Cabo Anselmo está em um domínio onde o amor e a solidariedade não têm lugar nem razão de ser

Soledad Barrett depois da primeira anistia

por Urariano Mota

 

A grande mídia, os meios de comunicação fizeram absoluto silêncio nos últimos dias para a notícia de que a guerrilheira Soledad Barrett recebera a sua primeira anistia.

Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia fez o comunicado em 11 de dezembro. Mas a notícia correu apenas no peito da parcela mais civilizada do Brasil. Notem, a guerrilheira que foi mulher do cabo Anselmo, e por ele fora entregue grávida ao assassino Fleury, com mais 5 bravos militantes, bem que merecia o conhecimento geral do seu primeiro anúncio de justiça.

A imprensa do capital não fala, mas os artistas e militantes de direitos humanos bem sabem a importância de Soledad Barrett. No romance que agora escrevo, cujo título provisório é “Em busca do terrorista”, tenho a ambição de fazer um inventário da geração dos socialistas que eu vi. Nele, a bela Soledad reaparece como uma das personagens. Divulgo aqui um pequeno trecho da sua volta.

“Na noite em que acabamos de ver a comovente recriação de Soledad no palco do teatro Hermilo Borba Filho, quando a atriz Hilda Torres entrou em transe da personagem Sol levada à cena, transe naquele sentido dos aparelhos, dos médiuns em terreiros, depois da mágica hora em que Soledad ressurgiu, depois disso no café, no pátio do teatro Hermilo, eis que a filha única de Soledad, a sempre menina e jovem Ñasaindy, se aproxima e abraça o ex-preso político Karl Marx. (Não se espante jamais o leitor que a ficção se misture ao real nestas páginas. Não é método nem artifício, é da realidade vista e testemunhada.) Naquele instante em que eu conversava com Marx, Ñasaindy vem e lhe dá um súbito abraço. Então Marx para e com os olhos rasos lhe fala, com a voz embargada:

– Parece que estou abraçando a sua mãe. Ela era assim.

Se fosse um poema, talvez a frase acima encerrasse um verso. Mas esta é uma narração e o narrador não recebe a misericórdia de ser humano em uma linha apenas. Quero dizer, primeiro do que tudo. Quarenta e dois anos adiante, o abraço da filha, o rosto, o calor da filha reacendia em Marx a ternura da mulher que havia sido destruída no corpo, e depois passaria todo o futuro próximo a vagar como se fosse alma de mãe desnaturada e terrorista. Em segundo lugar, digo que na reconstrução da vida, difícil é dizer o que vem primeiro. Soledad está no quintal da casinha de Marx. Da cozinha ela fora até o quintal, e conversa com as companheiras de Marx e Lenin, os dois irmãos assim nomeados pelo pai, velho comunista. As mulheres sentadas fazem sapatinhos de croché para o bebê que Soledad espera. Dizem das mulheres grávidas que ficam mais belas. Mas ao viço natural das cores há na mulher que daria à luz, que engravida em angústia, uma sombra, um olhar que não vai ao futuro, que se furta e se dirige ao chão. Assim foi com Maria, em um subúrbio do Recife em 1958. Assim é com Soledad, em dezembro de 1972. Ali, entre as mulheres do povo em Jaboatão, os silêncios, a finura e gentileza de Soledad ganham a reputação de “moça muito educada”. O que vale dizer, há nela um tom de voz que não se eleva, uma atenção absoluta ao que as companheiras falam, um sorriso triste às confidências femininas onde existe solidariedade sem que se pronuncie esse nome. E, justiça seja feita, na beleza da estrangeira não se vê ameaça, porque Soledad não se insinua ou se exibe, antes procura anular qualquer fetiche de conquista no contato com os homens. Nada de sorrisos descabidos para ser simpática, o que o vulgo masculino sempre interpreta como um convite. Nada de palavras ambíguas, ou de estímulos à corte, ou de se pôr como sexo frágil para ser tratada como uma especial. Ali, ainda não o sabemos, mas Soledad vem de treinamentos pesados na guerrilha em Cuba, onde rejeitara qualquer privilégio, como em 2009 me contaria o ex-guerrilheiro Aton Fon, dentro de um ônibus no Rio de Janeiro. Ele a conhecera em Cuba.

– Como era Soledad? – eu lhe pergunto.

Fon apoia a cabeça no encosto da cadeira e fecha os olhos.

Eu espero, sorrindo íntimo, que ele fale sobre o encanto lírico das formas da mulher. Mas ele me responde, depois de um silêncio:

– Ela era muito, muito séria.

– Como assim? – pergunto.

– Ela rejeitava qualquer ajuda para o equipamento que carregava. Subindo a serra, ela rejeitava. ‘Eu sou igual ao companheiro’, ela dizia. ‘Eu me viro sozinha’.

– Ela era uma das poucas mulheres no treinamento de guerrilha. Você nunca se enamorou dela? – pergunto.

– Eu nem cogitava.

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Uma repórter de bom coração, com mágoa e emocionada, perguntaria ao cabo Anselmo muitos anos depois:

– Mas você amava Soledad?

Ele, recebendo a susto o golpe da pergunta, procura ganhar tempo :

– Eu?…. Olha, é um sentimento difícil pra mim. Ela era uma pessoa linda, poeta, falava várias línguas… O que aconteceu com ela não foi culpa minha, entende? Foi ela quem se condenou, não fui eu. Por mim, ela estava fora do massacre.

– E por que você não a avisou?

– Está louca? Eu ia ser morto se abrisse pra ela o que eu sabia.

– Morto por quem? Por ela ou pela repressão?

– Por ela, claro. Sol … ela era uma pessoa muito ideológica. Cruel, com aquela carinha de santa.

– Ela era cruel? – a repórter pergunta tendo na lembrança a imagem do corpo de Soledad no necrotério. – Cruel?

– Você nem imagina do que são capazes os comunistas. Eles matam mesmo.

– Você está vivo.

– Sim, só Deus sabe como. Eu fui o sorteado pra sobreviver.

A repórter para e não quer saber se ele atribui à roleta da vida o seu plano sistemático de infiltração, entrega de companheiros e permanentes novas quedas. Ele, o sorteado. A ironia não deve descer a esse ponto. A repórter se preocupa com algo, para ela, mais essencial.

– Mas você amava Soledad?

– Olha… eu amava Soledad. Mas um amor à minha maneira, entende?

– Como assim, à sua maneira?

– Assim… eu tinha afeição, amor por ela. Mas o amor pra mim é uma coisa prática, entende?

– Entendo. Sacrificar a sua vida pela amada, nunca.

– Isso é romantismo.

– E você se ama, Anselmo?

– Claro. Eu sou um cara normal.

Então Anselmo sorri com um sorriso que não ouso adjetivar. Ele poderia ter falado: ‘Amo a mim mesmo acima de todas as coisas. Amo só e somente a mim’, e não seria mais eloquente que a fala ‘eu sou um cara normal’. Ao se expressar assim, ele também quis dizer: se fizerem um matadouro, se sangrarem uma mulher feito porco, eu não sou o porco. Esse bicho destripado não me diz respeito. Não importa se o porco é Soledad, se lhe arrancaram o feto a porrada, não é comigo, eu não sou a porca Soledad. Eu sou um cara normal. Eu me amo. Eu me amo a mim mesmo, só a mim, somente a mim e a mais ninguém. Com todas as minhas foças, esperteza e inteligência. Durmo bem, do alto do meu conforto. Porco é quem é sangrado na tortura. Eu, coitado de mim, tenho horror à sujeira do sangue. Eu sou um cara educado, com alma de artista, de formação cristã, entende? Mas não sou Cristo. Nem Cristo nem porco.

Então a repórter recolhe o gravador, porque sabe agora que o cabo Anselmo está em um domínio onde o amor e a solidariedade não têm lugar nem razão de ser. Ele é um extraterrestre que não entende a língua dos que sentem a dor alheia. De repente dá nela uma vontade de tocá-lo para ver se ele é mesmo de carne e osso. Mas assim não faz por ter medo de que ele transmita um vírus de brutalidade e cinismo, que no Brasil ainda não têm vacina ou remédio”.

 

Trecho inédito do novo romance de Urariano Mota
Soledad Barrett reaparece como uma das personagens

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José Dirceu, Alice no País das Maravilhas e Hiroshima

por Urariano Mota

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Os apelos da política imediata parecem alienar a gente da história do mundo. Nesta semana, completam-se 70 anos do genocídio das bombas sobre Hiroshima e Nagasáqui. No dia 6, o governo dos Estados Unidos lançou a bomba atômica sobre Hiroshima. No dia 9, ampliou o seu crime sobre o povo de Nagasáqui. E no entanto, crimes tamanhos contra a humanidade parecem desaparecer ante os apelos urgentes da política nacional, que exigem a reflexão imediata, porque um golpe de Estado está em marcha.

