O país das mulheres


O serviço heróico durante a trágica guerra da Tríplice aliança modelo ainda atual para as novas gerações 

residentas

por Beatriz Gonzáles de Bosio
Universidade católica «Nuestra Señora de la Asunción», Paraguai


«Mesmo quando já o jovem e o ancião/ o filho e o irmão e o esposo,/ morreram para sempre… e na planície/ reinou dos sepulcros o repouso,/ ela empreendeu o regresso, com o peito/ da nostalgia pátria oprimida,/ e em vão perscrutava na sua casa destruída/ o antigo lugar do ser amado». Assim, na poesia La Mujer Paraguaiana, Ignacio A. Pane (1880-1920) celebrava a mulher paraguaia.

A guerra guazu – «Guerra grande» em guarani, ou guerra da Tríplice aliança – continua a ser para a população paraguaia o episódio mais traumático da história nacional, a fase histórica mais dramática da América Latina desde as suas origens até aos nossos dias. Por isso foi chamada também «a guerra da tríplice infâmia» (Juan Bautista Alberdi) o «genocídio americano».

Foi um evento que marcou um antes e um depois. Um antes, o Paraguai como autêntica potência nos seus eixos centrais, ou seja, poder econômico e tecnológico, respeito regional e presença soberana. Um depois, marcado ao contrário pela desolação, ruína, dependência, submissão, embora num Estado de democracia e de liberdade, mesmo se imperfeitas.

Era o ano de 1865 quando o presidente do Paraguai, o marechal Francisco López, foi envolvido num confronto militar de enormes proporções. O momento do início das hostilidades não foi o mais favorável para o país, pois o armamento moderno, encomendado na Europa, ainda não tinha chegado. E nunca mais teria chegado: agora, certamente não iria superar o bloco que estava à sua espera nos canais de acesso. Deste modo, os imponentes meios militares, ainda em construção na Europa, foram comprados pelo Brasil, que os usou contra o Paraguai durante o conflito.

Solano López não dispunha nem sequer de um corpo de oficiais bem treinados e com experiência de guerra: de fato, o Paraguai tinha deixado de participar nos conflitos armados a partir da batalha de Tacuary em Março de 1811, antes da independência da Espanha.

O tratado secreto da Tríplice aliança, assinado a 1 de Maio de 1865 pelo Brasil, Argentina e Uruguai, contra o Paraguai, deixou de ser secreto ainda antes do primeiro aniversário da sua assinatura: com efeito, foi publicado por extenso nas páginas de um jornal londrino.

A partir daquele momento a causa paraguaia circundou-se de uma mística defensiva e de um heroísmo inabalável. Os vizinhos gigantescos do Paraguai, desejosos de se apoderarem de novas regiões invadiram e mutilaram o território nacional.

A memória colectiva da guerra da Tríplice aliança dá ênfase especial na história oficial às mulheres paraguaias que doaram as suas joias para a causa da pátria. Mas as mulheres paraguaias, na realidade, fizeram muito mais: desempenharam um papel central cultivando a terra, assistindo os feridos, enterrando os mortos e acompanhando as tropas, como residentas ou destinadas. Não há dúvida de que as mulheres foram – e ainda são – o pilar da sociedade paraguaia.

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O presidente López e o que restava do seu exército foram seguidos de perto pelas residentas, mulheres que – obrigadas a abandonar a capital do país, Asunción, perante a ocupação e pilhagem dos invasores no início de 1869 – não tiveram outra escolha a não ser acompanhar de perto os sobreviventes e compartilhar com eles as privações, a fome e os sacrifícios indizíveis.

Foi este, por exemplo, o caso de Ramona Martínez, uma adolescente que, empunhando a espada, naquele fatídico 1869, salvou a vida a Solano López na localidade de Lomas Valentinas, permitindo que escapasse. E de Juliana Insfran de Martínez, Pancha Garmendia, María Meque, e de muitas outras mulheres corajosas.

A paz voltou e às mulheres paraguaias coube ser as reconstrutoras da pátria, ou seja, o eixo central para o repovoamento, assumindo a responsabilidade por muito tempo da atividade produtiva destinada a obter os alimentos básicos. Tudo foi realizado de forma anônima, mas muito significativa.

Portanto, devem ser recordadas as figuras do pós-guerra como Asunción Escalada, Rosa Peña de González, Adela e Celsa Speratti: mulheres dedicadas à instrução que, superando mil obstáculos para educar várias gerações, foram paradigmas de dedicação e de coragem. Com efeito, graças a elas, as meninas e as jovens paraguaias receberam a mesma educação primária e secundária dos meninos. Uma igualdade que na época não era minimamente difundida.

Ao refletir sobre o nosso porvir histórico como nação, surpreende-nos o papel que as mulheres paraguaias desempenharam na história do país: um papel que foi portanto preponderante desde o início. Não é por acaso que o Paraguai é definido, entre as várias formas, «o país das mulheres», como consta no título da obra-prima sobre a história social paraguaia escrita pela historiadora Barbara Potthast em 1996.

Mesmo na outra guerra, a do Chaco, combatida contra a Bolívia entre 1932 e 1935, as mulheres encarregaram-se da agricultura e nunca como então houve tanta produção alimentar. No entanto, apesar destes sucessos, deste heroísmo, desta história, as mulheres paraguaias ainda hoje lutam contra a pobreza e a exclusão.

A equação demostra-nos que mulher e falta de educação dão como resultado a pobreza. Por conseguinte, qualquer iniciativa do Estado que queira ser fecunda deverá necessariamente ter como objetivo o campo educativo, a fim de superar o ciclo da pobreza e da exclusão numa sociedade assimétrica e polarizada. Um ciclo que se tornou uma ferida aberta.

Ao recordar as mulheres heróicas de ontem, façamos com que as mulheres de hoje obtenham aquele reconhecimento que lhes foi dado pelo Papa Francisco: a visita ao nossa amado Paraguai faz vibrar o nosso povo de profunda emoção, alegria e esperança. L’Osservatore Romano

“La paraguaya”, de Blanes, muestra la desolación de las mujeres en la guerra “La paraguaya”, de Blanes, mostra a desolação das mulheres na guerra

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