Escolas estaduais de São Paulo: a sangria dos professores invisibilizados

por Raphael Sanz

greve professor sao paulo

Foi decidido na sexta-feira 12 de junho, em assembléia, o final de uma das mais duradouras greves da história recente do país. Nestes 92 dias de paralisação, os professores estaduais paulistas ajudaram a levantar uma série de debates. Desde a equiparação salarial dos professores em relação a outras categorias e as condições de trabalho e projetos de educação em disputa, até questões de organização e política sindicais.

No auge da greve, entre abril e maio, cerca de 70% da categoria estava parada. O movimento enfrentou a repressão bruta da polícia militar durante seus atos de rua. Enfrentou também a falta de diálogo por parte do governo do Estado, que fazia questão de ignorar a greve e desqualificar suas reivindicações. Enquanto isso, a difusão desse desdém oficial era feita pelos grandes meios de comunicação. Além disso, uma série de disputas internas pela burocracia sindical enfraqueceu o movimento grevista.

Chegando ao acampamento dos professores, em frente à Secretaria de Educação, na praça da República, na noite da quinta-feira, dia 11 de junho, nossa reportagem se deparou com rostos cansados e vozes já trêmulas, vindas de bocas secas pelos três meses de discussões, debates e assembléias. Naquela noite, ainda se defendia a continuação da greve, mesmo com todos os prognósticos contrários. Os professores se encontravam em uma situação material extremamente precária, sem conseguir se manter financeiramente e pagar suas contas, sem acesso ao fundo de greve e, portanto, cada vez mais desmobilizados em busca de suas necessidades básicas.

Esvaziamento da greve

Alessandro Soares, professor de geografia no estado desde 2005, contou que, no final de maio, começou um refluxo na adesão à greve, “com a burocracia sindical desmobilizando a categoria”, diz.

A partir de então, vários grupos que se aproximaram durante a greve tentaram se articular em torno de uma agenda para debater as questões pertinentes à categoria, junto aos Conselhos Representantes do sindicato, e fazer pressão para que o movimento engrossasse novamente.

“Antes das assembléias, há uma plenária dos Conselhos Representantes. Em cerca de 4 ou 5 oportunidades, comparecemos a esses grupos de forma autônoma, pedindo a voz para que pudéssemos também mostrar que nós tínhamos uma pauta, uma agenda de reivindicações que levavam como maior bandeira uma melhoria da qualidade da educação, não apenas a questão salarial. Tem isso também, claro. Mas o mais importante para nós era discutir o que significa a educação aqui no estado de São Paulo. Uma educação toda sucateada”, explica o professor.

“Tivemos a abertura em relação ao regime militar no final dos anos 80, e então o governo do estado passou pelo PMDB e depois caiu no controle tucano. Houve uma crescente desmobilização e uma diminuição do poder aquisitivo dos professores a partir de então. E também uma piora do ensino público no estado de São Paulo”, observa.

Partidarização do debate

Para o professor, um dos fatores que “sangrou” o movimento grevista foi a postura dos diferentes grupos que disputam a burocracia sindical. Para ele, houve uma prioridade colocada nesta disputa em detrimento ao avanço das pautas propostas pela base.

“A gente observa dentro do sindicato que diversas correntes que lutam pelo aparelho, no momento mais agudo, se juntaram para terminar a greve”, critica o professor. De acordo com ele, mesmo as correntes de oposição, ligadas ao PSTU e ao PSOL, não aprofundaram a discussão sobre o que significa a educação. Para Alessandro e outros professores acampados na República, o debate em torno da educação foi partidarizado, transformando os professores em massa de manobra na disputa do imaginário político.

“O movimento grevista foi chamado no dia 13 de março pela direção da APEOESP com uma proposta de barrar toda uma série de propagandas que vinham contra o governo federal. Tanto que no dia 13 foi a nossa paralisação e, logo em seguida, no dia 15, houve o ato do pessoal mais conservador”, explica. Nesse momento, o movimento grevista foi crescendo, até chegar ao seu auge no final de abril. “Isso enquanto era conveniente para os setores governistas”, frisa Alessandro. Em outras palavras, não é uma coincidência o fôlego dessas correntes no momento em que as manifestações da direita estavam a todo vapor.