Esta semana, como um passo a mais que leve ao presídio e à desmoralização do líder Lula, se deu a nova prisão do ex-ministro José Dirceu. Ele, que já se encontrava aprisionado, talvez porque pudesse fugir da prisão domiciliar, foi novamente preso e transferido para a polícia federal da conspiração de Curitiba. Digo da conspiração porque delegados federais da Lava Jato já insultaram Lula e Dilma nas redes sociais. Mas o ministro da Justiça, no Olimpo, não tomou conhecimento.

Continuemos. Quando houve o julgamento de José Dirceu, naquela primeira farsa, a do Mensalão, escrevi que ele havia sofrido um julgamento de Alice. Ou seja, aquele julgamento que Lewis Carrol escrevera para Alice no País das Maravilhas. Por sinal, no mês passado se completaram 150 anos da publicação do livro. E quanto é atual no absurdo e arbitrariedade da cena do julgamento de Alice. Acompanhem e sintam a semelhança profunda que há ali e nas páginas de José Dirceu esta semana.

LLM459194 The Trial in Alice's Adventures in Wonderland by Tenniel, John (1820-1914) (after); Private Collection; (add.info.: The Trial in Alice's Adventures in Wonderland by Lewis Carroll (De Wolfe, c 1890).  Image slightly re-touched to remove tissue paper.); © Look and Learn; English,  out of copyright

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“- Não, não! – berrou a Rainha. – Primeiro a sentença, depois o veredicto”.

Se substituímos a Rainha pelo conjunto imprensa e tribunal do Brasil, perceberemos que aqui também a condenação estava antes sentenciada. Mas continuemos com Alice:

“Neste momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo em seu caderno de notas, gritou:

– Silêncio! – e leu: ‘Artigo Quarenta e Dois: Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem deixar o tribunal.’

Todo o mundo olhou para Alice.

– E não irei de jeito nenhum – disse Alice; – além do mais, este artigo não é legal: você acabou de inventá-lo.

O Rei empalideceu e fechou apressadamente seu caderno de notas. ‘Façam o seu veredicto’, disse ao júri, com voz baixa e trêmula….

– Com licença de Vossa Majestade, ainda há provas a examinar – disse o Coelho Branco dando um salto: – este documento acaba de ser encontrado.

– Do que se trata? – indagou a Rainha.

– Ainda não abri – respondeu o Coelho Branco. – Mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para alguém.

– Só pode ser isso – disse o Rei, -a menos que tenha sido escrita para ninguém, o que não é muito usual.

– A quem é endereçada? – perguntou um dos ministros.

– Não é propriamente endereçada…- disse o Coelho Branco, – na verdade, não há nada escrito do lado de fora. Enquanto falava, desdobrou o papel, acrescentando: – Nem é uma carta, afinal de contas: são versos.

– Estão escritos com a caligrafia do prisioneiro? – perguntou outro.

– Não, não estão – respondeu o Coelho Branco – e isso é o mais estranho de tudo. (Todos pareciam perplexos.)

– Ele deve ter imitado a caligrafia de outra pessoa – disse o Rei. (Todos animaram-se outra vez.)

– Com licença de Vossa Majestade – disse o réu, – eu não escrevi isso, e ninguém poderá provar o contrário: não há nenhum nome assinado embaixo.

– Se você não assinou – disse o Rei – isso só piora a situação. Você certamente deve ter feito algo de errado, ou então teria assinado seu nome como qualquer pessoa honesta…

– Isso prova a sua culpa, é claro – disse a Rainha: – Logo, cortem a sua cabeça!”

Precisa dizer mais? O simulacro desse julgamento, da sentença que vem antes das provas, é repetido aqui mais uma vez na Lava Jato. Aqui, também, os critérios de condenação mudam conforme o objeto e objetivo do momento. Antes se denunciava um cartel de empresas na Petrobras que inflacionava preços para repassar uma parte ao Partido dos Trabalhadores. Agora, se estende ao governo Lula, que sob o comando do representante de Deus, mais conhecido pelo nome de José Dirceu, comprava apoio de deputados e senadores. O alvo é Lula, evidentemente. José Dirceu é a ponte que leva à maior liderança popular do Brasil.

Como da vida de José Dirceu não sairá uma delação, há de se procurar um delator com suficiente leviandade e cinismo para afirmar “Lula foi subornado por mim!”. E esta será a prova para a sentença prévia: cortem a cabeça do ex-presidente.

Enquanto o congresso sob a cabeça de Eduardo Cunha se articula para o impeachment da presidenta Dilma, e se fecha o cerco para a desmoralização da esquerda no Brasil, o mundo inteiro lembra os 70 anos das bombas sobre os japoneses, jogadas pelo império dos Estados Unidos. Mas se olharmos bem, existe um fio comum que une as bombas de Hiroshima e Nagasáqui às últimas prisões da Lava Jato. O vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, autoridade em energia nuclear, que contrariava os interesses-norte-americanos, está preso. E agora, antes de Lula, os fascistas avançam sobre José Dirceu.

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No belo poema A Rosa de Hiroshima, Vinícius de Moraes escreveu:

“Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa, sem nada”

Para os desdobramentos do que se convencionou chamar Lava Jato, talvez possamos dizer: pensem nas crianças, nas meninas, nas mulheres, nas feridas que se abrem com a ação da direita a mando do império dos Estados Unidos. Eles fazem enfim a mesma rosa radioativa, estúpida e inválida, a rosa com cirrose que destrói as conquistas do último governo popular depois de João Goulart. A antirrosa que é lava, mas de vulcão sobre a Petrobras e o Brasil. GGN/ Também na Rádio Vermelho

Capítulo de romance inédito de Urariano Mota

Um escritor sempre pronto para refletir

Urariano autógrafo

Fazendo jus a sua pena que não deixa de tecer letra a letra uma nova aventura ou reflexão, o renomado escritor e jornalista pernambucano, Urariano Mota, que também é colunista do Portal Vermelho, está trabalhando em mais um livro e nos brinda, com exclusividade, com um cálice de uma nova história.

A seguir, o primeiro capítulo de uma obra que já promete muitas reflexões sobre os dias de hoje e as transformações que remodelam a sociedade. In Portal  Vermelho

Urariano Mota: Bandeira do partido

Ao caminhar para o necrotério, próximo ao necrotério, eu não estava preparado, porque ninguém está preparado para a surpresa da morte. Ela vem como se, de repente, o chão se abrisse e mergulhássemos no escuro de um espaço sem referência. Mas minto, porque mais próximo da verdade é isto: mergulhamos no espaço escuro com a consciência dilacerada, com a memória em terremoto, os miolos deslocados à procura de um ponto de abrigo. Isto: à procura de um norte no espaço quando estamos sem nave, sem sinal de planeta ou qualquer azul com o nome de Terra. Quero dizer: eu estava e não estava naquele enterro. Eu me via nele, mas o que chamo de meu corpo não estava ali. Quero dizer enfim do modo mais claro: o meu ser, o nosso ser ainda não havia sido respondido naquela morte. A nossa vida ainda estava sem reflexão ou resposta.

Eu me deixei sentar, antes, caí sentado num bar perto do necrotério. Eu me sentei como um pugilista atordoado senta no banquinho no intervalo do gongo. Haverá um próximo assalto, eu sabia, e como fera acuada via pelos cantos dos olhos, pelos cantos da consciência um ligeiro raio que passava gritando, no próximo assalto é você. Os próximos são vocês. Nesta altura da idade, fala o estúpido bom senso, somam-se as quedas biológicas. “Quedas”, um outro gênero de quedas, diferentes e iguais à morte na ditadura, porque morremos quando tudo está por se construir, antes e agora. Lembrança do poeta Alberto da Cunha Melo:

“Tudo condenado a nascer
e essa urgência de terminar
o que será realizado
de qualquer maneira a seu tempo”.

Mas é tão diferente, hoje. Estamos na legalidade, o partido, se não é o poder, é chamado ao poder pela força da sua militância. Sim, tudo é tão diferente, mas a morte do camarada nos expõe a fratura do que parecia confortável, estabilizado: “acorda, o ser não foi respondido”. O porquê da vida continua sem resposta. Acorda, porque o tempo é adverso, a duração do tempo é adversária, a resposta não virá andando, a resposta deve ser buscada.

