Capítulo de romance inédito de Urariano Mota

Um escritor sempre pronto para refletir

Urariano autógrafo

Fazendo jus a sua pena que não deixa de tecer letra a letra uma nova aventura ou reflexão, o renomado escritor e jornalista pernambucano, Urariano Mota, que também é colunista do Portal Vermelho, está trabalhando em mais um livro e nos brinda, com exclusividade, com um cálice de uma nova história.

A seguir, o primeiro capítulo de uma obra que já promete muitas reflexões sobre os dias de hoje e as transformações que remodelam a sociedade. In Portal  Vermelho

Urariano Mota: Bandeira do partido

Ao caminhar para o necrotério, próximo ao necrotério, eu não estava preparado, porque ninguém está preparado para a surpresa da morte. Ela vem como se, de repente, o chão se abrisse e mergulhássemos no escuro de um espaço sem referência. Mas minto, porque mais próximo da verdade é isto: mergulhamos no espaço escuro com a consciência dilacerada, com a memória em terremoto, os miolos deslocados à procura de um ponto de abrigo. Isto: à procura de um norte no espaço quando estamos sem nave, sem sinal de planeta ou qualquer azul com o nome de Terra. Quero dizer: eu estava e não estava naquele enterro. Eu me via nele, mas o que chamo de meu corpo não estava ali. Quero dizer enfim do modo mais claro: o meu ser, o nosso ser ainda não havia sido respondido naquela morte. A nossa vida ainda estava sem reflexão ou resposta.

Eu me deixei sentar, antes, caí sentado num bar perto do necrotério. Eu me sentei como um pugilista atordoado senta no banquinho no intervalo do gongo. Haverá um próximo assalto, eu sabia, e como fera acuada via pelos cantos dos olhos, pelos cantos da consciência um ligeiro raio que passava gritando, no próximo assalto é você. Os próximos são vocês. Nesta altura da idade, fala o estúpido bom senso, somam-se as quedas biológicas. “Quedas”, um outro gênero de quedas, diferentes e iguais à morte na ditadura, porque morremos quando tudo está por se construir, antes e agora. Lembrança do poeta Alberto da Cunha Melo:

“Tudo condenado a nascer
e essa urgência de terminar
o que será realizado
de qualquer maneira a seu tempo”.

Mas é tão diferente, hoje. Estamos na legalidade, o partido, se não é o poder, é chamado ao poder pela força da sua militância. Sim, tudo é tão diferente, mas a morte do camarada nos expõe a fratura do que parecia confortável, estabilizado: “acorda, o ser não foi respondido”. O porquê da vida continua sem resposta. Acorda, porque o tempo é adverso, a duração do tempo é adversária, a resposta não virá andando, a resposta deve ser buscada.

Se assim nos chama a voz que reflete o raio fugaz, na hora não a ouvimos bem, ainda que se apresente pelo seu portador, o corpo morto de Luiz do Carmo. Por isso divagamos na mesa, eu, minha esposa e uma antiga namorada de Luiz. Tomamos distância das questões mais graves, apesar do abalo sísmico sob nossos pés. Em lugar da olhada de frente, evitamos a procura essencial: “onde está o nosso ser?”. Temos os olhos rápidos para os cantos, olhos de louco, de animal a farejar o inimigo que vem pular em cima de nós.

– Como ele morreu? – pergunto. E com isso gostaria de fazer de conta que as circunstâncias explicam a razão da sua morte.
– Foi de repente. Passou mal de repente – a ex-namorada me responde.
– Ele estava em casa?
– Não, foi num bar.
– Ah! – exclamo.
Ah, se não fosse num bar, se ele não estivesse levando a vida que levava, estaria vivo. E assim sou compreendido na mesa, e dessa forma somos iludidos.
– Eu soube que ele andava meio solitário – a ex-companheira fala. – Bebia muito.
– Ah! sei – fala minha esposa.