“No momento em que começava a esvaziar a greve, várias correntes independentes e autônomas se juntaram na rua, fazendo as caminhadas, os chamados cortejos, para a Secretaria de Educação. Em alguns momentos, a gente tentou tencionar um pouco mais para que outras pautas, caminhos e discursos fossem ouvidos”, continua Alessandro. Ele considera que esse fôlego extra, que estendeu a greve por quase mais um mês, foi uma vitória, pois, mesmo com toda a sangria, houve certa visibilidade para discutir o processo de deterioração das escolas públicas.

A sangria dos professores

Alckmin Foto do Cloaca News

Um outro fator fundamental a ser explicado é a postura que o estado de São Paulo, comandado pelo governador Geraldo Alckmin, tomou em relação aos profissionais da educação. “É um governo completamente centralista, que não ouve os trabalhadores. Simplesmente ignora a pauta que a gente levanta e não dialoga com os professores. É um governo autoritário e fascista, que coloca a polícia pra bater e perseguir professor. Também não quer discutir de forma aprofundada a escola publica”, dispara Alessandro.

Thiago Lucas

Thiago Lucas

A negociação em torno do aumento salarial foi um dos pontos dos quais o governo se esquivou. “A nossa data base é em março, mas o governo estadual bateu o pé e disse que era em julho. Mesmo sendo legal em março, o governo do estado falou que não aceita essa data base e, quando começou a negociar, o governo dizia que daria o aumento em determinado momento, mas, de forma mais objetiva, não passou nenhum dado a respeito desse aumento”, explica.

Quanto à regularização dos professores temporários, outra pauta da greve, o governo disse ao movimento grevista que iria mandar um projeto de lei para a ALESP. “Mas também não avançou”.

“Ou seja, é complicado, porque, mesmo com esse lema de pátria educadora, quando aparece um movimento sindical que discute não apenas a questão salarial, mas a qualidade e os objetivos da educação, da básica até a superior, não tem onde dialogar, porque partidarizaram a discussão”, lamenta. Se, de um lado, os adeptos de um desses partidos boicotaram internamente a organização da categoria, por outro lado o governo do outro partido se recusou a negociar e perseguiu os professores grevistas.

Para o professor de geografia, o golpe final do estado de São Paulo contra a mobilização dos professores veio na forma do corte do salário. “Esse corte de pontos foi um dos fatores que fez com que o movimento perdesse a sua postura. Todas as pessoas têm suas contas para pagar, sua realidade material, seu modo de vida, têm de colocar arroz, feijão e mistura na mesa. Tem gente que precisa pagar pensão, aluguel, e isso foi uma tática usada pelo governo do estado para enfraquecer o movimento”, descreve.

“No meu caso, tive um corte de salário total. Não vou receber em junho, nem em julho. Como voltei na última segunda-feira (15 de junho), só vou receber em agosto a metade do mês de junho (a contagem do salário é feita 60 dias depois de fechar o mês). Ou seja, vou ter problemas para pagar as minhas contas. Toda a questão material da minha vida está bem complicada, tenho que pedir dinheiro emprestado, correr para o banco, ter familiares ajudando, tentando uma série de coisas para segurar as pontas nesse meio tempo até que eu tenha a minha renda novamente, em setembro”, conta o geógrafo.

Ele não é o único a estar nessa situação. Naquela noite de 11 de junho, no acampamento, uma professora que falava na reunião dos acampados dizia em alto e bom som: “não podemos pedir para um professor que está há 3 meses com o aluguel atrasado, com muitas dificuldades para pagar as contas, vendo os filhos comerem pouco, que continuem em greve. Eles nos sangraram”.

