Graças ao conluio destas religiões pentecostais, que só servem para encher os bolsos dos pastores, com os grupos mafiomidiáticos estamos retornoando, em ritmo acelerado ao início do século passado

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O fanatismo mafiomidiático empurra o Brasil para trás

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por Gilmar Crestani

Veja o que pode acontecer quando uma concessão pública cai nas mãos de pessoas desonestas. Os meios de comunicação são concessões públicas. No entanto, os donos destas concessões têm usado as concessões públicas para patrocinar golpes de estado, ditaduras e toda sorte de sinecuras. Por não existir uma lei de médios, quem detém a concessão pode sublocar para fundamentalistas de todas as religiões. Ve-se que não se trata de liberdade de expressão, mas dinheiro. Se a Igreja paga, tem espaço. Graças a este sistema mafioso, elementos como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Eduardo CUnha passam a ditar os rumos da nossa sociedade. Quando um sujeito que usa o dinheiro público para construir aeroportos particulares nas terras da família ou quando somem do noticiário helicópteros pegos com 450 kg de cocaína como se fosse um assunto banal, é porque estamos diante de um sistema viciado, comandado por viciados, cuja condução é aceita por uma sociedade que mais parece uma manada de bovinos tangidos em direção às charqueadas.

Quando Ali Kamel escreveu “Não somos racistas”, foram poucas as vozes isoladas, geralmente associadas aos movimentos de negros, que se manifestaram. O livro, escrito para combater as cotas raciais, acabou fazendo parte do receituário que hoje leva a menoridade penal. As reações às manifestações medievalistas dos meios de comunicação foram tímidas. Agora que o estrago está por se consumar, a sociedade murmura. Pior, até pessoas pretensamente inteligentes pensam que, em pleno século XXI, as leis devem voltar a serem o que foram 100 anos atrás. A falta de embate político, e este foi o principal erro do PT, está legando uma sociedade fascista.

Graças ao conluio destas religiões pentecostais, que só servem para encher os bolsos dos pastores, com os grupos mafiomidiáticos estamos retornoando, em ritmo acelerado ao início do século passado. Ao contrário dos tempos do JK, estamos regredindo 100 anos em cinco.

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Joaquim Nabuco e os linchamentos no Brasil

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Nabuco não foi ouvido e não falta muito para termos no mercado Cigarros Bolsonaro

Nabuco não foi ouvido e não falta muito para termos no mercado Cigarros Bolsonaro


por Márcio Sotelo Felippe

Joaquim Nabuco começou sua trajetória, ainda quintanista de Direito, defendendo um escravo acusado de matar o policial que o mandara açoitar, e depois um guarda para escapar da prisão. Um negro que matou dois funcionários brancos. Nabuco saiu vitorioso porque evitou a pena de morte.

A corajosa defesa de Nabuco foi construída a partir do seguinte raciocínio: o negro defendera-se de dois crimes anteriores, crimes da ordem jurídica e social do Império: um, a própria escravidão; outro, a pena de morte iminente.

Nesta última semana, em São Luís, um jovem negro, favelado, morreu linchado amarrado a um poste por ter, segundo a notícia, assaltado um bar.

O jornal Extra publicou a notícia com duas ilustrações, incrivelmente idênticas. Uma mostrava um escravo acorrentado a um tronco, submetido a açoites. Outra, o negro de São Luís, morto, cabeça pendendo amarrado a um poste de luz. É como se a foto fosse uma reprodução deliberada da primeira, uma cópia feita por um cineasta ou um fotógrafo. Nas duas cenas, pessoas olham inertes, passivas, curiosas. Profético Nabuco.

Se o jovem negro saísse vivo, sua defesa deveria ser feita com a coragem de Nabuco: ele cometeu um crime que tem a ver com crimes anteriores, os crimes da ordem social e jurídica que degradaram toda sua existência. Porque óbvio que jovens brancos de classe média não roubam botecos. Cometem outros delitos, e quando o fazem não são amarrados a um poste e linchados.

