PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES


As melhores músicas contra a ditadura brasileira

 

Quem sabe

por Matheus Mans

 

Numa época em que a liberdade de expressão é cerceada, nada mais criativo que expressar desejos e anseios através da música. A Ditadura Militar que o Brasil viveu, entre os anos de 1964 e 1985, fez com que músicas se tornassem hinos e verdadeiros gritos de liberdade aos cidadãos oprimidos e sem possibilidade de se expressar como desejavam. Através de letras complexas e cheias de metáforas, elas traduziam tudo o que sentiam.

Além disso, os festivais de MPB, promovidos pela TV Excelsior e, posteriormente, pela TV Tupi, auxiliaram na divulgação das canções tornando-as ainda mais populares. Essa lista pretende mostrar as músicas que criticavam o governo militar, contando um pouco da história de cada uma delas e seus significados ocultos, que passaram, muitas vezes, batidos pela censura.

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[Conheça  os hinos, os gritos de Liberdade, principalmente nestes obscuros tempos que vivemos, quando estranhos poderes pedem a volta do golpe de 64, o retorno dos 21 anos de ditadura, o fim da Democracia.

Divulgue as músicas contra a cruel e corrupta ditadura militar brasileira.

O povo precisa conhecer a verdade, o terror da escuridão dos porões da tortura, os macabros vôos da morte de presos políticos, as chacinas de líderes estudantis, operários e camponeses, a profanação dos cemitérios clandestinos.

Precisamos acordar o povo, mostrar a verdade, erradicar o analfabetismo político.

Matheus Mans selecionou 15 músicas. Eis a primeira]

 

Geraldo Vandré

 

Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré

Nada mais lógico e natural que começar a lista com o hino do movimento de resistência. Pra Não Dizer que não Falei das Flores, composta em 1968, pelo paraibano Geraldo Vandré, fez com que os militares censurassem a canção por fazer clara referência contrária ao governo ditatorial. O refrão “Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer” foi considerado um verdadeiro chamado às ruas contra os ditadores.

Além do refrão, a estrofe “Há soldados armados/ Amados ou não/ Quase todos perdidos/ De armas na mão/ Nos quartéis lhes ensinam/ Uma antiga lição/ De morrer pela pátria/ E viver sem razão” é uma das mais explícitas das produções musicais no momento. Não faz rodeios. Vai direto à crítica aos militares.

O sucesso da canção é atribuído aos mais diversos fatores: a rima de fácil assimilação e que “gruda”; a melodia em forma de hino, o que acaba por se tornar mais uma provocação ao regime; além de retratar os desejos e anseios da geração da época. Ao lado, uma gravação histórica de Vandré cantando a canção no Maracanãzinho, em 1968, que inclui uma severa crítica aos militares no início e uma série de vaias provindas da arquibancada. [Continua. Clique veja vídeo]

 

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[Vandré, depois das prisões no Brasil, nunca mais foi a mesma pessoa, que a tortura nunca termina. Perseguido pelas ditaduras do Cone Sul, também foi prisioneiro no Chile, terminou vagando pela África e Europa.

Transformaram Vandré em cobaia das novas armas de torturas física e psicológica. Inclusive pelo uso de drogas. 

Com a anistia, Vandré voltou ao Brasil, e viveu em total isolamento, inclusive em sanatórios psiquiátricos. Como um “louco manso”, patético, um palhaço, que se fantasiava de militar, parecendo um marinheiro de fandango.

Foi acusado de espionar exilados, até o triste reconhecimento de que era apenas uma vítima da ditadura.

As rodas das máquinas de tortura transformaram Vandré em um bagaço.

Conheci Vandré, no tempo que trabalhou na Tv Jornal do Comércio do Recife, em rodas de conversas na rua do Lima, com Capiba, Nelson Ferreira e Sivuca.

Uma noite, em um bar (na época chamado de “buraco frio” dos deputados, por ficar no térreo de um prédio ao lado da Assembléia Legislativa), apareceu Vandré com seu primeiro disco, que estava vendendo para fazer dinheiro e viajar para o Rio de Janeiro. “Um dia você vai ouvir falar de mim”, disse como despedida, quase gritando, da porta do bar.

Eu estava sentado em uma das cadeiras do balcão, com Dias da Silva, que tinha um programa, talvez o primeiro da história  da psicologia, na televisão.

Era dois anos mais novo do que Vandré jovem, extrovertido, conversador, alegre, sonhador e inteligente.

Dias, já formado, assinava uma coluna no Diário da Noite, onde eu era editor.

Foi a última vez que vi os dois. T.A.]

 

Vandré

Vandré

 

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