Projeções para um “Brasil em transformação”

Montado pela APEOESP no início da greve, o acampamento foi desfeito no final de maio, após uma assembleia no dia 25. Os professores consideram um ato de resistência ter mantido o acampamento, de forma autônoma em relação à direção sindical, até o fim da greve. “Durante essa greve, a aula foi na rua. Eu aprendi muito nesse processo”, prossegue o nosso entrevistado.

Será que esse modelo de escola pública fechada, cheia de grade, onde uns entram e outros não, essa coisa policialesca, é o projeto que queremos de uma escola pública? Ou a gente tem outro projeto? Eu não tenho uma resposta certa para isso. É uma questão que está levantada. Talvez esse modelo que temos de escola pública não seja o mais positivo no sentido da construção do conhecimento”.

Em relação à representação sindical, muito criticada pelos professores que acamparam na República, podem-se observar alguns novos ingredientes. É notável que há uma nova geração de professores e trabalhadores da educação que pensam a questão sindical sob um ponto de vista interessante, porém, pouco usual. Concorde-se ou não com as críticas, é inegável que a base do movimento grevista busca um debate mais sério.

“Essa greve deu uma oxigenada nas estruturas com um pessoal bastante combativo e cheio de fôlego, que quer por a mão na massa. Esse movimento vem desde junho de 2013, com o empoderamento de você poder sair na rua e levantar as bandeiras dos trabalhadores, da melhoria das condições de trabalho e qualidade de vida da classe trabalhadora. Eu acho que esse movimento grevista vem ainda no embalo do processo das jornadas de junho de 2013, junto com a questão do transporte colocada pelo MPL, e toda a agenda popular que estamos construindo nos últimos dois anos nesse Brasil em transformação”.

Jarbas

Jarbas

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Graças ao conluio destas religiões pentecostais, que só servem para encher os bolsos dos pastores, com os grupos mafiomidiáticos estamos retornoando, em ritmo acelerado ao início do século passado

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O fanatismo mafiomidiático empurra o Brasil para trás

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por Gilmar Crestani

Veja o que pode acontecer quando uma concessão pública cai nas mãos de pessoas desonestas. Os meios de comunicação são concessões públicas. No entanto, os donos destas concessões têm usado as concessões públicas para patrocinar golpes de estado, ditaduras e toda sorte de sinecuras. Por não existir uma lei de médios, quem detém a concessão pode sublocar para fundamentalistas de todas as religiões. Ve-se que não se trata de liberdade de expressão, mas dinheiro. Se a Igreja paga, tem espaço. Graças a este sistema mafioso, elementos como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Eduardo CUnha passam a ditar os rumos da nossa sociedade. Quando um sujeito que usa o dinheiro público para construir aeroportos particulares nas terras da família ou quando somem do noticiário helicópteros pegos com 450 kg de cocaína como se fosse um assunto banal, é porque estamos diante de um sistema viciado, comandado por viciados, cuja condução é aceita por uma sociedade que mais parece uma manada de bovinos tangidos em direção às charqueadas.

Quando Ali Kamel escreveu “Não somos racistas”, foram poucas as vozes isoladas, geralmente associadas aos movimentos de negros, que se manifestaram. O livro, escrito para combater as cotas raciais, acabou fazendo parte do receituário que hoje leva a menoridade penal. As reações às manifestações medievalistas dos meios de comunicação foram tímidas. Agora que o estrago está por se consumar, a sociedade murmura. Pior, até pessoas pretensamente inteligentes pensam que, em pleno século XXI, as leis devem voltar a serem o que foram 100 anos atrás. A falta de embate político, e este foi o principal erro do PT, está legando uma sociedade fascista.

Graças ao conluio destas religiões pentecostais, que só servem para encher os bolsos dos pastores, com os grupos mafiomidiáticos estamos retornoando, em ritmo acelerado ao início do século passado. Ao contrário dos tempos do JK, estamos regredindo 100 anos em cinco.