Se assim nos chama a voz que reflete o raio fugaz, na hora não a ouvimos bem, ainda que se apresente pelo seu portador, o corpo morto de Luiz do Carmo. Por isso divagamos na mesa, eu, minha esposa e uma antiga namorada de Luiz. Tomamos distância das questões mais graves, apesar do abalo sísmico sob nossos pés. Em lugar da olhada de frente, evitamos a procura essencial: “onde está o nosso ser?”. Temos os olhos rápidos para os cantos, olhos de louco, de animal a farejar o inimigo que vem pular em cima de nós.

– Como ele morreu? – pergunto. E com isso gostaria de fazer de conta que as circunstâncias explicam a razão da sua morte.
– Foi de repente. Passou mal de repente – a ex-namorada me responde.
– Ele estava em casa?
– Não, foi num bar.
– Ah! – exclamo.
Ah, se não fosse num bar, se ele não estivesse levando a vida que levava, estaria vivo. E assim sou compreendido na mesa, e dessa forma somos iludidos.
– Eu soube que ele andava meio solitário – a ex-companheira fala. – Bebia muito.
– Ah! sei – fala minha esposa.

Peço outra bebida, eu não estou solitário, então eu posso pedir outra. Isso até pareceria cômico, mas está na fronteira entre a comédia e o trágico. Porque o conteúdo de “bebia muito”, e por isso morreu, quer nos convencer que se não fosse o álcool ele estaria vivo, quem sabe, se para sempre. Então a morte não é um ponto de encontro com o desencontro, não é uma fatalidade biológica, é apenas e só um produto das circunstâncias. Fossem outras, ah, teríamos a duração eterna, estamos convencidos, conquistados, sem que seja necessário qualquer murro lógico. Já estamos derrubados a nocaute na ilusão.

– Mas foi num bar? – Volto, e corrijo porque estou num também: – Ele estava de passagem pelo bar?
– Ele estava bebendo – a ex-companheira responde.
– Na hora, ele bebia o quê? Você sabe? – quero saber, porque devemos evitar o que pode ter sido a causa do seu falecimento.
– Acho que era vinho – ela fala, numa versão que mais adiante saberei ser falsa. Mas talvez se refira à bebida dos namorados nas histórias românticas.
“Vinho! Num clima quente não é bom”, penso.
– Com este calor… – completa minha mulher.

Isso mesmo, eu não falo, porque tenho a desconfiança do absurdo a que gostaria de chegar, que é: está explicado, com este calor, beber vinho é o mesmo que procurar a própria morte. Faz, faria sentido, sei, mas não como a causa, e causa de gênero terrorista, causa do óbito, como eu gostaria, para então afastar de mim tudo que lembre uva, com especial distância da maldita fermentação. Mas a minha comodidade não se detém, não a consigo parar na busca de uma razão para a morte de Luiz do Carmo.

– Ele morreu lá mesmo no bar?
– Sim – a ex-companheira me responde. – Eu soube que ele estava sentado, arregalou os olhos, e desceu a cabeça por cima da mesa. O garçom pensava que ele estava dormindo. Quando foram ver, estava morto. Ele morreu dormindo.
– Ah – consigo dizer, para nada dizer. Esse “morreu dormindo” é mais brutal que a imaginação anterior “arregalou os olhos”. O que pesquisarei meses adiante provará que os olhos saltados vêm de uma construção imaginosa. No entanto, apesar de mais dramáticos para uma cena teatral, na espécie de espetacularização da morte, esses “olhos arregalados” angustiam menos que “morreu dormindo”. Porque o ato de dormir é mais natural e comum que saltar os olhos, que pode significar uma falta de fôlego, uma obstrução. E dormir, por sua naturalidade inescapável, que se une a morrer, não é bem uma fórmula carinhosa, amenizadora, como se fosse o mesmo que “morreu sem dor”. Na hora, sinto, sentimos a lâmina que vai desabar também sobre as nossas cabeças. Então um homem não pode mais dormir. Que traição mais suja.

– Sei – falo, enquanto mergulho num gole longo do uísque, de vez. Eu quero me anular no álcool. E não consigo. Apenas atinjo o meu outro, fora de mim. –Sei – respondo, porque de nada eu sei. Não sei de nada e quero saber. Eu quero saber a mais elementar razão: por quê, para quê estamos vivos. – Sei – e viro o rosto de lado, talvez com aqueles olhinhos de louco, que voam rápido para os cantos, metidos em si e faros da fera que vai atacá-lo.

Na selva sem esperança recebo a cara de Luiz do Carmo no caixão, com bigode mexicano na face, que não era mais a do amigo que gritava Ula! Ula! em 1970. Do Carmo, que golpe à traição foi esse? Então a ex-companheira, como no verso de um tardio retrato 3 x 4 onde se dedicava “como prova de carinho, amor e amizade”, fala, como se nada dissesse na tarde:

– Ele estava comemorando a notícia da publicação do próximo livro.
– Um livro?
– Um livro, que a editora em Pernambuco vai publicar.
– Um livro – murmuro.
Um livro, sinto, eis uma razão para viver. Não sei agora se é um barco salva-vidas na hora do naufrágio, mas em mim, até o mais imo, sei que é uma razão de viver, e de morrer. Nesse momento o cidadão Luiz do Carmo se ergue sobre a mesa, e não é mais o ridículo bigode de filme de hollywood. Não. O senhor Luiz do Carmo é um homem que acredita num lugar mais alto que falecer na mesa de um bar, sozinho. O ex-falecido Luiz do Carmo é um escritor capaz de frases laminares que vão além da lápide, como aqui:

“Engoliu a metade da bebida e acendeu um cigarro oferecido por ela. Os dois fumando. O fio preto do querosene juntou-se à fumaça dos cigarros. Se houvesse relógio na parede, teria ponteiros desinteressados nas horas”.

E me vem, de 1970:
– Ula, Ula, o que você vai fazer com o disco de Ella Fitzgerald?
– Eu vou escutar Ella quando eu tiver um toca-discos.
– Ula, Ula, vamos ver a manhã nascendo no cais.
E depois, ele me pergunta na maturidade, na mais longa duração da juventude:
– Júlio, você já leu os contos de Memória de Caçador, de Turguêniev? É um autor do grande mundo da literatura.
Então, de repente, mais de repente que a sua própria morte, me atinge o pensamento como um raio na tarde:
– Luiz do Carmo tem que ser enterrado com a bandeira do partido. Ele não pode partir sem a bandeira do partido.

Para mim, no momento, é oculto o processo de luz, emoção, que resulta na necessidade do seu caixão se envolver com a bandeira vermelha da foice e martelo. Não sei como veio o salto do livro e da morte para a bandeira do partido. Mas sei que veio com força o desejo de ver a bandeira, que significava, “esta é a sua identidade”. E o cheiro de álcool, de bagaço, da cana esmagada de Goiana me chegou mais forte. E veio a fragrância da aguardente, de outra mesa, em outro lugar e dia, quando ele me falou que um dos valores máximos da sua vida era o partido. E a literatura, que ele não declarou, mas sei agora, como se fosse um amor escondido, clandestino, paixão pecaminosa, de tabu, que o fez morrer na mesa de um bar, comemorando a publicação do novo livro.

Na hora, o que me assalta em mistura de alegria, dor e angústia em mais um movimento absurdo, inexplicável, de dor e alegria em um só sentimento, é a urgência da bandeira do Partido Comunista do Brasil. Para os ateus, ou como falaria Luiz do Carmo, “para os materialistas históricos, dialéticos, sob as luzes de Marx, Engels e Lênin”, onde falta Deus há uma continuação da vida na luta histórica da militância. Quem é de fora não entende. É mais que a perpetuação de um só personagem, como o Fantasma do gibi, das histórias em quadrinhos. Na historinha, as gerações se sucedem e vestem o mesmo uniforme e máscara, de tal modo que serão sempre o mesmo Fantasma. Mas não como os militantes comunistas. Eles são mortos, falecem, caem, mas os que ficam vão para o lugar do que se foi ou partiu. E o que se foi continua em nova vida pelo fio histórico da atividade partidária. Isso eu compreendia, dentro de uma compreensão cética. Mas ali, quando me ocorreu a necessidade da bandeira do partido em seu caixão, os motivos eram outros. Os motivos não eram assim desse modo grandiloquente, ou pelo menos guardavam uma distância do extraordinário, do retumbante. Quero e preciso dizer: quando eu vagava em um vale de almas penadas sem uma razão para a vida, me veio a bandeira vermelha, que era uma razão para ele. Mas uma razão que traduzo de modo diverso, quando busco o terrorista a partir daquela noite no puteiro da Vigário de Tenório. O tecido vermelho se abre mais amplo e sobre ele caminhamos sem que nos tivéssemos dado conta, desde 1970. Como vou escutar Ella Fizgerald sem ter nem um toca-discos? A resposta parece vir agora, estendida na mais longa duração da juventude. A mais longa duração da juventude, observo à distância. Mas isso é tão grandiloquente, que melhor é dizer: enterrem Luiz do Carmo com a bandeira do partido.