Peço outra bebida, eu não estou solitário, então eu posso pedir outra. Isso até pareceria cômico, mas está na fronteira entre a comédia e o trágico. Porque o conteúdo de “bebia muito”, e por isso morreu, quer nos convencer que se não fosse o álcool ele estaria vivo, quem sabe, se para sempre. Então a morte não é um ponto de encontro com o desencontro, não é uma fatalidade biológica, é apenas e só um produto das circunstâncias. Fossem outras, ah, teríamos a duração eterna, estamos convencidos, conquistados, sem que seja necessário qualquer murro lógico. Já estamos derrubados a nocaute na ilusão.

– Mas foi num bar? – Volto, e corrijo porque estou num também: – Ele estava de passagem pelo bar?
– Ele estava bebendo – a ex-companheira responde.
– Na hora, ele bebia o quê? Você sabe? – quero saber, porque devemos evitar o que pode ter sido a causa do seu falecimento.
– Acho que era vinho – ela fala, numa versão que mais adiante saberei ser falsa. Mas talvez se refira à bebida dos namorados nas histórias românticas.
“Vinho! Num clima quente não é bom”, penso.
– Com este calor… – completa minha mulher.

Isso mesmo, eu não falo, porque tenho a desconfiança do absurdo a que gostaria de chegar, que é: está explicado, com este calor, beber vinho é o mesmo que procurar a própria morte. Faz, faria sentido, sei, mas não como a causa, e causa de gênero terrorista, causa do óbito, como eu gostaria, para então afastar de mim tudo que lembre uva, com especial distância da maldita fermentação. Mas a minha comodidade não se detém, não a consigo parar na busca de uma razão para a morte de Luiz do Carmo.

– Ele morreu lá mesmo no bar?
– Sim – a ex-companheira me responde. – Eu soube que ele estava sentado, arregalou os olhos, e desceu a cabeça por cima da mesa. O garçom pensava que ele estava dormindo. Quando foram ver, estava morto. Ele morreu dormindo.
– Ah – consigo dizer, para nada dizer. Esse “morreu dormindo” é mais brutal que a imaginação anterior “arregalou os olhos”. O que pesquisarei meses adiante provará que os olhos saltados vêm de uma construção imaginosa. No entanto, apesar de mais dramáticos para uma cena teatral, na espécie de espetacularização da morte, esses “olhos arregalados” angustiam menos que “morreu dormindo”. Porque o ato de dormir é mais natural e comum que saltar os olhos, que pode significar uma falta de fôlego, uma obstrução. E dormir, por sua naturalidade inescapável, que se une a morrer, não é bem uma fórmula carinhosa, amenizadora, como se fosse o mesmo que “morreu sem dor”. Na hora, sinto, sentimos a lâmina que vai desabar também sobre as nossas cabeças. Então um homem não pode mais dormir. Que traição mais suja.

– Sei – falo, enquanto mergulho num gole longo do uísque, de vez. Eu quero me anular no álcool. E não consigo. Apenas atinjo o meu outro, fora de mim. –Sei – respondo, porque de nada eu sei. Não sei de nada e quero saber. Eu quero saber a mais elementar razão: por quê, para quê estamos vivos. – Sei – e viro o rosto de lado, talvez com aqueles olhinhos de louco, que voam rápido para os cantos, metidos em si e faros da fera que vai atacá-lo.

Na selva sem esperança recebo a cara de Luiz do Carmo no caixão, com bigode mexicano na face, que não era mais a do amigo que gritava Ula! Ula! em 1970. Do Carmo, que golpe à traição foi esse? Então a ex-companheira, como no verso de um tardio retrato 3 x 4 onde se dedicava “como prova de carinho, amor e amizade”, fala, como se nada dissesse na tarde:

– Ele estava comemorando a notícia da publicação do próximo livro.
– Um livro?
– Um livro, que a editora em Pernambuco vai publicar.
– Um livro – murmuro.
Um livro, sinto, eis uma razão para viver. Não sei agora se é um barco salva-vidas na hora do naufrágio, mas em mim, até o mais imo, sei que é uma razão de viver, e de morrer. Nesse momento o cidadão Luiz do Carmo se ergue sobre a mesa, e não é mais o ridículo bigode de filme de hollywood. Não. O senhor Luiz do Carmo é um homem que acredita num lugar mais alto que falecer na mesa de um bar, sozinho. O ex-falecido Luiz do Carmo é um escritor capaz de frases laminares que vão além da lápide, como aqui:

“Engoliu a metade da bebida e acendeu um cigarro oferecido por ela. Os dois fumando. O fio preto do querosene juntou-se à fumaça dos cigarros. Se houvesse relógio na parede, teria ponteiros desinteressados nas horas”.