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Joaquim Nabuco e os linchamentos no Brasil

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Nabuco não foi ouvido e não falta muito para termos no mercado Cigarros Bolsonaro

Nabuco não foi ouvido e não falta muito para termos no mercado Cigarros Bolsonaro


por Márcio Sotelo Felippe

Joaquim Nabuco começou sua trajetória, ainda quintanista de Direito, defendendo um escravo acusado de matar o policial que o mandara açoitar, e depois um guarda para escapar da prisão. Um negro que matou dois funcionários brancos. Nabuco saiu vitorioso porque evitou a pena de morte.

A corajosa defesa de Nabuco foi construída a partir do seguinte raciocínio: o negro defendera-se de dois crimes anteriores, crimes da ordem jurídica e social do Império: um, a própria escravidão; outro, a pena de morte iminente.

Nesta última semana, em São Luís, um jovem negro, favelado, morreu linchado amarrado a um poste por ter, segundo a notícia, assaltado um bar.

O jornal Extra publicou a notícia com duas ilustrações, incrivelmente idênticas. Uma mostrava um escravo acorrentado a um tronco, submetido a açoites. Outra, o negro de São Luís, morto, cabeça pendendo amarrado a um poste de luz. É como se a foto fosse uma reprodução deliberada da primeira, uma cópia feita por um cineasta ou um fotógrafo. Nas duas cenas, pessoas olham inertes, passivas, curiosas. Profético Nabuco.

Se o jovem negro saísse vivo, sua defesa deveria ser feita com a coragem de Nabuco: ele cometeu um crime que tem a ver com crimes anteriores, os crimes da ordem social e jurídica que degradaram toda sua existência. Porque óbvio que jovens brancos de classe média não roubam botecos. Cometem outros delitos, e quando o fazem não são amarrados a um poste e linchados.

Anos mais tarde, Nabuco, já herói do abolicionismo, era célebre a ponto de ter sua figura estampada em rótulo de cigarro (Cigarros Nabuco). Um dos intelectuais mais extraordinários da história do Brasil, escreveu a frase que explica o linchamento do jovem negro favelado de São Luís e que explica muito do Brasil dos séculos seguintes. Em citação livre: a escravidão havia de tal forma pervertido e contaminado a sociedade brasileira que a moldaria ainda por muito tempo. E que não bastaria libertar escravos, mas reeducar a sociedade.

A abolição foi um ato apenas jurídico e formal. O Brasil então seguiu impávido colosso ignorando o povo negro, como se nada devêssemos a eles, como se não tivéssemos um débito social derivado de um tenebroso passado de séculos de miséria e degradação escravizando seres humanos. O Brasil segue impávido colosso ignorando as gerações seguintes do povo negro, e assim o jovem negro de São Luís era livre segundo a lei. A lei que em sua majestática grandeza dá a todos o direito de jantar no Ritz e dormir embaixo da ponte, como disse Anatole France.

Anatole France disse literariamente o que críticos do Capitalismo desde sempre apontaram: a condição de sujeito de direito do trabalhador que produz a riqueza da sociedade por força de um contrato “livremente” assinado não o liberta. O constrangimento econômico difuso o faz escravo de outra forma. Então, ele é perfeitamente livre para dormir embaixo da ponte ou ir a Paris jantar no Ritz.

A opressão do povo negro é múltipla. Há o débito social histórico, essa miséria transmitida de geração a geração sem que a sociedade brasileira lembre-se de resgatá-lo. Há o preconceito. Há a exploração da estrutura capitalista, que aí é, portanto, uma sobre opressão.

Em artigo publicado nesta coluna Contracorrentes, Marcelo Semer, apoiado em levantamento da Secretaria Nacional da Juventude (trabalho coordenado por Jaqueline Sinhoreto), traz, nessa ordem de considerações, um dado irrespondível: “mais de 60% dos presos são negros (prende-se 1,5 vez o número de brancos) e uma parcela próxima a essa é composta por jovens. Quanto mais se prende, mais jovens e mais negros lotam as cadeias”.

