemos hacer por Alemania es criticarla, mostrarle un espejo hecho por nosotros, por los demás europeos y que se vea como la vemos. (El Diario. Es)