Urariano Mota: Há uns desonestos cuja reflexão para a literatura é dizer que ela serve para nada

Urariano autógrafo

Identidade de esquerda e literatura

Esta entrevista foi concedida ao poeta e pesquisador Clóvis Campêlo, que a publicou no seu blog Geleia General

“Não tenho dúvidas, era a mesma pessoa. Já vira aquele menino antes, na zona norte, em outra transversal do tempo. Não era muito bom jogando bola, mas contava histórias como ninguém. E gostava de pular o muro do terreno de seu Lula, para pegar azeitonas pretas. Não seria difícil conversar com ele. Afinal já nos conhecíamos, mesmo que de vista. Andáramos pelas mesmas ruas, comemos os abacaxis do Mercado de Água Fria, cortamos os cabelos com o mesmo barbeiro da Rua Japaranduba. Era um velho conhecido. Foi só lhe dirigir a palavra e a conversa aconteceu. Não na praia do Pina ou em alguma esquina de Água Fria, mas nas terras férteis da internet. O resultado dessa conversa está colocada abaixo. Com muita sinceridade (Clóvis Campêlo).

Clóvis Campêlo – Quando foi que um anjo torto te disse para ser ‘gauche’ na vida?

Urariano Mota – Em lugar dos versos ‘Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida’, na minha vida, em mais de uma oportunidade, não houve qualquer anjo. Pelo contrário, muitas vezes, na infância e já adolescente, eu senti que um ‘urubu pousou na minha sorte’, para lembrar o verso definitivo de Augusto dos Anjos. Pouso e sem pose, nada retórico. Nem mesmo Deus. Caso semelhante ao do narrador em O Filho Renegado de Deus: ‘Eu tenho um acerto pessoal com Deus’, a consciência de Jimeralto gritava’.

Mas se entendo a sua pergunta de outra maneira, digo que filho de mãe descendente de índio com branco e de pai mulato, trabalhador do cais do Recife, nascido em Água Fria, eu tinha mesmo que ser gauche, ou seria idiota. Ser gauche foi a minha salvação. Taí, um crente diria que Deus escreve certo por linhas tortas. Mas observo que o ‘gauche’ na minha resposta acima vem da tradução do francês, ‘esquerda’, ‘ser de esquerda’.

Creio ser esse um dos significados dos versos de Drummond, e não o que lhe dá o dicionário, ‘tímido, canhestro, torto’. Foi no sentido de ‘esquerda’ que respondi.

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Clóvis Campêlo – Penso que ninguém nasce de ‘esquerda’, entendeu? Nascemos ‘cristãos’ e ‘capitalistas’. Somos impregnados por essas ideologias desde o berçário da maternidade. Tornar-se de esquerda, significa tomar conhecimento de outras informações e leituras do mundo e optar por elas A pergunta foi nesse sentido. Quando se deu esse ‘start’? Em que fase da tua vida isso aconteceu?

Urariano Mota – De fato, ninguém nasce de ‘esquerda’, na medida em que todos nascemos nus, despidos, com um patrimônio animal, antes de nos tornarmos humanos. Mesmo quanto à tradição capitalista e cristã que se incorpora adiante em nós como uma segunda pele, com todos os preconceitos de que somos feitos, essa segunda pele vem com mistura de tudo, vale dizer também de cultura, que nem é cristã, nem capitalista. O que dizer, por exemplo, da vizinha que divide a comida com o outro em dificuldade, isso é capitalista ou cristão?

Mas você quer o começo biográfico. O ‘start’ para a esquerda, Clóvis, veio se construindo, em momentos cruéis e cruciais da minha vida, porque a minha tradição era de americanófilos, como de resto eram os suburbanos naquela fase imperiosa de Hollywood e propaganda pós-guerra dos Estados Unidos. Então eu lembro que, menor de idade, fui contínuo em A F Motta & Cia. Ltda, que ficava na Rua da Concórdia. Ali, todas as manhãs, eu tinha que limpar a lixeira com escarro do dono português. Quanto catarro possuía na garganta o patrão. Cuspia e tossia o dia inteiro, antes que o anjo do câncer o levasse para o céu. O meu cinto era um cordão barbante. Os jovens hoje, os filhos, nem imaginam o quanto era inacessível um simples cinto para as calças. Então, na festa do fim do ano ganhei um de presente, da caixa da loja, e o peguei morto de vergonha, porque haviam descoberto o que a minha camisa cobria. Dias depois, a caixa da loja, a doce e amável caixa, me emprestou A Mãe, de Górki. Esse é um dos começos que vieram se somando.

Clóvis Campêlo – E como chegou a seus grandes ideólogos? De onde tirou a base de sustentação para essa opção ideológica?

Urariano Mota – Em primeiro lugar, da necessidade urgente de procurar uma resposta para a desordem do mundo. Como Deus poderia admitir que a injustiça triunfasse de todas as maneiras? Que o mundo fosse uma ordem que não respeitava o talento, o amor, o afeto, o brilho e a sensibilidade de rapazinhos suburbanos, como podia? Aliás, não podia, só fodia, a alma da gente. E a partir dessa necessidade, os amigos, as pessoas de esquerda que conheci, as melhores pessoas que podíamos conhecer nos anos 70.

Sobre esse momento, o meu primeiro romance ‘Os corações futuristas’ narra:

‘– Deus não está do nosso lado – João fala.

– Ainda acredita em Deus? – Vevê pergunta.

– Que pergunta! – João responde. – Se existe ou não, Ele não está do nosso lado. Isso é o que importa.

– Fecho – Miro diz. – Há muito que Deus não está por nós. Às vezes está conosco, mas é contra nós…..

Naquela manhã , ao atingir a Suassuna, João estragou o sapato chutando muros dos jardins de casas na avenida. Miro, mais sereno, acompanhou aquela angústia como um personagem que tudo vê, num pesadelo. Aquela angústia também era sua, mas amenizada, por temperamento e crença. Vevê ficou em casa, para dormir. Terminou por ‘furar um ponto’, às onze horas do dia. Samuel, nem feliz nem contente, apenas dizia, ‘João, João’ e não sentia em si forças para conter aquele assalto de desespero. O certo é que todos tinham os olhos vermelhos, marejados, e os corpos dissolutos. Cada um guardava no íntimo, e sabiam que este era um segredo comum, que não se diziam: vida, tu és amarga.’

Clóvis Campêlo – Dando sequência, eu perguntaria se a sua opção realmente lhe serviu para modificar positivamente o mundo, ou se mostrou como um instrumento sem a força necessária para isso. O escritor é um demiurgo que tenta reconstruir e reorganizar o dito cujo. Mas entre a literatura e a realidade existe uma certa distância. Como você administra isso?

Urariano Mota – Há uma corrente de céticos, que eu chamaria de cínicos, para não dizê-los coisa pior, há uns desonestos cuja reflexão para a literatura é dizer que ela serve para nada. Aqui, ainda não é o lugar de responder à altura a essa falsidade. Mas para falar o mínimo, eu digo que a opção de escrever me salvou, ou me tem salvo até aqui. Mais: que a minha pouca obra já serviu para melhorar a sorte de Canhoto da Paraíba, por exemplo, quando uma Oração que lhe fiz (ah esses ateus…) lhe gerou uma pensão do governo da Paraíba. Mas a minha ambição, é claro, é maior.

Eu, como todos que amam a literatura, gostaria que ela transformasse o mundo. Menos, ó quixotesco, menos. Então eu já me conformo com a mudança e salvação humana que ela tem operado em mais de uma pessoa. Por exemplo, na recuperação, no grito contra injustiças malditas, seculares, como fiz com ‘O filho renegado de Deus’. Na recriação dos assassinatos no Recife em 1973, como escrevi em ‘Soledad no Recife’. Ou como a resposta que venho dando ao desafio de uma quiromante, quando ela me disse: ‘é preciso salvas as almas socialistas que clamam justiça’. É coisa de doido? É coisa da poesia.

