O inventário de Lara de Lemos – a herança de um tempo malsinado [a ditadura militar]


Lara de Lemos deixou-nos fisicamente, em 2010. Uma Poeta de linha de frente, autora de clássicos como “Aura Amara” e “Águas da Memória”.

Um dos últimos livros publicados pela gaúcha (contemporânea de Maria Carpi e Leonor Scliar -Cabral) é o tema de nosso relevante assunto: Inventário do Medo (1997), onde a escritora rememora, e vivencia em poemas, a dura imagem da ditatura militar no nosso país.

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Dá-se o dito

por não dito

dá-se o dado

por não dado.

Dá-se o dado

por perdido

dá-se o braço

por torcido

Dá-se o vidro

por partido

dá-se o grito

sufocado

Dá-se o medo

desmedido

dá-se o corpo

dizimado.

Nani

Nani

O tal do Tempo malsinado é precedido por muitas celas de terror:

Eram corpos de trevas e lonjuras

cobertos de brasas e feridas.

Pelas noites sombrias eles choravam,

pela manhã cinzenta adormeciam.

Eram corpos doridos que sofriam,

sem repouso, sem calma, sem estima,

Descalços, nus, pele encardida,

olhos que olhavam sem retina.

Lamentos de homens soterrados

em negros cativeiros, sem

o pão e o lume necessários.

Comparsas no medo, desolados

pressentiam, em pátios silenciosos,

os próximos passas imprecisos.

——

Viajo entre túneis de sono

como um cão vadio à procura

do dono.

Viajo em barcos fantasma

onde o tempo retrocede em busca

da alma.

Viajo consultando arquivos

e a memória ilumina rostos

redivivos.

Viajo procurando portos

e me encontro no país

dos mortos.

—-

No escuro – cegueira,

no sangue – soro ácido

na hora vazia – cansaço.

Na noite desvivida – insônia

no dia amordaçado – sono,

no ardor renovado – asco.

——-

Aprisionados no estreito retângulo

vislumbramos o azul

entre grades de ferro.

Breve encanto

– estratégia de hera,

teimosia de musgo.

Carlos David Fuentes

Carlos David Fuentes

——

Lara de Lemos explora a sequência de um ato criminoso, desde o instante decisivo ao momento doloroso das reminiscências.

Assim o seu livro está distribuído:

I – INVASÃO DE DOMICÍLIO

II – TEMPO DE INQUISIÇÃO

III- CELAS

IV- REMINISCÊNCIAS

É nítido: primeiro a busca, depois o interrogatório, a prisão no extremo e o sofrimento, ao ser tolhido a liberdade do sonho.

A dúvida e o gesto

antecipam julgamentos.

Presa na garganta

a resposta é a mola

da desgraça e da luta.

Tantas as perguntas,

tantas as denúncias,

tantos os indícios de culpa.

que só resta

aceitar a sentença

e beber, sem pressa, a cicuta.

A partir da culpa

(falsa ou verdadeira)

o homem muda o destino

perde o direito ao protesto

fica sem beira nem eira

é apenas: o culpado.

—-

Cantarei versos de pedras.

Não quero palavras débeis

para falar do combate.

Só peço palavras duras,

uma linguagem que queime.

Pretendo a verdade pura:

a faca que dilacere,

o tiro que nos perfure,

o raio que nos arrase.

Prefiro o punhal ou foice

às palavras arredias.

Não darei a outra face.

Um dia, de repente,

arrastam-nos à força

para um lugar incerto.

Um dia, de repente,

desnudam-nos impudica/

mente.

Um dia, de repente

é o duro frio

do escuro catre.

Um dia, de repente,

somos apenas um ser vivo:

verme ou gente?

De súbito é o susto

estampado no rosto

refletido no espelho

parado na garganta.

Invasores transitam

pelo quarto

desrespeitam o sono

em furor incontido.

Colocam algemas

em pulsos inocentes.

Contra palavras – há muros

contra lamentos, murros.

Levam jovens na mira

de fuzis reluzentes.

De que serve a palavra

se a desdida brinca com a sorte

num perverso jogo

de inventar vida e morte?

De que serve a dor

ou o grito contido

se sentir, seja o que for,

é pânico e perigo?

De que serve a voz

do algoz e o precipício

se o desastrado ser

já foi proscrito?

POEMAS DE LARA DE LEMOS

MINUTA DE DIEGO MENDES SOUSA

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