“Puta africana”, “macaca”, “vagabunda” foram algumas das frases dirigidas a Maju, a apresentadora negra do Jornal Nacional, no Facebook. A página do Extra que estampava as duas ilustrações teve, entre 1817 comentadores, 71% favoráveis ao linchamento.

Billie Holiday cantava uma canção chamada Strange Fruit. Falava dos negros enforcados em árvores nos sul dos EUA: “árvores do sul produzem uma fruta estranha/sangue nas folhas e sangue na raiz/corpos negros balançando/fruta estranha pendurada nos álamos/pastoril cena do valente sul/os olhos inchados e a boca torcida/perfume de magnólias, doce e fresca/Depois o repentino cheiro de carne queimada/Aqui está a fruta para os corvos arrancarem/Para a chuva recolher, para o vento sugar/Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair/Aqui está a estranha e amarga colheita”.[i]

Aqui não são árvores, são postes de luz. Há neles uma estranha lâmpada.

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Maioridade penal foi fixada após estupro de menor na prisão, em 1927

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bernardino menino estupro menoridade penal


por Mariana Serafini

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Em 1927, menor estuprado na prisão levou Brasil a fixar idade penal

A maioridade penal foi fixada em 18 anos no Brasil em 1927, quando um crime brutal chocou o país e levou as pessoas a questionarem a violência contra as crianças. Desde então, esta é a primeira vez que existe uma proposta de redução.

A história ficou conhecida como “O menino Bernardino”. A criança, de apenas 12 anos, era engraxate, ao terminar um serviço o cliente saiu sem pagar. A reação de Bernardino foi jogar tinta no senhor que prontamente acionou a polícia. Quando os policiais chegaram o pequeno não soube explicar o que aconteceu e foi preso numa cela com 20 adultos.

Mesmo inocente, Bernardino permaneceu na prisão e foi estuprado e espancado pelos detentos adultos. De lá, jogado na rua. Ao ser resgatado e levado ao hospital, os médicos ficaram horrorizados com a história e a imprensa da época deu um grande destaque ao caso, que chocou a população. Apesar de haver uma violência generalizada contra as crianças pobres, além de uma exploração exacerbada do trabalho infantil, a população questionou os cuidados com a infância e exigiu medidas de proteção.

Pressionado pela opinião pública, um ano mais tarde o presidente Washington Luiz assinou o Código de Menores, um sistema de proteção à criança que fixava em 18 anos a idade para os adolescentes serem punidos como adultos. Este Código também protegia os menores de 14 anos abandonados, que não receberiam nenhum tipo de punição e a partir desta idade poderiam ser submetidos a medidas socioeducativas.

Para a professora de História da Educação da Uerj, Sônia Câmara, o Código dividiu as crianças “em dois grandes setores, o setor das crianças de elite, brancas e ricas e a grande maioria das crianças brasileiras: pobres, negras, abandonadas e delinquentes, que recebem o nome pejorativo de ‘menor’”. Mas ainda assim, ela vê com bons olhos esta que foi a primeira tentativa efetiva de regular e proteger a infância.

Mas havia uma “divisão social” que independia da idade porque eram considerados “menores”, as crianças abandonadas e que estavam sob a tutela do Código, ou seja, os “vadios”, ou “delinquentes”. Normalmente as crianças com estrutura familiar não se encaixavam nos pré-requisitos do Código.
A partir disso surge o SAM “Serviço de Assistência ao Menor”, que seria uma primeira tentativa do que conhecemos hoje como Fundação Casa. Porém, o aparelho funcionava, de acordo com a professora de História da USP, Maria Luiza Marcilio, como uma ferramenta de tortura e violência contra as crianças, e não como um mecanismo educativo.

Depois do fracasso da ditadura militar com a Funabem (que daria origem à Febem), em 1990 surge o Estatuto da Criança e do Adolescente, considerado até hoje avançado. O ECA prevê a proteção à criança e ao adolescente baseado em leis internacionais e estabelece punições socioeducativas aos menores de 18 anos responsabilizados por crimes.