E me vem, de 1970:
– Ula, Ula, o que você vai fazer com o disco de Ella Fitzgerald?
– Eu vou escutar Ella quando eu tiver um toca-discos.
– Ula, Ula, vamos ver a manhã nascendo no cais.
E depois, ele me pergunta na maturidade, na mais longa duração da juventude:
– Júlio, você já leu os contos de Memória de Caçador, de Turguêniev? É um autor do grande mundo da literatura.
Então, de repente, mais de repente que a sua própria morte, me atinge o pensamento como um raio na tarde:
– Luiz do Carmo tem que ser enterrado com a bandeira do partido. Ele não pode partir sem a bandeira do partido.

Para mim, no momento, é oculto o processo de luz, emoção, que resulta na necessidade do seu caixão se envolver com a bandeira vermelha da foice e martelo. Não sei como veio o salto do livro e da morte para a bandeira do partido. Mas sei que veio com força o desejo de ver a bandeira, que significava, “esta é a sua identidade”. E o cheiro de álcool, de bagaço, da cana esmagada de Goiana me chegou mais forte. E veio a fragrância da aguardente, de outra mesa, em outro lugar e dia, quando ele me falou que um dos valores máximos da sua vida era o partido. E a literatura, que ele não declarou, mas sei agora, como se fosse um amor escondido, clandestino, paixão pecaminosa, de tabu, que o fez morrer na mesa de um bar, comemorando a publicação do novo livro.

Na hora, o que me assalta em mistura de alegria, dor e angústia em mais um movimento absurdo, inexplicável, de dor e alegria em um só sentimento, é a urgência da bandeira do Partido Comunista do Brasil. Para os ateus, ou como falaria Luiz do Carmo, “para os materialistas históricos, dialéticos, sob as luzes de Marx, Engels e Lênin”, onde falta Deus há uma continuação da vida na luta histórica da militância. Quem é de fora não entende. É mais que a perpetuação de um só personagem, como o Fantasma do gibi, das histórias em quadrinhos. Na historinha, as gerações se sucedem e vestem o mesmo uniforme e máscara, de tal modo que serão sempre o mesmo Fantasma. Mas não como os militantes comunistas. Eles são mortos, falecem, caem, mas os que ficam vão para o lugar do que se foi ou partiu. E o que se foi continua em nova vida pelo fio histórico da atividade partidária. Isso eu compreendia, dentro de uma compreensão cética. Mas ali, quando me ocorreu a necessidade da bandeira do partido em seu caixão, os motivos eram outros. Os motivos não eram assim desse modo grandiloquente, ou pelo menos guardavam uma distância do extraordinário, do retumbante. Quero e preciso dizer: quando eu vagava em um vale de almas penadas sem uma razão para a vida, me veio a bandeira vermelha, que era uma razão para ele. Mas uma razão que traduzo de modo diverso, quando busco o terrorista a partir daquela noite no puteiro da Vigário de Tenório. O tecido vermelho se abre mais amplo e sobre ele caminhamos sem que nos tivéssemos dado conta, desde 1970. Como vou escutar Ella Fizgerald sem ter nem um toca-discos? A resposta parece vir agora, estendida na mais longa duração da juventude. A mais longa duração da juventude, observo à distância. Mas isso é tão grandiloquente, que melhor é dizer: enterrem Luiz do Carmo com a bandeira do partido.

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“Soledad no Recife” de Urariano Mota: “Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval”. Leia trecho do romance

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar….”

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Soledad Barrett uma heroína, que militou contra as ditaduras do Cone Sul. E foi presa, torturada e martirizada no Recife, pelas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Soledad Barrett na sexta-feira de carnaval. A seguir trecho do romance (*)

Soledad

Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranqüilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:

– Conspirando no Aroeira?

