VALHACOUTO

 
A cova de Franco
último covil
dos vis sicários
da Guarda Civil 
 


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CADÁVERES DEIXAM RASTROS

 
As flores selvagens
os lípsicos e gerânios
os lírios nos campos
encobrem sagrados
perfumados túmulos
encantados túmulos
jamais se abrirão

Nas valas comuns
permanecem invisíveis
as virgens estupradas
Mães operárias
mães camponesas
nutrem com suas carnes
a terra estéril

No ventre d’Espanha
grávida da morte
os corpos dos guerreiros
que não se renderam

Em cada sepultura
sem campa
nas serras e vales
nos montes gelados
no lodo dos lagos
na fonte de lágrimas
os mortos anônimos
malsinam os crimes
do generalíssimo Franco 
 
 

A ESPANHA DE GARCÍA LORCA

Proibido pela censura
o nome de Federico
del Sagrado Corazón de Jesús
García Lorca
não é mencionado
nas cátedras e púlpitos
Mas por todos os cantos
da Velha Espanha
nas ruas do povo
nos campos de concentração
e cavas
escuto o nome inter-
dito secreto nome
sacralizado com sangue
e lágrimas
Lágrimas e sangue
o tempo não lava

Por toda Espanha
o povo sofrido
cobra reparação
Todo homem
que sobrevive
clama por justiça

Por toda Espanha
às escondidas
o povo recita
de García Lorca
a imortal poesia
De García Lorca
os enamorados cantam
ternas canções

Na católica Espanha
das mulheres as orações
pela alma de Federico
del Sagrado Corazón de Jesús
García Lorca

Enquanto existir
Andaluzia
o sol a brilhar
enquanto existir
a Poesia
García Lorca
não morrerá
não morrerá

AUGUSTO NOME

Por toda Espanha
as cidades ostentam
o celeste nome
imposta condição
de rendição e posse

O nome esculpido
no mármore
o nome gravado
em bronze
o nome reluzindo
em ouro
o nome reluzindo
em prata

Por toda Espanha
nas placas das ruas
nos obeliscos
nos arcos de triunfo
no frontispício
dos edifícios
nos vitrais dos palácios
nas manchetes dos jornais
o nome

Em tudo que o tempo destrói
o nome de Franco