Um crime que chocou a sociedade brasileira em 1927, ou seja, quase 90 anos atrás, pode se tornar realidade novamente, caso as crianças e adolescentes sejam expostas à punição com adultos. É isso que propõe a PEC da redução, aprovada pela Câmara dos Deputados.

A história de Bernardino faz parte de uma série de arquivos resgatados pelo Senado Federal no Arquivo S.

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estamos regredindo 100 anos em cinco.

El terrorismo financiero contra Grecia

Este artículo hace una llamada a la ciudadanía de los distintos pueblos y naciones de España para que se movilicen en defensa del gobierno Syriza en Grecia, cuya causa (la defensa de la democracia y la justicia social) es la misma que la que motivó a los luchadores republicanos españoles en los años treinta.

Spiros Derveniotis

Spiros Derveniotis

Por Vicenç Navarro

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Estamos hoy viendo un ataque frontal del capital financiero, hegemonizado por el alemán, y vehiculado primordialmente a través del Banco Central Europeo (BCE), en contra del pueblo griego, ataque que intenta evitar cualquier atisbo de rebelión frente a las políticas de austeridad que están destruyendo el bienestar de las clases populares de todos los países de la Eurozona y muy en particular de Grecia, cuyo gobierno Syriza ha sido el primero en decir “BASTA YA” frente a lo que no hay otra manera de llamarlo como terrorismo financiero (ver el libro del Profesor Juan Torres y yo, titulado Los amos del mundo, las armas del terrorismo financiero). Es en estos momentos cuando hay que entender el contexto político e histórico de lo que está ocurriendo, comenzando por las semejanzas existentes entre lo acontecido en Grecia ahora con lo que sucedió en España en el año 1936.

España 1936, Grecia 2015

Existen momentos en la historia de Europa en los que la lucha por la justicia social y por la democracia en un país es también la lucha por la justicia y por la democracia para todos los países del continente europeo. La lucha, mal llamada Guerra Civil en España (entre 1936 y 1939), fue un ejemplo de ello. En el territorio español, un golpe militar en nombre de las minorías que controlaban el país, tuvo lugar el 18 de julio del año 1936, con el apoyo de las tropas nazis alemanas y fascistas italianas, frente a la gran mayoría de las clases populares de los distintos pueblos y naciones de España, que resistieron tal golpe heroicamente durante más de tres años, con escasa ayuda militar de los países gobernados por partidos que se autodefinieron como demócratas, mostrando una gran traición a los principios democráticos que decían sostener.

La derrota de las fuerzas democráticas españolas significó también la derrota de la democracia en la Europa Occidental con la victoria del nazismo y del fascismo en muchos países de aquella Europa, iniciándose la II Guerra Mundial. Y en España, aquella victoria significó el inicio de un régimen dictatorial que se caracterizó por su enorme brutalidad (por cada asesinato político que cometió Mussolini, el dictador Franco cometió 10.000, según el mayor experto en el fascismo europeo, el profesor Malefakis, de la Universidad de Columbia en la ciudad de Nueva York) y que impuso un enorme retraso económico, político, social y cultural en España. En 1936, España e Italia tenían semejante nivel de desarrollo económico. En 1978, fecha en la que terminó aquel horrible régimen dictatorial, el PIB per cápita español era solo el 62% del italiano. Este fue el coste económico de tal régimen.

¿Qué está pasando en Grecia?