Anos mais tarde, Nabuco, já herói do abolicionismo, era célebre a ponto de ter sua figura estampada em rótulo de cigarro (Cigarros Nabuco). Um dos intelectuais mais extraordinários da história do Brasil, escreveu a frase que explica o linchamento do jovem negro favelado de São Luís e que explica muito do Brasil dos séculos seguintes. Em citação livre: a escravidão havia de tal forma pervertido e contaminado a sociedade brasileira que a moldaria ainda por muito tempo. E que não bastaria libertar escravos, mas reeducar a sociedade.

A abolição foi um ato apenas jurídico e formal. O Brasil então seguiu impávido colosso ignorando o povo negro, como se nada devêssemos a eles, como se não tivéssemos um débito social derivado de um tenebroso passado de séculos de miséria e degradação escravizando seres humanos. O Brasil segue impávido colosso ignorando as gerações seguintes do povo negro, e assim o jovem negro de São Luís era livre segundo a lei. A lei que em sua majestática grandeza dá a todos o direito de jantar no Ritz e dormir embaixo da ponte, como disse Anatole France.

Anatole France disse literariamente o que críticos do Capitalismo desde sempre apontaram: a condição de sujeito de direito do trabalhador que produz a riqueza da sociedade por força de um contrato “livremente” assinado não o liberta. O constrangimento econômico difuso o faz escravo de outra forma. Então, ele é perfeitamente livre para dormir embaixo da ponte ou ir a Paris jantar no Ritz.

A opressão do povo negro é múltipla. Há o débito social histórico, essa miséria transmitida de geração a geração sem que a sociedade brasileira lembre-se de resgatá-lo. Há o preconceito. Há a exploração da estrutura capitalista, que aí é, portanto, uma sobre opressão.

Em artigo publicado nesta coluna Contracorrentes, Marcelo Semer, apoiado em levantamento da Secretaria Nacional da Juventude (trabalho coordenado por Jaqueline Sinhoreto), traz, nessa ordem de considerações, um dado irrespondível: “mais de 60% dos presos são negros (prende-se 1,5 vez o número de brancos) e uma parcela próxima a essa é composta por jovens. Quanto mais se prende, mais jovens e mais negros lotam as cadeias”.

“Puta africana”, “macaca”, “vagabunda” foram algumas das frases dirigidas a Maju, a apresentadora negra do Jornal Nacional, no Facebook. A página do Extra que estampava as duas ilustrações teve, entre 1817 comentadores, 71% favoráveis ao linchamento.

Billie Holiday cantava uma canção chamada Strange Fruit. Falava dos negros enforcados em árvores nos sul dos EUA: “árvores do sul produzem uma fruta estranha/sangue nas folhas e sangue na raiz/corpos negros balançando/fruta estranha pendurada nos álamos/pastoril cena do valente sul/os olhos inchados e a boca torcida/perfume de magnólias, doce e fresca/Depois o repentino cheiro de carne queimada/Aqui está a fruta para os corvos arrancarem/Para a chuva recolher, para o vento sugar/Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair/Aqui está a estranha e amarga colheita”.[i]

Aqui não são árvores, são postes de luz. Há neles uma estranha lâmpada.

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Maioridade penal foi fixada após estupro de menor na prisão, em 1927

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bernardino menino estupro menoridade penal


por Mariana Serafini

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Em 1927, menor estuprado na prisão levou Brasil a fixar idade penal

A maioridade penal foi fixada em 18 anos no Brasil em 1927, quando um crime brutal chocou o país e levou as pessoas a questionarem a violência contra as crianças. Desde então, esta é a primeira vez que existe uma proposta de redução.

A história ficou conhecida como “O menino Bernardino”. A criança, de apenas 12 anos, era engraxate, ao terminar um serviço o cliente saiu sem pagar. A reação de Bernardino foi jogar tinta no senhor que prontamente acionou a polícia. Quando os policiais chegaram o pequeno não soube explicar o que aconteceu e foi preso numa cela com 20 adultos.