– A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.

– Esses intelectuais … Conhecem? Soledad, Daniel.

– Ah, prazer. Prazer.

E assentando-se em torno, Júlio derramou, descuidado:

– São revolucionários. Podem ficar à vontade.

Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.

– Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.

– Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.

– Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.

– Sei.

– Está com medo?

Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:

– Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?

– Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.

O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:

– É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse, apontando a Igreja de São Pedro.

– Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.

Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.

– Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.

– Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha.

– Você é engenheiro? Ivan pergunta.

– Não … sou “artesão”. Entre outras coisas, faço tapetes. Entre outras artes.

– Eu queria beber algo, retornou Soledad, em voz que a partir de então jamais esqueci. Eu seria capaz de reinventar todas as bebidas expostas no Aroeira. E por isso como garçom e dono do lugar eu lhe disse:

– Ah, temos batida de limão, de cajá, de mangaba, de abacaxi, de manga, de maracujá, de goiaba, de graviola, de araçá, de pitanga…

– Pitanga? perguntou, divertida.

– Pitanga. É vermelha e saborosa… Você não é daqui?

– Sim, sim, perdão. Não sou. Venho da fronteira do Mato Grosso…

– E você, é daqui? interrompe Daniel.

– Ele podia se chamar Pernambuco, Ivan responde. Ele é revolucionário tendência Pernambuco.

Todos riram. Eu não me importei com a brincadeira, eu não me vexei, porque ela também sorriu. E por isso, para ser coerente com a zombaria, não esperei o garçom, fui ao balcão e de lá trouxe uma de nossas frutas, vermelhas, suculentas, com álcool. Que ela, para me pôr de volta a meu lugar – garçons são garçons, até mesmo em Pernambuco – declinou da oferenda e serviu primeiro a Daniel. E ao perceber a minha cara:

– Nesse aspecto particular, eu sou tradicional. Maridos e companheiros em primeiro lugar.

– Em que categoria você o enquadra? perguntei.

– Nos dois. Ele é meu marido e meu companheiro.

– Ah!

Uma nuvem escura passou sobre a mesa. Uma nuvem passou sobre o Pátio de São Pedro. Era de noite, eu sei e me lembro. Mas senti ali, no céu noturno, a luz fugir como se uma nuvem atravessasse a lua.

– Peça uma para mim também. Esta é boa, assim o santo do altar, Daniel, me ordenou. E por isso gritei:

– Garçom!

Para não reproduzir com travessões os diálogos daquela noite, digo e falo do clima e atmosfera que me ficaram. No cômputo geral eu me embriaguei, fui do divertido ao lamentável, passando pelo ridículo e imprudente. Soledad cintilou mais de uma vez, e desconfio, para minha mágoa, que não só para mim. Houve um momento em que senti seus reflexos em Ivan, em que vi suas palavras suavizarem o áspero Júlio, em que senti até mesmo a escada que suas observações faziam para Daniel. Para que ele pudesse também brilhar, digamos assim.

Não quero, mas devo dizer. Daniel era um homem que tinha brilho próprio, com Soledad, sem Soledad ou contra Soledad. Mas com Soledad, naquela noite de uma sexta-feira de carnaval, no Pátio de São Pedro, ele se defrontava com um acúmulo de circunstâncias desfavoráveis à sua augusta presença. A platéia estava encantada por Soledad, pela simples e luminosa presença dela. Eu, Ivan, Júlio, o garçom, Aroeira, vizinhos à nossa mesa, estávamos todos absortos no brilho dos olhos, da doce face, lábios, voz quente de Soledad. Se ela dissesse, ora, se dissesse, se ela tossisse, se ela espirrasse, nós nos portaríamos como os aduladores que desejam os favores dos mais ricos, “mas como espirra bem”, ou “que tosse gentil”, diríamos, sem pejo e sem trauma. Por isso, com o seu instinto de fêmea, mas com o seu saber solidário, com a sua tradição de mulher destes trópicos, ela não queria ver seu companheiro em posição secundária. Por isso ela lhe fazia “deixas”, espaços para que ele assumisse a cena, como os coadjuvantes fazem para os astros em sketchs de comédia. E ele sorria, muito à vontade, como se jamais houvesse descido do Olimpo.