Salvando las diferencias que existen en cada hecho histórico, lo cierto es que en Grecia hemos estado viendo una situación semejante, en que la lucha por la justicia social y por la democracia en aquel país es la lucha por la justicia social y por la democracia en todos los países de la Europa Occidental. La pervivencia de la justicia social y de la democracia en los países de la Unión Europea se está jugando hoy en aquel país. Su derrota limitará enormemente, hasta anularlas, tanto la una como la otra, completando un proceso que se inició hace años con la construcción de un sistema de gobierno de la Eurozona, dominado por el capital financiero (hegemonizado por el alemán), que, en una coalición de las minorías gobernantes en cada país, han estado agrediendo al pueblo griego, destruyendo el 25% de su riqueza nacional o PIB, con el desmantelamiento de su ya escaso Estado del Bienestar, saqueándolo, robándole sus propiedades y atacando a sus clases populares, y muy en particular a su clase trabajadora, asalto que se ha estado realizando en colaboración con las élites corruptas y antidemocráticas que han gobernado Grecia durante muchísimos años. Este ataque (y no hay otra manera de definirlo) se ha llevado a cabo en alianza con las minorías que representan a las clases dominantes de los países miembros de la Unión Europea, siendo un aliado importante en esta lucha de clases que está teniendo lugar a nivel continental, las élites corruptas gobernantes del Estado español, herederas de las que dominaron la dictadura fascista en España.

La rama política de este capital financiero –los partidos conservadores y liberales, con la inestimable ayuda de los partidos socioliberales- (que todavía tienen la osadía de autotitularse socialdemócratas, tras haber abandonado cualquier atisbo de parecerse a tal tradición política), han establecido una dictadura en la Unión Europea que ha estado imponiendo políticas sumamente impopulares que carecían de mandato popular (pues no estaban en sus programas electorales), alcanzando su máximo desarrollo en Grecia. Hoy, la riqueza destruida en aquel país, todavía pobre en Europa, es mayor que la riqueza destruida en Francia y en Alemania durante la I Guerra Mundial. Sus pensiones y sus servicios públicos del Estado del Bienestar están siendo diezmados, y los convenios colectivos que defienden al mundo del trabajo están siendo enormemente debilitados, todo ello como consecuencia de las políticas neoliberales impuestas por el establishment neoliberal europeo que controla el gobierno de la Unión Europea y de la Eurozona, con la asistencia del Fondo Monetario Internacional. Es un ejemplo más del terrorismo financiero que es tan dañino como el terrorismo militar, y que es mucho más extenso.

El objetivo político del establishment europeo es destruir cualquier rebelión frente a esta d¡ctadura financiera

Lo que está ocurriendo hoy es el intento de destruir a Syriza, el primer gobierno que, representando los intereses de las clases populares, ha intentado parar tanta barbarie, rebelándose frente a las políticas públicas de austeridad, tal como le mandó el pueblo griego. Como he indicado en artículos anteriores, lo que la dictadura financiera quiere es no expulsar a Grecia del euro, sino expulsar a Syriza del gobierno. Y cuenta para ello con la clase política griega, corrupta hasta la médula, que controla la gran mayoría de los medios de información y persuasión de aquel país, como también ocurre en España.

Grecia ha sido la mayor víctima de este sistema terrorista que se está aplicando en la Eurozona, causando el mayor desastre social que se conoce en la Europa Occidental desde 1945. De ahí la urgencia y necesidad de ayudar a las fuerzas democráticas griegas, saliendo a la calle, enfrente de las delegaciones de la UE en España, para mostrar el rechazo hacia este terrorismo. La Europa que era el sueño de la resistencia antifascista durante los años de clandestinidad es ahora, una pesadilla, como consecuencia del deterioro tan marcado de la democracia y de la solidaridad, resultado de aquel terrorismo financiero que domina hoy este continente.

¿Qué está pasando en estos momentos?

Como era de esperar, la mayoría de los medios de gran difusión en España, altamente financiados por el capital financiero, han responsabilizado de lo que está ocurriendo nada menos que a la víctima de tal terrorismo. Frente a tanta mentira, es importante señalar:

1. La enorme necesidad y urgencia de responder a tanta falsedad, denunciando a los medios por falsificar la realidad, tanto de lo que ha estado ocurriendo como de lo que ha pasado estos días.

2. Que el Banco Central Europeo (BCE), que ya mostró su hostilidad hacia el gobierno Syriza solo dos días después de ser elegido, ha amenazado con destruir el sistema bancario griego cerrando toda transferencia a sus entidades bancarias.