Mesmo inocente, Bernardino permaneceu na prisão e foi estuprado e espancado pelos detentos adultos. De lá, jogado na rua. Ao ser resgatado e levado ao hospital, os médicos ficaram horrorizados com a história e a imprensa da época deu um grande destaque ao caso, que chocou a população. Apesar de haver uma violência generalizada contra as crianças pobres, além de uma exploração exacerbada do trabalho infantil, a população questionou os cuidados com a infância e exigiu medidas de proteção.

Pressionado pela opinião pública, um ano mais tarde o presidente Washington Luiz assinou o Código de Menores, um sistema de proteção à criança que fixava em 18 anos a idade para os adolescentes serem punidos como adultos. Este Código também protegia os menores de 14 anos abandonados, que não receberiam nenhum tipo de punição e a partir desta idade poderiam ser submetidos a medidas socioeducativas.

Para a professora de História da Educação da Uerj, Sônia Câmara, o Código dividiu as crianças “em dois grandes setores, o setor das crianças de elite, brancas e ricas e a grande maioria das crianças brasileiras: pobres, negras, abandonadas e delinquentes, que recebem o nome pejorativo de ‘menor’”. Mas ainda assim, ela vê com bons olhos esta que foi a primeira tentativa efetiva de regular e proteger a infância.

Mas havia uma “divisão social” que independia da idade porque eram considerados “menores”, as crianças abandonadas e que estavam sob a tutela do Código, ou seja, os “vadios”, ou “delinquentes”. Normalmente as crianças com estrutura familiar não se encaixavam nos pré-requisitos do Código.
A partir disso surge o SAM “Serviço de Assistência ao Menor”, que seria uma primeira tentativa do que conhecemos hoje como Fundação Casa. Porém, o aparelho funcionava, de acordo com a professora de História da USP, Maria Luiza Marcilio, como uma ferramenta de tortura e violência contra as crianças, e não como um mecanismo educativo.

Depois do fracasso da ditadura militar com a Funabem (que daria origem à Febem), em 1990 surge o Estatuto da Criança e do Adolescente, considerado até hoje avançado. O ECA prevê a proteção à criança e ao adolescente baseado em leis internacionais e estabelece punições socioeducativas aos menores de 18 anos responsabilizados por crimes.

Um crime que chocou a sociedade brasileira em 1927, ou seja, quase 90 anos atrás, pode se tornar realidade novamente, caso as crianças e adolescentes sejam expostas à punição com adultos. É isso que propõe a PEC da redução, aprovada pela Câmara dos Deputados.

A história de Bernardino faz parte de uma série de arquivos resgatados pelo Senado Federal no Arquivo S.

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estamos regredindo 100 anos em cinco.

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Dever de casa com o vampiro de Curitiba

por Xico Sá/ El País/ Espanha

Hei de vencer, mesmo sob as bombas e as porradas do governo Beto Richa ou Rixa (PSDB) na capital paranaense

Hei de vencer, mesmo sendo professor. O mantra do adesivo que circulava em muitos fusquinhas dos anos 1970 e 80 está mais em voga do que nunca. Hei de vencer, vejo aqui no retrovisor da infância, Grupo Escolar Virgílio Távora, o mantra dos mestres estampado em uma faixa gigante na praça dos Ourives, Juazeiro do Norte.

Hei de vencer, mesmo sob as bombas e as porradas do governo Beto Richa ou Rixa (PSDB) na capital paranaense. Hei de vencer, mesmo depois de uma longa greve, uma quaresma, que o tucano Geraldo Alckmin define simplesmente como novela —parte da imprensa também lista o protesto no gênero ficção, acredite sem-querer-querendo, meu brother Jack Palance.

Hei de vencer, mesmo que pancadaria braba e covarde seja chamada tecnicamente de “confronto” nas emissoras de rádio e TV. Hão de pensar: se o cão, mesmo policial, mordeu o homem, no caso o cinegrafista Luiz Carlos de Jesus (TV Band), ainda não é lá essas notícias. Afinal de contas, o conceito clássico de notícia, como aprendemos na faculdade, é quando o homem morde o cachorro.

