José Dirceu, Alice no País das Maravilhas e Hiroshima


por Urariano Mota

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Os apelos da política imediata parecem alienar a gente da história do mundo. Nesta semana, completam-se 70 anos do genocídio das bombas sobre Hiroshima e Nagasáqui. No dia 6, o governo dos Estados Unidos lançou a bomba atômica sobre Hiroshima. No dia 9, ampliou o seu crime sobre o povo de Nagasáqui. E no entanto, crimes tamanhos contra a humanidade parecem desaparecer ante os apelos urgentes da política nacional, que exigem a reflexão imediata, porque um golpe de Estado está em marcha.

Esta semana, como um passo a mais que leve ao presídio e à desmoralização do líder Lula, se deu a nova prisão do ex-ministro José Dirceu. Ele, que já se encontrava aprisionado, talvez porque pudesse fugir da prisão domiciliar, foi novamente preso e transferido para a polícia federal da conspiração de Curitiba. Digo da conspiração porque delegados federais da Lava Jato já insultaram Lula e Dilma nas redes sociais. Mas o ministro da Justiça, no Olimpo, não tomou conhecimento.

Continuemos. Quando houve o julgamento de José Dirceu, naquela primeira farsa, a do Mensalão, escrevi que ele havia sofrido um julgamento de Alice. Ou seja, aquele julgamento que Lewis Carrol escrevera para Alice no País das Maravilhas. Por sinal, no mês passado se completaram 150 anos da publicação do livro. E quanto é atual no absurdo e arbitrariedade da cena do julgamento de Alice. Acompanhem e sintam a semelhança profunda que há ali e nas páginas de José Dirceu esta semana.

LLM459194 The Trial in Alice's Adventures in Wonderland by Tenniel, John (1820-1914) (after); Private Collection; (add.info.: The Trial in Alice's Adventures in Wonderland by Lewis Carroll (De Wolfe, c 1890).  Image slightly re-touched to remove tissue paper.); © Look and Learn; English,  out of copyright

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“- Não, não! – berrou a Rainha. – Primeiro a sentença, depois o veredicto”.

Se substituímos a Rainha pelo conjunto imprensa e tribunal do Brasil, perceberemos que aqui também a condenação estava antes sentenciada. Mas continuemos com Alice:

“Neste momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo em seu caderno de notas, gritou:

– Silêncio! – e leu: ‘Artigo Quarenta e Dois: Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem deixar o tribunal.’

Todo o mundo olhou para Alice.

– E não irei de jeito nenhum – disse Alice; – além do mais, este artigo não é legal: você acabou de inventá-lo.

O Rei empalideceu e fechou apressadamente seu caderno de notas. ‘Façam o seu veredicto’, disse ao júri, com voz baixa e trêmula….

– Com licença de Vossa Majestade, ainda há provas a examinar – disse o Coelho Branco dando um salto: – este documento acaba de ser encontrado.

– Do que se trata? – indagou a Rainha.

– Ainda não abri – respondeu o Coelho Branco. – Mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para alguém.

– Só pode ser isso – disse o Rei, -a menos que tenha sido escrita para ninguém, o que não é muito usual.

– A quem é endereçada? – perguntou um dos ministros.

– Não é propriamente endereçada…- disse o Coelho Branco, – na verdade, não há nada escrito do lado de fora. Enquanto falava, desdobrou o papel, acrescentando: – Nem é uma carta, afinal de contas: são versos.

– Estão escritos com a caligrafia do prisioneiro? – perguntou outro.

– Não, não estão – respondeu o Coelho Branco – e isso é o mais estranho de tudo. (Todos pareciam perplexos.)

– Ele deve ter imitado a caligrafia de outra pessoa – disse o Rei. (Todos animaram-se outra vez.)

– Com licença de Vossa Majestade – disse o réu, – eu não escrevi isso, e ninguém poderá provar o contrário: não há nenhum nome assinado embaixo.

– Se você não assinou – disse o Rei – isso só piora a situação. Você certamente deve ter feito algo de errado, ou então teria assinado seu nome como qualquer pessoa honesta…

– Isso prova a sua culpa, é claro – disse a Rainha: – Logo, cortem a sua cabeça!”

Precisa dizer mais? O simulacro desse julgamento, da sentença que vem antes das provas, é repetido aqui mais uma vez na Lava Jato. Aqui, também, os critérios de condenação mudam conforme o objeto e objetivo do momento. Antes se denunciava um cartel de empresas na Petrobras que inflacionava preços para repassar uma parte ao Partido dos Trabalhadores. Agora, se estende ao governo Lula, que sob o comando do representante de Deus, mais conhecido pelo nome de José Dirceu, comprava apoio de deputados e senadores. O alvo é Lula, evidentemente. José Dirceu é a ponte que leva à maior liderança popular do Brasil.

Como da vida de José Dirceu não sairá uma delação, há de se procurar um delator com suficiente leviandade e cinismo para afirmar “Lula foi subornado por mim!”. E esta será a prova para a sentença prévia: cortem a cabeça do ex-presidente.

Enquanto o congresso sob a cabeça de Eduardo Cunha se articula para o impeachment da presidenta Dilma, e se fecha o cerco para a desmoralização da esquerda no Brasil, o mundo inteiro lembra os 70 anos das bombas sobre os japoneses, jogadas pelo império dos Estados Unidos. Mas se olharmos bem, existe um fio comum que une as bombas de Hiroshima e Nagasáqui às últimas prisões da Lava Jato. O vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, autoridade em energia nuclear, que contrariava os interesses-norte-americanos, está preso. E agora, antes de Lula, os fascistas avançam sobre José Dirceu.

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No belo poema A Rosa de Hiroshima, Vinícius de Moraes escreveu:

“Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa, sem nada”

Para os desdobramentos do que se convencionou chamar Lava Jato, talvez possamos dizer: pensem nas crianças, nas meninas, nas mulheres, nas feridas que se abrem com a ação da direita a mando do império dos Estados Unidos. Eles fazem enfim a mesma rosa radioativa, estúpida e inválida, a rosa com cirrose que destrói as conquistas do último governo popular depois de João Goulart. A antirrosa que é lava, mas de vulcão sobre a Petrobras e o Brasil. GGN/ Também na Rádio Vermelho

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