Então, nesse particular sentido, acho que tenho contribuído com o meu grãozinho de areia para a mistura do cimentinho que vai levantar um tijolinho de nada para a casa dos homens, que vai dar uma salvação da pessoa, que corre agora dos tiros e bombas que querem matá-la. Se uma só página, se uma só linha, quem sabe se uma só palavra, acender a luz nos olhos de um amaldiçoado que morria sem saída, então estou muito feliz e melhor ainda pago.

Soledad

Recupero de um texto que publiquei sob o título de A literatura salva:

‘ – O que eu ganho com isso, professor?

Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas aos periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Mas tudo bem, eu me dizia, que se dane o nome, vence a literatura’.

Em um dia de 7 de setembro, o texto ‘Oração para Canhoto da Paraíba’ foi lido como um poema no Mais Você, de Ana Maria Braga. Quando terminou o programa, Vitória, a filha do violonista, ligou para mim e anunciou: O governador da Paraíba acaba de ligar, papai vai ter uma pensão. Então eu lhe disse como resposta: Este é o melhor 7 de setembro da minha vida’. Assim falei porque não poderia na voz falar: obrigado, amiga, acabas de me anunciar para que serve a literatura. Para diminuir um pouquinho que seja o sofrimento e a dor da gente.

A “Oração para Canhoto da Paraíba” pode ser lida aqui

http://www.samba-choro.com.br/debates/1091407338

No YouTube, os vídeos e reportagens que documentam a leitura do texto:

Clóvis Campêlo – Um famoso escritor pernambucano afirmava que seus personagens se sobrepunham ao sistema usando a esperteza, nunca o confronto. No meu entendimento, ao usar essa estratégia ele justificava o status quo e referendava o dito popular que diz que ‘o mundo é dos mais espertos’. Os seus personagens também se utilizam dessa estratégia da esperteza ou usam a indignação como força motriz transformadora?

Urariano Mota – Ótima pergunta, Clóvis. O que move os personagens sobre os quais escrevo é a afirmação de humanidade em um mundo profundamente inumano. Eles lutam e enlutam com a boa e má luta. De todas as maneiras. São quixotescos? Não, gostaria que fossem pessoas. Gente de cara e dente. São indivíduos que me impressionam e me falam (assim como espero que falem aos leitores): ‘a nossa vida é curta. Por que diminuí-la ainda mais?’. Isto é, por que torná-la menor que as nossas necessidades animais? É claro que não são santos nem heróis. Não estou escrevendo uma hagiografia. Eles têm pecados, alguns mortais, cabeludos, porque assim somos feitos, de pecado, carne, egoísmo, generosidade e sexo. Mas no limite eles querem apenas afirmar a necessidade irrefreável do amor. Como aqui, em O filho renegado de Deus:

‘Seria específico de ti o teu amor pelo irmão homossexual? Que dupla desconforme desconformidade a tua, ao desejar o incesto com um homem que não te queria para o sexo. No entanto, Maria, os censores nem veem que o desnatural vinha antes: a mulher em plenitude que não era amada. Percebes agora a extensão do teu infortúnio? É claro, os teus olhos fechados nesta hora me falam que já percebias, mas a teu modo continuavas a viver, na tua bravura sem queixa. Pois contigo me veio a lição, aquela que não se encontra escrita nos livros, mas se acha codificada na vida dos dignos: os que lutam não se queixam. Vão em frente, como se felizes estivessem, vão em frente, apesar de, apesar de, apesar da infâmia sofrida. Se não têm mãos, lutam com os pés. Se não têm pernas, braços, lutam com o cuspe. E não se dizem nunca ‘coitado que sou, pobre de mim’, porque à queixa pertencem os vigaristas. Então, o que seria mais o teu específico? A tua obesidade, a tua pouca estatura, a tua miséria, a tua dor de mulher não amada pelo companheiro, ou a tua agonia de morrer com o filho no ventre?’

Clóvis Capêlo – Urariano, quando você afirma que os seus personagens não são santos nem heróis, fico com a impressão de que o autor tenta lhes imputar uma aura de realidade, a questão da verossimilhança. Em quase todas as literaturas essa opção narrativa marca as obras que se caracterizam pela marca do realismo, em contraponto ao fantástico que marcou uma geração de autores latinos. Como autor, como você se situa diante dessas duas formas de escrever e narrar?

Urariano Mota – Clóvis, penso que o realismo vai além do que se convencionou chamar de realismo. Quero dizer, toda obra de arte se faz no domínio da realidade humana. Melhor dizendo, ela se prende na – e se liberta da – realidade factual. Escrevo isso, e nos meus olhos passam agora Guernica, de Picasso, e Chagall. Estou vendo Cícero Dias, mais Lula Cardoso Ayres e suas almas penadas, que só arrepiam pela beleza. Mas de um ponto de vista estrito, literário, leio e releio Gabriel García Márquez, e encontro a realidade latino-americana, mesmo quando o sangue de um filho assassinado atravessa a rua, sobe a calçada e volta para o útero da mãe na rede. É tudo dentro do domínio da realidade, até mesmo o que desobedece à lei física, até mesmo quando um homem acorda transformado em um inseto.

Esclareço melhor, creio: eu só vim a compreender o Kafka de A Metomorfose quando revi o homem de uma família amiga. Ele era excepcional, e na sua casa o escondiam das visitas. Aquilo era puro Kafka, quando a família do rapaz-monstro o esconde das visitas. Tudo tão realidade, não é? (por sinal, Kafka é muito realista, ainda que fale de uma colônia de ratos ou da Colônia Penal). Lembro também que a família da García Márquez reconhecia todos os personagens, mesmo os mais sem nexo, entre as pessoas da cidadezinha de Aracataca, aliás, Macondo. Quero dizer, o naturalismo foi que viciou, mal acostumou as pessoas na percepção de que o imediato, visível, é que era o real. Mas não. A realidade vem de antes de Cervantes, passa pelo Dom Quixote e nos encontra até hoje.

Assim, creio estar no reino do real mesmo quando narro, em O Filho Renegado de Deus, um diálogo entre Maria, morta em um caixão, e Filadelfo, que se exibe marido apaixonado no enterro:

‘- Tudo, menos essa falsidade. Respeita-me!

Pois o corpo de Maria com vida anímica lhe falava, estabelecia com ele um diálogo que não era mudo, apesar de inaudível ao publico do espetáculo. Nesse diálogo vinham os dias em que ele não estava em casa porque estaria trabalhando. E Filadelfo bem sabia ser mentira, pois a morta insinuava o que não queria lembrar. No breve e torturante discurso de Maria ao remorso de Filadelfo, aquele rosto suave para o filho se contraía duro:

– O teu choro engana os bestas. As tuas lágrimas, por mais que chores, não lavam o teu sujo.

– Eu não tive culpa, Maria. Eu não sou culpado, você não quis ir para a maternidade, Filadelfo gritava.

– Por que mentes? Eu já estava sacrificada. O que eu fizesse era inútil. Morria na maternidade ou em casa.

– Maria, eu sempre quis o seu bem.

– Mentira! Tu querias o teu bem. Por que me arrancaste de casa? Eu queria ter a minha última hora com o meu filho, Por quê? Porque a tua vontade era a única e exclusiva. Eu não tive direito nem à minha última.

– Tanto que eu lhe disse, cuide-se, Maria, cuide-se…

– Não, a tua fala era de que gostavas de mulher carnuda. Depois viravas a cara para o outro lado.

– … Deus é testemunha.

E ao ouvir esse ‘Deus é testemunha’, no rosto de Maria se desenhava o sinal de um sorriso. Vendo esse traço nos lábios, Filadelfo espalmava as mãos em vertical sobre os olhos, apertando as pálpebras. Bom seria que a sua consciência não pensasse. Havia, claro, dois gêneros de Deus. Um para Filadelfo, outro para Maria’.

A realidade não nos prende, enfim. Ela nos liberta pela possibilidade que teremos em aprofundá-la, ao nível da nossa observação e experiência. Chamam a isso de verossimilhança. Sim, mas prefiro dizer, uma prospecção do real.

Clóvis Campêlo – O escritor japonês George Oshawa acreditava que morreria cedo em função de muito ter escrito quando era vivo. Dizia que escrever nos consome muita energia vital. Morreu aos 78 anos com a impressão de que muito do que escrevera não seria utilizado pelas pessoas como forma de evolução pessoal e intelectual. Você também sente isso? Quais as estratégias que utiliza para atingir um grande público e com ele se identificar? Você acha que o escritor sempre estará condenado à solidão?