Hei de vencer, mesmo sendo professor em qualquer ponto desta terra que já foi a pátria de chuteiras e agora se propõe, ainda somente no slogan publicitário, uma pátria educadora. Hei de vencer, ilustríssimo Paulo Freire, mesmo sendo terceirizado e não mais dono do meu próprio suor para vendê-lo sem atravessadores, como tu já discutias, método por método, ti-jo-lo por ti-jo-lo, ainda em tempos mobrais.

Hei de vencer, professor Darcy Ribeiro, mesmo copiando, como em um antiditado construtivista, a sua lição de coisas mais conhecida:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Vampiro de Curitiba

Hei de vencer, mesmo que tenha que convocar o “vampiro de Curitiba”, o perverso Nelsinho, personagem clássico do escritor Dalton Trevisan, para explicar como o sr. Rixa pode ser tão sádico com a turma do pó de giz. Só o vampiro, vagando pela madruga fria do Centro Cívico, é capaz de reconstituir o crime e explicar, tintim por tintim, miúdo humano por miúdo humano, a sanguinolenta pedagogia aplicada.

Hei de vencer, mesmo sendo professor em qualquer ponto desta terra que já foi a pátria de chuteiras e agora se propõe, ainda somente no slogan publicitário, uma pátria educadora

Cao

Cao

Estava escrito nos contos de Trevisan, curtos como os salários professorais, todo esse Boletim de Ocorrência. Um B.O. à maneira de Nelsinho talvez explicasse tudo, afinal de contas o vampiro, na sua ambivalência permanente, sempre fica entre o estranho e o familiar. É familiar que um governo tipo Rixa trate assim os professores: é estranho, mas necessário, que a gente ainda se espante e rejeite enxergar com a lente fumê da banalidade.

Hei de vencer, mesmo sob a tonfa de uma gestão “desgracida”. Até parece frase, embora este cronista seja um péssimo aluno de redação e estilo, do professor Dalton, mestre dos meninos e velhos contistas. Donde tonfa —“ai que saudade da professorinha que me ensinou o beabá”—, venha a ser o popularíssimo cassetete, pedagogia de quem força na marra o ajoelhamento no milho da humilhação política.

Agora de forma mais didática, repare como começa essa história de tonfa, na boca de um dos comandantes da PM paranaense:

“Se precisar usar a tonfa, é por baixo! Nada de sair girando por cima”, deu ordens aos espartanos.

Problema é que, no “confronto”, sabe cumequié, meu caro vampiro de Curitiba, a tonfa acaba atingindo os elementos docentes em partes indesejadas da anatomia e não apenas nos membros inferiores, conforme orientação inicial à tropa.

Hei de vencer, mesmo dando a cara a bater aos corretos portadores de tonfa. Hei de vencer, mesmo que chova bombas de helicópteros.

Tonfa neles

Quem essa professorada pensa que é, só porque dá aulas neste país de analfas, só por ensinar alguma coisa… Sabe-se lá o que passa em sala, deve ensinar um comunismo medonho às pobres criaturas indefesas. Coitada das criancinhas. Eu poderia estar por ai protestando, bando de vagabundo, cada abusadinho desses ganha muito mais que eu, no entanto sigo na lida, na trabalheira, com farda ou na base do bico… Desço a tonfa mesmo, sem dó nem piedade, quem manda vandalizar o coreto?

Hei de vencer, mesmo diante do pensamento reto de qualquer soldado PM anônimo que vira herói imediato dos comentaristas de portais da Internet.

Duke

Duke

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Hei de vencer, mesmo que pancadaria braba e covarde seja chamada tecnicamente de “confronto” nas emissoras de rádio e TV
Exclamações sangrentas nas manchetes dos jornais clamam por “Confronto”. Hei de vencer, mesmo eu entrando com a face e o PM com a tonfa, hei-de.