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Uso agora a palavra descido, vejo o alto em que ele se encontrava, percebo o seu peito repleto, como se estivesse com peitilhos muitos e sobrepostos, noto os seus olhos sem luz, como se nos vissem por escuros buracos de máscara, e, forçoso é dizer, ele passa a lembrança do Homem da Meia-Noite do carnaval de Olinda. Mas não exatamente do boneco de 4 metros de altura, que vaga e dança entre a massa nas ladeiras da cidade ao som do frevo. Refiro-me à caricatura do boneco, à imitação que rapazes fazem do boneco, quando põem sapatos com saltos de 25 centímetros e se põem a evoluir na dança como se o Homem da Meia-Noite fossem, a rodopiar, a bater nos corpos suados de foliões bêbados, e se curvam como se saudassem o frevo, e de tal modo que 36 anos depois dessa noite de 1972, uma revelação nos disse: “O homem da meia-noite é gay”. Mas é claro, em vez do Daniel com estes olhos de 2008, então eu não o via como percebo agora as caricaturas do homem da meia-noite, mas ali estava um anúncio. Os clarins soavam. Pela pose na mesa, naquela noite, lembro dele como se estivesse com peitilhos, e eu não sabia nem entendia por quê. Eu não tinha este conhecimento repousado em experiência, e por isso eu o via como um personagem em primeiro plano, de primeiro plano, que uma estrela, com raios, destacava da caverna do Olimpo. Ele nos furtava Soledad, sentíamos. Ele nos roubava o seu brilho. Não sabíamos ainda em quantos significados ele nos roubava a luz, mas ele, já então, nos furtava a estrela com a violência de sua presença…..

…. Não sei, olhando hoje para aquela mesa no Pátio de São Pedro, naquele carnaval de 1972, não sei se tive, se tivemos sorte ou azar. Uma parte impetuosa, romântica, me fala que eu tive azar. Uma outra, realista, dura, pragmática, documental como os balanços contábeis, me fala que eu tive sorte. Quero dizer. Quando recordei Fernando Pessoa para Soledad, naquela noite, e ela me olhou de um modo a que não pude resistir, e, cego, mesmo sem vê-la, pude sentir o calor de radiação que se estabelecia entre nós, um magnetismo, um ímã, um pegajoso de visco que nos clama, quando isso recordo, penso agora que tive, que tivemos azar em não construir uma relação total, fecunda e duradoura, que mudasse nossas vidas para sempre. Penso. Poderíamos ter fugido, fulgido para Madri, Roma, Conchinchina, fugir para que pudéssemos então realizar o objeto do nosso carinho e desejo. Fugir de todos. Sim, e isso era então, mais que agora, mais que hoje, isso era também fugir ao combate, à guerra, desertar das fileiras contra a ditadura. Assim era em 1972. Claro, para fugir teríamos e deveríamos ter uma nova dialética, para contrapor aos insultos argumentos sólidos, livres, arrancados à força de Rosa Luxemburgo, de poemas libertários de Maiacovski, quem sabe, ocultar a nossa profunda necessidade de ser juntos com a criação de argumentos irrespondíveis. E mergulharíamos em um furacão de outra sorte, de melhor sorte, imagino ou quero imaginar agora. Porque, é claro, dificuldades, muralhas seriam erguidas contra a nossa humanidade, execrada como exclusiva, egoísta, bem sei agora. A natureza de Soledad ordenaria uma conversa séria, definidora, com Daniel. Ele moveria mundos e forças contra essa absurda decisão, mobilizaria companheiros, dele, dela, e usaria, bem sei, recursos do inescrupuloso ao inescrupuloso, em suas mais diversas formas. Então, por isso, talvez não fôssemos para o México ou Europa. Certo, mas um certo de certamente. Mas teríamos tido o nosso contato! Teríamos tido uma obediência breve ao circuito elétrico que nos pusera sob seu domínio. Mas se esse breve contato nos fortalecesse ainda mais para o mergulho sem volta em nossos direitos de paixão? Ora, como seria lícito e razoável esperar-se que jovens sentissem o gosto doce e abrasante do amor, o chamado gosto alienante do amor, gozarem todas suas possibilidades na cama e entorno, para que se dissessem ao fim, “foi bom, fiquemos por aqui”? Será lícito e razoável esperar-se tão grande, maduro e grego estoicismo? E como entramos no reino das hipóteses, da livre imaginação, aquela mesma estranha ao mundo de qualquer lógica, eu assumiria este brilhante estatuto: eu te amo, Soledad, nós nos amamos, brava e bela, és o meu guia e luz, para depois concluir: foi bom, muito bom, separemo-nos, adeus, porque a ternura será o rescaldo da paixão?

