Lá nas Arábias o preço de um deputado


Abdallah

Abdallah

 

“Quanto vale um juiz? Não falo do mercado sujo em que um magistrado, como qualquer homem público, pode ser comprado, como acontece em um ou dois países ao sul do Sahara ou a leste da Turcomênia”.

A pergunta é de Luiz Garcia, o jornalista da Globo que fala de longínquas terras. E espera o povo bobo passe “a aceitar como absurdo o conceito da isonomia remuneratória entre todos os altos servidores públicos — uns escolhidos por eleição, outros por nomeação, estes cumprindo carreira, aqueles exercendo mandatos — com cargas de trabalho, responsabilidades, e horas de expediente que nada dizem umas às outras”.

Luiz Garcia faz recordar a grande greve do judiciário paulista, as passeatas dos togados em Brasília contra qualquer corte nos ganhos, que ficaram confirmados, pois a manutenção dos salários especiais interessava à Câmara e ao Senado, por conta da futura equiparação. Idem as pensões, também especiais.

De Garcia o sofisma de afirmar que os servidores públicos combatem a isonomia. “Mas, pelamordedeus, o que deve ter a ver o ganho do deputado federal com o do ministro do Supremo? Não há relação hierárquica. Zero semelhança em carga de trabalho. Nada a comparar em termos de preparo para o serviço. Nem em permanência na função. Muito menos nas formas de chegar a ela”.

As formas de chegança foram negociadas sim, com a Câmara dos Deputados, com o aval do então presidente João Paulo.

Dizer que um juiz trabalha mais que um deputado ou vice-versa, causa espanto quando se reclama da morosidade da justiça.

Titular que um juiz tem mais saber(doria) que um parlamentar constitui outra falácia da elite bacharelesca que chama advogado de doutor.

Quando o Garcia, corajosamente, destaca que um magistrado “pode ser comprado” nas areias escaldantes do deserto, esqueceu que a cadeia especial do Brasil difere, e muito, dos presídios de outros países, inclusive na terra que Lalau comprou apartamento de luxo.

Comento o artigo de Garcia, porque o coleguinha termina citando o inferno, a moradia dos jornalistas que não frequentam a corte.

“É o que às vezes se precisa dizer quando os bárbaros chegam às muralhas e falta verba para os caldeirões de azeite fervendo”; o ser profeta a trombetear a crise na desigualdade das três Arábias: a Feliz, a Pétrea e a Deserta.

Garcia, no alerta apocalíptico, não revelou o salário de um desembargador, por exemplo.

Um dia gostaria de ler, nas páginas da Grande Imprensa, a pergunta:

– Quanto vale um jornalista?

Em Aqui e Agora,
28/02/2005 

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