Tonfa neles, por baixo, por cima… Hoje a tonfa vai comer solta. Não foi por falta de aviso. Vai protestar, que deixe sua cabeça em casa. Hoje não tem selfie policial, só tonfa na confa —o mesmo que porrada, correria e confusão—, como o Nelsinho, o vampiro de Curitiba, sempre ele, descreveria o ocorrido no seu distrito.

Por pouco a confa não sobra mesmo até para o vampiro. Conhecendo o cara minimamente, deveria estar na área do “confronto”, na cobiça de uma normalista linda, óbvio. O vampiro tarado busca alimentar seu desejo nos lugares mais impróprios, independentemente das ordens expressas dos sangues de barata de todas as patentes, ideologias, religiões e credos.

O próprio criador, seu Dalton, reza a lenda, flanou, sob a proteção de um boné abaixado e com passadas largas do velho pisante Vulcabrás, no meio da carnificina. No seu raro passeio anual pela cidade, como o mais anônimo dos curitibanos, ninguém deu conta do vencedor do Prêmio Camões de literatura. Seu Dalton afina a surdina existencial todas as manhãs com o canto das corruíras. De tão discreto, seu Dalton nem chorou com gás lacrimogênio.

E por falar em testemunhas oculares da história, quem também deu pinta na área do “confronto” foi o escriba Guilherme Caldas. Saiu para investigar comidinhas de baixa gastronomia, especialidade do seu blog na “Gazeta do Povo”, e voltou com o melhor retrato do sanguinolento ocorrido:

“Gente ferida e assustada, um governador, digamos assim, desonesto, muita sujeira espalhada, incluindo cápsulas de escopeta e de invólucros de bombas molhados pela chuva do começo da noite. No meio daquele final de confusão, encontrei um amigo indignado com, entre outras coisas, a pipoca a R$ 5: “até o pipoqueiro metendo a mão na gente!”.

Hei de vencer, mesmo diante do pensamento reto de qualquer soldado PM anônimo que vira herói imediato dos comentaristas de portais da Internet
Calma, amigos do vampiro, o cronista que combate o raio gourmetizador, ali no meio da confa da tonfa, topou também, graças a Deus, com o Donizete, o Rei do Espetinho, que, alheio às pressões econômicas do momento, vendia seus sapecados de carne, linguiça, frango e coração a R$ 2. Donizete, autêntico habitante daquela Daltolândia, disse mais: só vai ao Centro Cívico em dias de bafafás, greves e protestos. No que o Caldas, safo, se saiu:

“Pedi um de frango, paguei e tomei rumo. Num dia com tantas coisas ruins, o tempero do Rei do Espetinho estava bom”.

Hei de vencer. Não me pergunte como. Hei de vencer, mesmo sendo o professor, naturalmente, um para-raio de tonfas e vampiros.

Nani

Nani

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

As melhores músicas contra a ditadura brasileira

 

Quem sabe

por Matheus Mans

 

Numa época em que a liberdade de expressão é cerceada, nada mais criativo que expressar desejos e anseios através da música. A Ditadura Militar que o Brasil viveu, entre os anos de 1964 e 1985, fez com que músicas se tornassem hinos e verdadeiros gritos de liberdade aos cidadãos oprimidos e sem possibilidade de se expressar como desejavam. Através de letras complexas e cheias de metáforas, elas traduziam tudo o que sentiam.

Além disso, os festivais de MPB, promovidos pela TV Excelsior e, posteriormente, pela TV Tupi, auxiliaram na divulgação das canções tornando-as ainda mais populares. Essa lista pretende mostrar as músicas que criticavam o governo militar, contando um pouco da história de cada uma delas e seus significados ocultos, que passaram, muitas vezes, batidos pela censura.

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[Conheça  os hinos, os gritos de Liberdade, principalmente nestes obscuros tempos que vivemos, quando estranhos poderes pedem a volta do golpe de 64, o retorno dos 21 anos de ditadura, o fim da Democracia.

Divulgue as músicas contra a cruel e corrupta ditadura militar brasileira.