O acima, deveria até mesmo dizer, esse acima de mim, dos meus dias, é possível, digo mesmo, é plena e absolutamente possível. Imaginar é, em si, delinear um programa. Um roteiro e um caminho para a vida. E esse caminho, de gozar o paraíso e a ele renunciar, ainda que terrível, seria melhor que a frustração, o sentido de que perdi aquele amor, quando dele tive a oportunidade. Isso não é ser lascivo, hedonista, leviano. Se só temos uma vida, por que devemos nos regozijar com a frustração de não ter obedecido ao amor? No reino do soberano da imaginação, poderíamos ter sido felizes, louco e apaixonadamente felizes, e por isso teremos sido azarados em não entrar fundo naquela zona magnética.

No entanto, no reino do balanço patrimonial, dos créditos e débitos, foi credor o meu saldo. Tive sorte em ali não ter entrado. Sorte, maneira de dizer, entendam. Sorte na precariedade, sorte primária, sem gozo, luxo ou luxúria, sorte que apenas quer dizer, estou vivo. Há pouco, em linhas antes, escrevi que tive azar por não ter construído uma relação total, fecunda e duradoura, que mudaria nossas vidas. E chega a ser interessante como fornecemos argumento ad hominem, com um dedo voltado contra nós mesmos, com um indicador que salta e não conseguimos vencer. Ora, diz-me um cínico sobrevivente, pôr um ponto final em nossas vidas, abreviá-las, também é uma forma de mudar de vida. Isso um cínico anotaria como uma conformação, em outro livro, que não este.

Mas ainda é cedo. Ainda estamos nesta noite, nesta sexta-feira de carnaval. Tudo, apesar do que vivemos, tudo ainda é esperança, tudo é por vir, perfume, pó e talco. É curioso como, no ir e vir da memória, que sempre nos carrega também para o que houve depois do fato a que se volta, e daí ser impossível a fotografia nua deste instante, é curioso que nesse voltar à sexta-feira gorda a imaginação pede que estivéssemos – como um décor – entre serpentinas, confetes, colares havaianos, chapéus de marinheiro, ou até mesmo máscaras, e manda ao diabo o possível mau gosto. Faz sentido, o mau gosto faz sentido, ela nos diz e deseja impor. No entanto o sentimento, retrato mais preciso que o visível em um flash fotográfico, corrige a foice esse devaneio. Apesar das luzes do Pátio de São Pedro, e bem sei o quanto ele estava iluminado, pois assim mandam os fatos e os dados de uma abertura de carnaval à noite, apesar dessas luzes, eu não vejo pessoas coloridas como seria de se esperar em um carnaval. O sentimento me conta que, se não estávamos todos em branco e preto, porque aqui o sentimento briga contra a lógica, estávamos todos sob um reino ambíguo, ou, se querem algo mais fotográfico, factualmente fotográfico, nossos rostos possuíam metade branco e preto, metade arco-íris. Falávamo-nos para a parte em cores – era carnaval, éramos jovens, éramos promessa de um mundo novo -, mas nos entendíamos pela parte entre sombras. A nossa própria cara julgávamos exposta em cores de aquarela, mas víamos nos demais rostos sem luz. Víamos, modo de dizer. Sentíamos um rosto, mas ou não queríamos vê-lo, ou não podíamos vê-lo. Porque era doloroso.

* Continue lendo. Compre aqui o clássico romance “Soledad no Recife”, de Urariano Mota.