Urariano Mota – Olhe, morrendo aos 78 anos, o escritor japonês chorou de barriga cheia. Quem morreu de trabalho (e dívidas) foi Balzac, aos 51 anos, depois de uma obra colossal em quantidade e qualidade. Mas é verdade que escrever consome muita energia, tanto mental quanto física, ainda que o escritor não saia do canto. Às vezes, é muita tensão. Na maioria das vezes, mexe com o peito da gente, sangra. E nem pense que isso é drama. Arrancar de si o que um homem nem às paredes confessa, como traumas, remorsos, amores ocultos e vilezas, isso não é atividade de gente normal. Tem um preço alto para a saúde. Mas e aí, seria melhor viver sob a falsidade?

Que venha a expressão da dor. Mas considere que assim como jesus-morreu-na-cruz-para-nos salvar, o homem morre todos os dias. A nossa vida só é vida se estivermos em atividade. O homem É na ação. No escritor, na ação de escrever. Confesso que às vezes frustra muito, porque melhor seria um soco, um tiro, uma bomba. Mas a covardia da gente faz o que pode. Quanto à solidão do escritor, acho um mito. É claro, no momento da escrita ele está sozinho para a rua, para a casa, para a mulher, para os familiares, para os amigos. Mas está acompanhado dos que o acompanham na memória e sentimento.

É possível que o meu texto não seja aproveitado. Quero ter no entanto a consciência de que fiz o que meu coração pedia.

Clóvis Campêlo – Como você vê a literatura brasileira hoje? Existe nela um lugar de destaque para os nordestinados? Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do povo, afirma que nós, nordestinos, sofremos dois tipos de colonização cultural: a que nos é imposta por Tio Sam, nosso eterno colonizador, e a colonização cultural interna, onde temos que conquistar o sudeste para poder ser aceito no nosso rincão. Você concorda com essa visão?

Urariano Mota – Esse Renato Boca-de-Caçapa é dos bons. Ele está certo. Falo agora de um episódio esclarecedor. Não faz muito, em Garanhuns, tive uma discussão braba com agentes culturais e um escritor que acreditavam ser os escritores do Sudeste melhores que os regionais. Razão alegada e prova: os do sudeste publicavam pelas grandes editoras. Daí a razão de merecerem melhores cachês que os fodidos escritores pernambucanos. Aí o bicho pegou. Dois momentos cômicos aconteceram então na mesa do restaurante:

Durante a discussão, eu me exaltei e disse que para escrever como Mario Vargas Llosa em Tia Júlia e o Escrevinhador, eu escreveria ‘cagando’. Claro, era um exagero retórico. Mas um escritor recifense assim me respondeu: ‘então, comece a cagar’.
Na saída, entre abraços de despedida, eu disse à produtora que só voltaria a Garanhuns quando recebesse o mesmo cachê que um ‘escritor do Sul’. Ao que um escritor garanhuense interveio: – Você quer dizer que volta mais nunca.
Vida que segue. Eu espero voltar. Ou nunca.

Clóvis Campêlo – Acabamos de eleger pela quarta vez consecutiva uma candidata petista para a presidência da República do Brasil, para desespero das velhas oligarquias políticas brasileiras. Como você vê a situação socieconômica do Brasil depois desses três mandatos petistas cumpridos? Melhoramos ou a vaca começa a ir para o brejo? Somos o país do presente, a bola da vez, ou as forças conservadoras conseguirão retomar o comando e reimplantar o atraso? Qual a sua opinião sobre isso?

Urariano Mota – Clóvis, eu e a maioria do povo brasileiro votamos e votarei de novo em governos que sigam o caminho aberto por Lula. Não me arrependo e estou na linha de frente e defesa do governo Dilma, que é execrado pelos acertos, não pelos erros. Vi e testemunhei o crescimento extraordinário de Pernambuco, do Nordeste, que a propaganda de Eduardo Campos e assemelhados quis creditar ao próprio governo. Vi parentes meus no Alto de Santa Terezinha entrarem na universidade, terem escola pública de qualidade, melhorarem de vida com bolsa família, e mais adiante se empregarem em atividades dignas, especializadas, e assim não precisarem mais da ajuda do governo.

Vi o pernambucano Lula se erguer como um dos líderes do mundo. Vi uma ex-guerrilheira, chamada de terrorista, assumir os destinos do Brasil. Como podemos renunciar à continuação de um sonho?

Carlinhos Metralha, o cara que foi sócio do cabo Anselmo nos 6 assassinatos do Recife em 1973, aparece na passeata paulista como herói

“Carlinhos Metralha foi o apelido que os comunistas me deram, porque me respeitam até hoje. Já andei infiltrado na organização terrorista VPR, conheci pessoalmente alguns desses delinquentes que estão aí, não metralhei porque não tive essa oportunidade. Se eu tivesse, faria com o maior prazer”. Mais adiante, aparece marchando com um velho. Impune. Os pés que ele bate ritmado no chão pisam sobre os democratas e o sangue de brasileiros assassinados pela ditadura. A isso, a militante comunista Mara Loguercio respondeu por email:

“Isto já é provocação. Caberia, no mínimo, ao meu juízo uma ‘notitia criminis’. O cara dizer que não metralhou nenhum de nós porque não teve oportunidade, embora tenha participado do assassinato de vários, mas que se tivesse (a oportunidade) o faria com prazer, se isto não é crime eu jogo todo o material de estudo e prática de advocacia e magistratura no lixo!!!!

por Urariano Mota

 

Nunca mais

 

Eu relutei, tive dúvida em relatar um fato desagradável acontecido comigo no mais recente dia 13 de março, aqui no Recife. Mas agora mudei pra não ser mudo. Vocês já vão entender a razão.

Para a defesa da Petrobras e do governo Dilma, antes de sair de casa no dia 13, aconselhei aos filhos e esposa:

– Olhem, vão acontecer provocações da direita. Mas a gente não tem olhos nem ouvidos para a provocação. Faz de conta que não vemos nem ouvimos, e vamos em frente.

Mas eu próprio não resisti a 2 minutos de insulto fascista. Assim se deu. Quando a passeata da multidão vestida de vermelho saiu da Avenida Guararapes, e dobrou para a avenida Dantas Barreto, antes da Igreja de Santo Antonio, notei que a minha mulher respondia a um senhor forte, de cabelos brancos. Dizia ela:

– Todos nós somos trabalhadores.

Então voltei e me acerquei dele. E ouvi:

– Era bom metralhar, fuzilar todos os petistas, tudo que é comunista.

– Como é? – perguntei.

E o animal:

– Tem que cortar a cabeça de todos eles.

– Que é isso? Que estupidez é essa? – perguntei.

E o animal, passando a mão na cintura me soltou mais um coice:

– Vou marcar a sua cara. Pra no dia em que a gente voltar…

Olhem, entre as minhas raras qualidades não se encontram a coragem ou o desassombro. Mas diante daquela agressão verbal, pior, mais que verbal, diria, pela promessa que encerrava e cerrava, com c ou com s, a democracia, na hora me subiu uma onda que não pude segurar, um calor, um sangue quente veio, e respondi ao fascistão:

– Marque a minha cara, que eu marco a sua – disse-lhe com os dedos da mão direita em V sobre os meus olhos. – Marque a minha, que eu marco a sua. Mas vamos prum combate aberto, franco. Não de modo covarde, não na maior covardia, como vocês fizeram – e neste ponto eu lhe apontava o dedo, que eu desejava fosse um soco na sua carantonha criminosa – Não na covardia, como vocês fizeram com os presos políticos na ditadura. Vocês assassinaram pessoas algemadas, presas, desarmadas, sob torturas.

Ao que o fascistão, réu confesso, sentindo-se identificado, saiu puxando a perna como um diabo coxo. Não sei, tive vontade de segui-lo, mesmo sabendo que entre nós a civilização estava morta, que palavras mais não se deviam pronunciar porque eram surdas e absurdas. Um companheiro que ainda não sei quem é, se acercou de mim e me tocando o ombro procurava me pôr de volta à sensatez:

– O que é que tá acontecendo com você? Relaxe, amigo.

A pressão estava alta e desnorteada, e eu não soube como reagir de modo mais sereno .

Contei isso agora porque uma ameaça maior veio na movimentação no dia 15, em São Paulo. A ótima coluna Notas Vermelhas já havia chamado a atenção para o vídeo que “mostra manifestantes idolatrando o famigerado torturador e assassino Carlinhos Metralha, agente do DOPs que aparece orgulhoso de sua ‘atuação’ durante a ditadura e cercado por ‘admiradores’ ”.

