Papa insta pobres a luta por teto, trabalho e terra: “Não se intimidem”


Na Bolívia, Francisco pede perdão pelos “crimes” na conquista da América

Mulher espera a passagem do Papa em Santa Cruz. / MARTIN ALIPAZ (EFE)

Mulher espera a passagem do Papa em Santa Cruz. / MARTIN ALIPAZ (EFE)

por Pablo Ordaz

As palavras do Papa Francisco não podiam ter sido mais categóricas: “Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América”. Durante um encontro com movimentos populares de todo o mundo em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), Jorge Mario Bergoglio pediu “terra, teto e trabalho” para todos: “São direitos sagrados. É preciso lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja ouvido na América Latina e em toda a Terra”.

Durante quase uma hora, o Papa ouviu com atenção os depoimentos dos grupos de excluídos (indígenas, catadores de papel, trabalhadores precários do mundo rural e das periferias das cidades) de todo o mundo. Bem como um inflamado discurso do presidente da Bolívia, Evo Morales, contra os colonialismos passados – “em 1492 sofremos uma invasão europeia e espanhola” – e os contemporâneos. Mas, em um fórum dedicado a clamar contra as injustiças, quem se mostrou mais beligerante foi o Papa de Roma: “Quando o capital se converte em ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, coloca povo contra povo e, como vemos, até põe em risco esta nossa casa comum”.

“Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da Igreja, mas também pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América”

“Esse sistema já não se sustenta”, disse Bergoglio em um discurso de seis páginas que transitou por passagens já conhecidas – a globalização da indiferença, a condenação do cultura do descarte… – , mas explorou outros que chamaram à rebelião dos mais humildes: “Necessitamos de uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança redentora. Necessitamos de uma mudança real. Esse sistema já não se sustenta. E os mais humildes, os explorados, podem fazer muito. O futuro da humanidade está em suas mãos”.

Em uma passagem que pôs a emoção à flor da pele, Bergoglio quis fazer dos mais humildes os protagonistas da salvação do mundo: “O que posso fazer eu, catador, lixeiro, reciclador, frente a tantos problemas se mal ganho o suficiente para comer? O que posso fazer eu artesão, vendedor ambulante, caminhoneiro, trabalhador excluído se nem sequer tenho direitos trabalhistas? O que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que mal posso resistir o avassalamento das grandes corporações? O que posso fazer eu desde minha vila, meu barraco, meu povoado, meu assentamento quando sou diariamente discriminado e marginalizado? O que pode fazer o estudante, o jovem, o militante, o missionário que percorre as favelas e periferias com o coração cheio de sonhos, mas quase nenhuma solução para meus problemas?”

Continuando, o Papa, entre aplausos, respondeu sua própria pergunta: “Muito! Podem fazer muito. Vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podem e fazem muito. Ouso dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos, em sua capacidade de organizar-se e promover alternativas criativas, na busca cotidiana dos três T (trabalho, teto, terra). Não se intimidem!”

“Ouso dizer que o futuro da humanidade está em suas mãos, em sua capacidade de organizar-se e promover alternativas criativas. Não se intimidem!”

O Papa clamou contra “a imposição de medidas de austeridade que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres” e contra “o colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matéria prima e mão de obra barata, engendra violência, miséria, migrações forçadas”. Foi quase no final que Francisco, que em seu discurso tinha convertido os mais pobres em “poetas sociais”, admitiu: “Alguém poderá dizer, com direito, que quando o papa fala em colonialismo se esquece de certas ações da Igreja”.

E acrescentou: “Assim como são João Paulo II peço que a Igreja se prostre ante Deus e implore perdão pelos pecados passados e presentes de seus filhos. E quero lhes dizer, quero ser muito claro, como foi são João Paulo II: peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América”.

Não é a primeira vez que um papa pede perdão aos indígenas, mas a contundência é inédita. Em 13 de outubro de 1992, João Paulo II pediu em Santo Domingo que os indígenas perdoassem as injustiças cometidas contra seus antepassados e, dias depois em Roma, insistiu em seu ato de expiação por tudo o que esteve marcado pelo pecado, a injustiça e a violência durante a evangelização da América. Quinze anos depois, em 23 de maio de 2007, Bento XVI afirmou que “a lembrança de um passado glorioso” não pode ignorar “as sombras” que acompanharam a evangelização da América Latina. “Não é possível esquecer o sofrimento e as injustiças infligidos pelos colonizadores às populações indígenas, cujos direitos humanos fundamentais eram com frequência pisoteados”, disse Joseph Ratzinger.

A diferença no fundo e nas formas é evidente, embora Francisco, como antes João Paulo II e Bento XVI, também tenha acrescentado que “para sermos justos” devemos reconhecer os sacerdotes que “se opuseram à lógica da espada com a lógica da cruz”. Para finalizar um de seus discursos mais longos, mas também mais belos e combativos, Bergoglio exclamou: “Digamos juntos desde o coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma velhice venerável. Continuem com sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra”.

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