O povo precisa conhecer a verdade, o terror da escuridão dos porões da tortura, os macabros vôos da morte de presos políticos, as chacinas de líderes estudantis, operários e camponeses, a profanação dos cemitérios clandestinos.

Precisamos acordar o povo, mostrar a verdade, erradicar o analfabetismo político.

Matheus Mans selecionou 15 músicas. Eis a primeira]

 

Geraldo Vandré

 

Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré

Nada mais lógico e natural que começar a lista com o hino do movimento de resistência. Pra Não Dizer que não Falei das Flores, composta em 1968, pelo paraibano Geraldo Vandré, fez com que os militares censurassem a canção por fazer clara referência contrária ao governo ditatorial. O refrão “Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer” foi considerado um verdadeiro chamado às ruas contra os ditadores.

Além do refrão, a estrofe “Há soldados armados/ Amados ou não/ Quase todos perdidos/ De armas na mão/ Nos quartéis lhes ensinam/ Uma antiga lição/ De morrer pela pátria/ E viver sem razão” é uma das mais explícitas das produções musicais no momento. Não faz rodeios. Vai direto à crítica aos militares.

O sucesso da canção é atribuído aos mais diversos fatores: a rima de fácil assimilação e que “gruda”; a melodia em forma de hino, o que acaba por se tornar mais uma provocação ao regime; além de retratar os desejos e anseios da geração da época. Ao lado, uma gravação histórica de Vandré cantando a canção no Maracanãzinho, em 1968, que inclui uma severa crítica aos militares no início e uma série de vaias provindas da arquibancada. [Continua. Clique veja vídeo]

 

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[Vandré, depois das prisões no Brasil, nunca mais foi a mesma pessoa, que a tortura nunca termina. Perseguido pelas ditaduras do Cone Sul, também foi prisioneiro no Chile, terminou vagando pela África e Europa.

Transformaram Vandré em cobaia das novas armas de torturas física e psicológica. Inclusive pelo uso de drogas. 

Com a anistia, Vandré voltou ao Brasil, e viveu em total isolamento, inclusive em sanatórios psiquiátricos. Como um “louco manso”, patético, um palhaço, que se fantasiava de militar, parecendo um marinheiro de fandango.

Foi acusado de espionar exilados, até o triste reconhecimento de que era apenas uma vítima da ditadura.

As rodas das máquinas de tortura transformaram Vandré em um bagaço.

Conheci Vandré, no tempo que trabalhou na Tv Jornal do Comércio do Recife, em rodas de conversas na rua do Lima, com Capiba, Nelson Ferreira e Sivuca.

Uma noite, em um bar (na época chamado de “buraco frio” dos deputados, por ficar no térreo de um prédio ao lado da Assembléia Legislativa), apareceu Vandré com seu primeiro disco, que estava vendendo para fazer dinheiro e viajar para o Rio de Janeiro. “Um dia você vai ouvir falar de mim”, disse como despedida, quase gritando, da porta do bar.

Eu estava sentado em uma das cadeiras do balcão, com Dias da Silva, que tinha um programa, talvez o primeiro da história  da psicologia, na televisão.

Era dois anos mais novo do que Vandré jovem, extrovertido, conversador, alegre, sonhador e inteligente.

Dias, já formado, assinava uma coluna no Diário da Noite, onde eu era editor.

Foi a última vez que vi os dois. T.A.]

 

Vandré

Vandré

 

FRANCIA. ¿Choque de civilizaciones o crisis europea?

La masacre en la redacción de Charlie Hebdo es presentada como un capítulo más de una guerra mundial entre el bien y el mal, la democracia y la brabarie. Sin embargo, el atentado deja expuesta la crisis de identidad al interior de la sociedad francesa, así como el efecto boomerang de la política exterior de Europa contra los países del Medio Oriente.

diplomas do bem e do mal

 

por Federico Vazquez

 
Casi sin excepción los medios de todo el mundo esparcen la misma interpretación: el asesinato de doce personas en la redacción del semanario parisino Charlie Hebdo es un nuevo capítulo del choque civilizatorio entre Occidente y el Islam, entre la Democracia y la Barbarie.