Carlinhos Metralha, o cara que foi sócio do cabo Anselmo nos 6 assassinatos do Recife em 1973, aparece na passeata paulista como herói. Os caras não estão folgados. Estão ais que isso, estão livres, soltos e ameaçadores. Olhem o vídeo onde ele aparece com a cara obscena

ou aqui

No vídeo, ele mostra um cartaz onde se lê: “Quero ser ouvido pela Omissão da Verdade”. Mas notem que o corajoso delegado Carlos Alberto Augusto, ou Carlinhos Metralha, herói dos coxinhas de São Paulo, foi convocado, no fim de 2013, para um depoimento na Comissão da Verdade de Pernambuco, e não quis vir. Por excesso de valentia, digamos. Mas no vídeo, ele faz declarações orgulhosas dos seus crimes:

“Carlinhos Metralha foi o apelido que os comunistas me deram, porque me respeitam até hoje. Já andei infiltrado na organização terrorista VPR, conheci pessoalmente alguns desses delinquentes que estão aí, não metralhei porque não tive essa oportunidade. Se eu tivesse, faria com o maior prazer”. Mais adiante, aparece marchando com um velho. Impune. Os pés que ele bate ritmado no chão pisam sobre os democratas e o sangue de brasileiros assassinados pela ditadura. A isso, a militante comunista Mara Loguercio respondeu por email:

“Isto já é provocação. Caberia, no mínimo, ao meu juízo uma ‘notitia criminis’. O cara dizer que não metralhou nenhum de nós porque não teve oportunidade, embora tenha participado do assassinato de vários, mas que se tivesse (a oportunidade) o faria com prazer, se isto não é crime eu jogo todo o material de estudo e prática de advocacia e magistratura no lixo!!!!

Se mais alguém topar a ideia, eu penso que nos caberia. Ou no mínimo, uma interpelação judicial ou uma representação para o Conselho do Ministério Público ou até para a Comissão da Anistia.

Não dá é para ficar inerte diante disto. Isso é mais do que passividade, passa a ser cumplicidade da nossa parte. É minha visão”.

É a nossa visão também. Porque em outro vídeo, a extrema-direita fala em gravação para pegar em armas, assassinar Dilma e seguidores:

Trata-se do ex-comandante da Policia Militar de Goiás, olhem só, ex-comandante de uma policia militar, o coronel Pacheco. No vídeo ele insulta a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, além de ameaçar “pegar em armas” para destituir do poder o atual governo federal – eleito através do voto.

Exaltado, Pacheco chama Dilma de “chefe de quadrilha” e o ex-presidente Lula de “ladrão”. Ele diz, ainda, que não tem medo dos “guerrilheiros” da petista. Diz o fascistão, pago com o dinheiro de todos nós, civis, intelectuais e povo desarmados:

“Quero dizer pra você Dilma, pra você Lula ladrão, que eu não tenho medo dos seus guerrilheiros, e tenho certeza que as centenas de milhares de policiais militares dos diversos Estados desse País também estão prontos para ir para a luta armada para defender esse País”. E mais:

“Nós policiais militares da reserva, não aceitamos mais ser roubados e ainda por cima, agora, ser ameaçados e oprimidos. Nós vamos defender a nossa sociedade e estamos prontos para qualquer convocação, seja oficial ou não, para lutar contra os seus guerrilheiros”, completou Camilo, que informou ser coronel da reserva remunerada há três anos.

Observo que nunca é demais lembrar que, de um ponto de vista legal, a Constituição da Federal em seu artigo Artigo 5º :

“XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;

XLIII – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;

XLIV – constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático;”

E então? Vamos continuar à mercê dos criminosos e torturadores, que mal satisfeitos com a impunidade dos seus crimes, nos ameaçam agora com novos assassinatos, a nós, que fazemos parte da civilização e da humanidade brasileira? É claro que deveremos reagir com medidas legais e com movimentos de opinião pública, com uma política de reassentamento da democracia real. Para que se levem a sério as novas ameaças dos fascistas.

Ou iremos todos para o suplício como novos cordeiros para o sacrifício final. Em um novo silêncio dos democratas, que não viram a tempo a aberração da existência desses velhinhos dos quarteis.

 

—-

Urariano Mota escritor, romancista, jornalista, cronista, professor, pesquisador, escreveu o clássico da Literatura do Brasil

Soledad

Soledad no Recife, que narra o massacre praticado por Cabo Anselmo e Carlinhos Metralha no Recife e outros legionários da Morte, como o delegado Fleury, cuja esposa também estava na ordem unida de 15 de março.

Leia o romance de Urariano Mota e conheça Soledad, poetisa, heroína que lutou no Paraguai, Chile e Brasil contra as ditaduras do Cone Sul, e que foi martirizada no Recife em uma sessão de tortura.

Soledad Barret estava grávida quando foi executada.

“Soledad no Recife” de Urariano Mota: “Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval”. Leia trecho do romance

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar….”

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Soledad Barrett uma heroína, que militou contra as ditaduras do Cone Sul. E foi presa, torturada e martirizada no Recife, pelas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Soledad Barrett na sexta-feira de carnaval. A seguir trecho do romance (*)

Soledad

Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranqüilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:

– Conspirando no Aroeira?

– A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.

– Esses intelectuais … Conhecem? Soledad, Daniel.

– Ah, prazer. Prazer.

E assentando-se em torno, Júlio derramou, descuidado:

– São revolucionários. Podem ficar à vontade.

Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.

– Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.

– Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.

– Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.

– Sei.

– Está com medo?

Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:

– Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?

– Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.

O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:

– É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse, apontando a Igreja de São Pedro.

– Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.

Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.

– Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.

– Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha.

– Você é engenheiro? Ivan pergunta.

– Não … sou “artesão”. Entre outras coisas, faço tapetes. Entre outras artes.

– Eu queria beber algo, retornou Soledad, em voz que a partir de então jamais esqueci. Eu seria capaz de reinventar todas as bebidas expostas no Aroeira. E por isso como garçom e dono do lugar eu lhe disse:

– Ah, temos batida de limão, de cajá, de mangaba, de abacaxi, de manga, de maracujá, de goiaba, de graviola, de araçá, de pitanga…

– Pitanga? perguntou, divertida.

– Pitanga. É vermelha e saborosa… Você não é daqui?

– Sim, sim, perdão. Não sou. Venho da fronteira do Mato Grosso…

– E você, é daqui? interrompe Daniel.

– Ele podia se chamar Pernambuco, Ivan responde. Ele é revolucionário tendência Pernambuco.

Todos riram. Eu não me importei com a brincadeira, eu não me vexei, porque ela também sorriu. E por isso, para ser coerente com a zombaria, não esperei o garçom, fui ao balcão e de lá trouxe uma de nossas frutas, vermelhas, suculentas, com álcool. Que ela, para me pôr de volta a meu lugar – garçons são garçons, até mesmo em Pernambuco – declinou da oferenda e serviu primeiro a Daniel. E ao perceber a minha cara:

– Nesse aspecto particular, eu sou tradicional. Maridos e companheiros em primeiro lugar.

– Em que categoria você o enquadra? perguntei.

– Nos dois. Ele é meu marido e meu companheiro.

– Ah!

Uma nuvem escura passou sobre a mesa. Uma nuvem passou sobre o Pátio de São Pedro. Era de noite, eu sei e me lembro. Mas senti ali, no céu noturno, a luz fugir como se uma nuvem atravessasse a lua.

– Peça uma para mim também. Esta é boa, assim o santo do altar, Daniel, me ordenou. E por isso gritei:

– Garçom!

Para não reproduzir com travessões os diálogos daquela noite, digo e falo do clima e atmosfera que me ficaram. No cômputo geral eu me embriaguei, fui do divertido ao lamentável, passando pelo ridículo e imprudente. Soledad cintilou mais de uma vez, e desconfio, para minha mágoa, que não só para mim. Houve um momento em que senti seus reflexos em Ivan, em que vi suas palavras suavizarem o áspero Júlio, em que senti até mesmo a escada que suas observações faziam para Daniel. Para que ele pudesse também brilhar, digamos assim.