3. Que las exigencias de las Instituciones Europeas (formado por, además de lo que se había llamado la Troika –el BCE, la Comisión Europea y el FMI-, el Eurogrupo), que incluyen el pago de la deuda, son un ataque frontal a la supervivencia de Grecia, pues es imposible que se pague tal deuda y a la vez reactivar la economía griega. Tales demandas han llegado a niveles escandalosos, como exigir que haya una reducción de las pensiones públicas que signifique un recorte equivalente a un 1% del PIB, a la vez que las mismas instituciones se oponen a la demanda de Syriza de aumentar los impuestos a las clases más pudientes, vetando también un gravamen a los grandes yates de tales clases.

4. Que la aplicación de las políticas de austeridad ha causado un auténtico desastre social y económico, generando a la vez un aumento y no una disminución de la deuda pública, de la cual solo se han beneficiado los bancos extranjeros, y muy en particular los alemanes y franceses, pero también los españoles.

5. Que cuando estos bancos estuvieron en riesgo de perder sus enormes beneficios generados por los intereses que Grecia estaba forzada a pagar, y que no podría pagar, fueron los gobiernos de la Eurozona los que les rescataron, bajo la falsa excusa de que intentaban ayudar a Grecia.

6. Que han sido las instituciones del establishment europeo, que desde el primer día del gobierno Syriza mostraron una enorme rigidez, las que han ignorado las demandas de este gobierno, que no eran ni más ni menos las que se habían permitido al Estado alemán cuando su deuda le estaba ahogando. En estas condiciones se hizo una quita de un 50% de la deuda pública alemana y se condicionó el pago del resto de la deuda al crecimiento de la economía alemana. Las instituciones del establishment europeo sistemáticamente se opusieron, e incluso se negaron, a considerar esta alternativa que había señalado el gobierno Syriza.

7. Que el BCE, en alianza con la clase corrupta dominante en Grecia, que controla la mayoría de los medios de información, está intentando que estos días, antes del referéndum del próximo fin de semana, haya un caos en la situación financiera griega, a fin de movilizar la oposición al gobierno Syriza en el referéndum, con la intención de conseguir lo que siempre desearon, echar a Syriza del gobierno.

8. Que la derrota de Syriza será una derrota de la lucha contra la austeridad en la Eurozona. Syriza no tenía ninguna otra alternativa a hacer lo que ha hecho, pedir la opinión del electorado griego, pues Syriza fue escogido para terminar con las políticas de austeridad. Si las instituciones europeas no le dejan hacer lo que prometió es una muestra más de su compromiso y coherencia democráticos el que Syriza considere necesario pedirle al pueblo griego que decida si acepta los cambios sugeridos por el establishment europeo o si desea que el gobierno desobedezca tales propuestas.

9. Que todo lo que está pasando en Grecia afecta directamente a las clases populares de todos los pueblos y naciones de España. De ahí que el gobierno Rajoy haya sido el mayor aliado en el Eurogrupo, del Ministro de finanzas alemán -el halcón del Eurogrupo-, pues dicho gobierno español ha sido de los que han llevado a cabo tales políticas de austeridad con mayor dureza, presentándose como el modelo a seguir en la Eurozona. El tsunami político ocurrido en este país en las últimas elecciones municipales ha asustado a ese establishment neoliberal que gobierna la Eurozona, contribuyendo a aumentar su rigidez negociadora, pues quieren, por todos los medios, que Syriza fracase. Intentan así asustar a la población española, cada vez más asqueada con las políticas neoliberales promovidas por el establishment español (y aquí en Cataluña, por el establishment catalán) y sus medios de información y persuasión. El miedo es, una vez más, la estrategia seguida por la estructura de poder ante el número creciente de ciudadanos que quieren tomar el control de su presente y futuro. De ahí el enorme temor de que la ciudadanía sea consciente de que se pueden cambiar las realidades que le oprimen si se organiza para ello. Y esto es lo que el establishment neoliberal europeo no puede permitir. Así de claro.

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