Esta interpretación, aunque esquemática, permite que cada uno se acomode según su gusto ideológico: los hay quienes piden una devolución guerrera en términos de ojo por ojo, como quienes explican magnánimos que los grupos extremistas apenas representan una ínfima porción de la comunidad musulmana.

Ambas opiniones, sin embargo, comparten la misma matriz: se trataría de un conflicto donde la sociedad francesa, y por extensión la europea, fue víctima de un ataque externo, de un “otro” barbárico, incomprensible, ajeno.

¿Es correcto este enfoque? Volvamos sobre la escena del crimen. Según la información que brinda la misma policía francesa, quien comandó el ataque fue Chérif Kouachi, un joven de 32 años, nacido y criado en París. Un ciudadano francés matando a otros ciudadanos franceses. Este dato, más allá de cualquier otra interpretación, obliga a pensar a la matanza como parte de un problema al interior de la sociedad francesa. Por la sencilla razón de que quien perpetró la matanza nació, fue educado y se socializó al interior de esa sociedad.

Sigamos un poco más con la biografía del supuesto autor de la matanza: un video que circula por estas horas en la web, producido por el canal France 3 en el 2005, muestra a Chérif, que en ese entonces tenía 22 años, como un joven rapero de la periferia parisina. El contexto social de la época no es para nada aleatorio: ese mismo 2005 quedó surcado como el año de las grandes revueltas de jóvenes desclasados (ya sea por su origen social, étnico o religioso) quienes mostraban su inconformidad con el lugar que Francia reservaba para ellos. En el día más álgido de los disturbios 1.295 automóviles ardieron en el cinturón citadino de París. Probablemente, Chérif, que por entonces no tenía el extremismo islámico como brújula sino la música ni siquiera haya participado de esas protestas, aunque probablemente su entorno familiar y de amistades no estuvo ajeno a ellas. Como sea, la respuesta del Estado no fue tolerante ni democrática: en medio de la convulsión callejera el por entonces ministro de Interior, Nicolás Sarkozy, los catalogó públicamente “escoria”.

Según consignan los propios medios franceses, tres años después, en el 2008, Chérif inició sus contactos con células terroristas activas en Irak y Siria, que buscaban reclutar jóvenes del Primer Mundo para combatir en Medio Oriente.

Como reconoció el sociólogo francés Alain Tourine en una entrevista en radio Nacional Rock este jueves, más de mil jóvenes franceses pasaron a enrolar las filas yihadistas en los últimos tiempos. Una cifra de esta envergadura elimina cualquier argumento de “locos sueltos”, o casos de patología individual asesina: algo anda mal en la sociedad francesa, por la cual cientos y cientos de jóvenes nacidos y criados allí abandonan la tierra de la “libertad” y la “democracia” para adentrarse en las entrañas del monstruo pre moderno coránico. ¿Será que no todos pueden disfrutar de la misma libertad? ¿Será que no todos son iguales en la Francia actual de la austeridad económica y la xenofobia racial y religiosa?

Para mirarlo de la manera más microsociológica posible: algo no está bien entre los vecinos de París que resuelven sus diferencias religiosas y culturales mediante el uso de Kalishnikov. Porque, aunque parezca extraño, el exquisito caricaturista Stephane Charbonnier y el ex rapero convertido al fanatismo islámico Chérif Kouachi, vivían en la misma ciudad.

Claro, resulta más tranquilizador responder que se trata de una “contaminación” externa. Sin embargo, todo apunta al corazón de las sociedades europeas, por más que en estas horas sus líderes políticos insistan en arrojar el problema fuera de su cancha.