Não quero, mas devo dizer. Daniel era um homem que tinha brilho próprio, com Soledad, sem Soledad ou contra Soledad. Mas com Soledad, naquela noite de uma sexta-feira de carnaval, no Pátio de São Pedro, ele se defrontava com um acúmulo de circunstâncias desfavoráveis à sua augusta presença. A platéia estava encantada por Soledad, pela simples e luminosa presença dela. Eu, Ivan, Júlio, o garçom, Aroeira, vizinhos à nossa mesa, estávamos todos absortos no brilho dos olhos, da doce face, lábios, voz quente de Soledad. Se ela dissesse, ora, se dissesse, se ela tossisse, se ela espirrasse, nós nos portaríamos como os aduladores que desejam os favores dos mais ricos, “mas como espirra bem”, ou “que tosse gentil”, diríamos, sem pejo e sem trauma. Por isso, com o seu instinto de fêmea, mas com o seu saber solidário, com a sua tradição de mulher destes trópicos, ela não queria ver seu companheiro em posição secundária. Por isso ela lhe fazia “deixas”, espaços para que ele assumisse a cena, como os coadjuvantes fazem para os astros em sketchs de comédia. E ele sorria, muito à vontade, como se jamais houvesse descido do Olimpo.

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Uso agora a palavra descido, vejo o alto em que ele se encontrava, percebo o seu peito repleto, como se estivesse com peitilhos muitos e sobrepostos, noto os seus olhos sem luz, como se nos vissem por escuros buracos de máscara, e, forçoso é dizer, ele passa a lembrança do Homem da Meia-Noite do carnaval de Olinda. Mas não exatamente do boneco de 4 metros de altura, que vaga e dança entre a massa nas ladeiras da cidade ao som do frevo. Refiro-me à caricatura do boneco, à imitação que rapazes fazem do boneco, quando põem sapatos com saltos de 25 centímetros e se põem a evoluir na dança como se o Homem da Meia-Noite fossem, a rodopiar, a bater nos corpos suados de foliões bêbados, e se curvam como se saudassem o frevo, e de tal modo que 36 anos depois dessa noite de 1972, uma revelação nos disse: “O homem da meia-noite é gay”. Mas é claro, em vez do Daniel com estes olhos de 2008, então eu não o via como percebo agora as caricaturas do homem da meia-noite, mas ali estava um anúncio. Os clarins soavam. Pela pose na mesa, naquela noite, lembro dele como se estivesse com peitilhos, e eu não sabia nem entendia por quê. Eu não tinha este conhecimento repousado em experiência, e por isso eu o via como um personagem em primeiro plano, de primeiro plano, que uma estrela, com raios, destacava da caverna do Olimpo. Ele nos furtava Soledad, sentíamos. Ele nos roubava o seu brilho. Não sabíamos ainda em quantos significados ele nos roubava a luz, mas ele, já então, nos furtava a estrela com a violência de sua presença…..

…. Não sei, olhando hoje para aquela mesa no Pátio de São Pedro, naquele carnaval de 1972, não sei se tive, se tivemos sorte ou azar. Uma parte impetuosa, romântica, me fala que eu tive azar. Uma outra, realista, dura, pragmática, documental como os balanços contábeis, me fala que eu tive sorte. Quero dizer. Quando recordei Fernando Pessoa para Soledad, naquela noite, e ela me olhou de um modo a que não pude resistir, e, cego, mesmo sem vê-la, pude sentir o calor de radiação que se estabelecia entre nós, um magnetismo, um ímã, um pegajoso de visco que nos clama, quando isso recordo, penso agora que tive, que tivemos azar em não construir uma relação total, fecunda e duradoura, que mudasse nossas vidas para sempre. Penso. Poderíamos ter fugido, fulgido para Madri, Roma, Conchinchina, fugir para que pudéssemos então realizar o objeto do nosso carinho e desejo. Fugir de todos. Sim, e isso era então, mais que agora, mais que hoje, isso era também fugir ao combate, à guerra, desertar das fileiras contra a ditadura. Assim era em 1972. Claro, para fugir teríamos e deveríamos ter uma nova dialética, para contrapor aos insultos argumentos sólidos, livres, arrancados à força de Rosa Luxemburgo, de poemas libertários de Maiacovski, quem sabe, ocultar a nossa profunda necessidade de ser juntos com a criação de argumentos irrespondíveis. E mergulharíamos em um furacão de outra sorte, de melhor sorte, imagino ou quero imaginar agora. Porque, é claro, dificuldades, muralhas seriam erguidas contra a nossa humanidade, execrada como exclusiva, egoísta, bem sei agora. A natureza de Soledad ordenaria uma conversa séria, definidora, com Daniel. Ele moveria mundos e forças contra essa absurda decisão, mobilizaria companheiros, dele, dela, e usaria, bem sei, recursos do inescrupuloso ao inescrupuloso, em suas mais diversas formas. Então, por isso, talvez não fôssemos para o México ou Europa. Certo, mas um certo de certamente. Mas teríamos tido o nosso contato! Teríamos tido uma obediência breve ao circuito elétrico que nos pusera sob seu domínio. Mas se esse breve contato nos fortalecesse ainda mais para o mergulho sem volta em nossos direitos de paixão? Ora, como seria lícito e razoável esperar-se que jovens sentissem o gosto doce e abrasante do amor, o chamado gosto alienante do amor, gozarem todas suas possibilidades na cama e entorno, para que se dissessem ao fim, “foi bom, fiquemos por aqui”? Será lícito e razoável esperar-se tão grande, maduro e grego estoicismo? E como entramos no reino das hipóteses, da livre imaginação, aquela mesma estranha ao mundo de qualquer lógica, eu assumiria este brilhante estatuto: eu te amo, Soledad, nós nos amamos, brava e bela, és o meu guia e luz, para depois concluir: foi bom, muito bom, separemo-nos, adeus, porque a ternura será o rescaldo da paixão?

O acima, deveria até mesmo dizer, esse acima de mim, dos meus dias, é possível, digo mesmo, é plena e absolutamente possível. Imaginar é, em si, delinear um programa. Um roteiro e um caminho para a vida. E esse caminho, de gozar o paraíso e a ele renunciar, ainda que terrível, seria melhor que a frustração, o sentido de que perdi aquele amor, quando dele tive a oportunidade. Isso não é ser lascivo, hedonista, leviano. Se só temos uma vida, por que devemos nos regozijar com a frustração de não ter obedecido ao amor? No reino do soberano da imaginação, poderíamos ter sido felizes, louco e apaixonadamente felizes, e por isso teremos sido azarados em não entrar fundo naquela zona magnética.

No entanto, no reino do balanço patrimonial, dos créditos e débitos, foi credor o meu saldo. Tive sorte em ali não ter entrado. Sorte, maneira de dizer, entendam. Sorte na precariedade, sorte primária, sem gozo, luxo ou luxúria, sorte que apenas quer dizer, estou vivo. Há pouco, em linhas antes, escrevi que tive azar por não ter construído uma relação total, fecunda e duradoura, que mudaria nossas vidas. E chega a ser interessante como fornecemos argumento ad hominem, com um dedo voltado contra nós mesmos, com um indicador que salta e não conseguimos vencer. Ora, diz-me um cínico sobrevivente, pôr um ponto final em nossas vidas, abreviá-las, também é uma forma de mudar de vida. Isso um cínico anotaria como uma conformação, em outro livro, que não este.

Mas ainda é cedo. Ainda estamos nesta noite, nesta sexta-feira de carnaval. Tudo, apesar do que vivemos, tudo ainda é esperança, tudo é por vir, perfume, pó e talco. É curioso como, no ir e vir da memória, que sempre nos carrega também para o que houve depois do fato a que se volta, e daí ser impossível a fotografia nua deste instante, é curioso que nesse voltar à sexta-feira gorda a imaginação pede que estivéssemos – como um décor – entre serpentinas, confetes, colares havaianos, chapéus de marinheiro, ou até mesmo máscaras, e manda ao diabo o possível mau gosto. Faz sentido, o mau gosto faz sentido, ela nos diz e deseja impor. No entanto o sentimento, retrato mais preciso que o visível em um flash fotográfico, corrige a foice esse devaneio. Apesar das luzes do Pátio de São Pedro, e bem sei o quanto ele estava iluminado, pois assim mandam os fatos e os dados de uma abertura de carnaval à noite, apesar dessas luzes, eu não vejo pessoas coloridas como seria de se esperar em um carnaval. O sentimento me conta que, se não estávamos todos em branco e preto, porque aqui o sentimento briga contra a lógica, estávamos todos sob um reino ambíguo, ou, se querem algo mais fotográfico, factualmente fotográfico, nossos rostos possuíam metade branco e preto, metade arco-íris. Falávamo-nos para a parte em cores – era carnaval, éramos jovens, éramos promessa de um mundo novo -, mas nos entendíamos pela parte entre sombras. A nossa própria cara julgávamos exposta em cores de aquarela, mas víamos nos demais rostos sem luz. Víamos, modo de dizer. Sentíamos um rosto, mas ou não queríamos vê-lo, ou não podíamos vê-lo. Porque era doloroso.

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