Las agencias internacionales de noticias consignan a los hermanos que comandaron el ataque a Charlie Hebdo como de nacionalidad “franco-argelino” aunque, como marcamos antes, se trata de dos ciudadanos francés, a secas, nacidos y criados en el país galo. Podría pensarse como una discriminación particular, entendible ante la conmoción de la matanza, pero no. En Francia, como en otros países europeos, tener la ciudadanía legal no implica tener la ciudadanía cultural, identitaria. En general, este último título es reservado para los franceses “puros”, aquellos que pueden ostentar largas genealogías en la tierra del vino y los quesos, excluyendo quirúrgicamente a quienes llegaron en las oleadas migratorias del siglo XX que, dicho sea de paso, están directamente vinculadas con el pasado colonialista de Francia

Que se trata de un conflicto nacional -aunque con obvias y notorias conexiones con dinámicas internacionales, entre ellas el llamado “terrorismo internacional”- lo demuestra la reacción de la propia clase política, inmediatamente después del crimen.
Marine Le Pen, líder del ultraderechista Frente Nacional, el mismo día del atentado, salió a pedir un referéndum para establecer la pena de muerte. En su país. Se podría decirse lo mismo que se dice de los fanáticos religiosos respecto del Islam: es una pequeña minoría que no representa el sentir del conjunto de los franceses. Ya no. Marine Le Pen ganó las elecciones europeas de mayo pasado, y hoy, según todas las encuestas, ganaría las elecciones generales para elegir gobierno.

El brutal asesinato a los periodistas de la revista satírica debería invitar a una sociedad democrática y con diversidad de opiniones a preguntarse cómo llegó hasta este punto. En vez de acentuar la “otredad” simplona descargando las culpas sobre una vaporosa “barbarie”, ensayar un curso acelerado de introspección sobre la propia “civilización”. Claro, no es sencillo: Francia tiene una larga tradición en realizar una operación político ideológica por la cual convierte en un conflicto “externo”, lo que en verdad está ardiendo sin solución dentro suyo. Cuidado: no se trata de decir que los franceses son igual de bárbaros que los musulmanes. Se trata de entender que existe un problema social, político, económico y, en último término, religioso al interior de las sociedades europeas, y no fuera de ellas, en algún “oscuro rincón del mundo”. El problema está en Europa.

Ese problema puede resumirse en el histórico problema “nacional”, por el cual sociedades como la francesa construyen una identidad excluyente, refractaria a incorporar de manera plena a nuevos contingentes poblacionales, manteniendo así una separación y segregación cultural y social impropia de un país que se ve a sí mismo como plural y democrático. La existencia de esa deriva nacional excluyente puede fácilmente corroborarse en el comportamiento electoral reciente de franceses, ingleses o alemanes, que en un contexto de crisis económica como el actual terminan volcándose por opción de extrema derecha, como el caso del Frente Nacional, o el UKIP en el caso de Gran Bretaña. E

Finalmente, también hay una “conexión” externa, si se comprueban los lazos con grupos terroristas de Medio Oriente de los jóvenes franceses que realizaron la masacre. Pero esa conexión con el terrorismo internacional no queda tampoco ajena a decisiones políticas tomadas por los gobiernos del Primer Mundo. Desde la primavera árabe de 2011, hubo una destrucción sistemática de los estados en el norte de África y la península arábiga. Libia, Irak y Siria son territorios caotizados, donde ISIS siembra el terror y realiza propaganda viral en Internet para que nuevos contingentes de jóvenes europeos se sumen a sus filas. En el caso de Libia, la participación francesa en el derrocamiento de Kadafi fue directa e inocultable. El gobierno de Kadafi no fue remplazado por una democracia ejemplar, sino por la destrucción del país, a partir del cual creció la influencia del islamismo extremista que, de modos brutales, impone un orden donde los europeos dejaron caos.

Lo que pasó en las oficinas de Charlie Hebdo no fue un ataque “externo”, sino un hecho brutal, asesino y extremista que, lamentablemente, también refleja a parte de la sociedad europea. Una sociedad donde, desde ya, también existen valores y fuerzas democráticas y libertarias. Ojalá, por el bien de Europa y del mundo, ganen los segundos.