Alexis Tsipras: “Nenhum grego sem ajuda, sem comida, sem eletricidade”


Interrupção das privatizações de interesses nacionais estratégicos

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por María Antonia Sánchez-Vallejo

 

Em discurso para sua equipe de Governo, transmitido ao vivo pela TV da sala do Parlamento, onde se reuniu pela primeira vez o Conselho de Ministros, o novo chefe do Executivo grego, Alexis Tsipras, lembrou quais serão as prioridades do “Governo de salvação nacional” que lidera, como o denominou em duas ocasiões: enfrentar a crise humanitária pela qual passa o país depois de cinco anos de políticas de austeridade e cortes; a recuperação econômica e a criação de empregos; a reestruturação da dívida “que beneficie todos”; o império da transparência –uma das palavras que mais repetiu—; a luta contra a corrupção; a evasão fiscal e o clientelismo.

“Nenhum grego sem ajuda, sem comida, sem eletricidade”, afirmou Tsipras. “Temos nosso próprio programa de reformas com o objetivo de não criar novo déficit, mas também sem os imperativos asfixiantes” impostos pela troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) desde 2010, quando foi aprovado o primeiro resgate. “Aqui não há vencedores nem vencidos, somos o Governo de todos os gregos, e trabalharemos como tal”, afirmou.

“A atitude da Europa em relação à Grécia mudou depois do resultado das eleições de 25 de janeiros, e estamos dispostos a falar com todos na Europa”, disse, ressaltando que nesta semana visitará Atenas Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, e, na sexta-feira, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem.

“Precisamos realizar reformas necessárias, que não foram feitas nos últimos 40 anos, para acabar com uma forma de Estado que funcionava contra os interesses da sociedade”, disse Tsipras em seu discurso, referindo-se à corrupção e ao clientelismo. Foi uma fala geral, em que desfiou as ideias centrais de sua campanha –repetidas também na comemoração da vitória, no domingo à noite em Atenas– e em que não anunciou nenhuma medida concreta. Isso ficará a cargo deste primeiro Conselho de Ministros, que passou a deliberar em sigilo depois da introdução televisionada de Tsipras.

Entre outras iniciativas, o Executivo aprovará a alta do salário mínimo a 751 euros (cerca de 2.300 reais), o valor anterior à crise; e a interrupção das privatizações de interesses nacionais estratégicos (parte do porto de Pireu, a empresa pública de eletricidade). Além disso, o vice-ministro da Saúde anunciou “o restabelecimento do acesso universal ao sistema público de saúde e a eliminação do copagamento”.

O novo Governo grego estreia com três superministérios econômicos

O novo Executivo grego — que por motivos de austeridade, e como já havia anunciado o primeiro-ministro Alexis Tsipras durante a campanha eleitoral, fica reduzido a uma dezena dos vinte ministérios existentes em gabinetes anteriores — tomou posse na tarde de terça-feira, por volta das 17h15 (13h15 em Brasília), perante o presidente do país e o próprio Tsipras. À frente dos ministérios não figura nenhuma mulher, embora haja seis vice-ministras e secretárias de Estado. Os titulares dos ministérios, que agora reúnem várias áreas que antes eram autônomas, são, grosso modo, os nomes divulgados ontem pelos meios de comunicação gregos, com especial destaque para a equipe econômica de Tsipras e para o Ministério de Defesa, entregue a Panos Kamenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL, direita nacionalista), partido que apoiará a maioria parlamentar do Syriza e o trabalho de governo de Tsipras.

Pela primeira vez na história do país, houve duas cerimônias, primeiro uma religiosa e, na sequência, outra civil. Entre os nove membros do novo Governo que optaram por jurar sobre sobre o Evangelho estava, como se previa, o líder de ANEL, o direitista Panos Kamenos, ministro de Defesa, mas também um homem muito próximo de Tsipras, Panayotis Kurublís (titular da Saúde), que chegou ao Syriza ao deixar o Pasok, em 2011. Imediatamente depois, o resto do Gabinete fez seu juramento, a maior parte dos homens sem gravata, no estilo Tsipras.

Os homens fortes do novo Executivo são membros do círculo mais íntimo de Tsipras, entre eles o vice-presidente Yannis Dragasakis, o único dirigente do Syriza com experiência prévia de governo e que a partir de agora fiscalizará a política econômica do Executivo e, com muita probabilidade, as relações com a troika, e Nikos Pappas — a sombra de Tsipras —, novo ministro de Estado e coordenador de todas as ações de Governo. Yanis Varoufakis, que entre 2004 e 2006 foi assessor do Governo do socialdemocrata George Papandreou, foi confirmado como ministro da Economia, enquanto outro proeminente economista, Yorgos Stazakis, assumirá a pasta do Desenvolvimento. Trata-se, portanto, de uma super equipe econômica encarregada de implementar o chamado Programa de Salônica, no qual 80% das medidas são de caráter econômico.

A ausência de mulheres no Gabinete foi alvo de críticas nas redes sociais, mas não suscitou na Grécia o mesmo ruído que no exterior nem é de todo estranha levando-se em conta a exígua presença feminina no novo Parlamento: só há 68 deputadas (de 300 cadeiras), menos que nas legislaturas de 2009 e 2012. A maioria, 44, pertence à bancada do Syriza. O novo Governo propôs uma mulher, Zoí Konstantopoulou, como presidenta do Parlamento.

No difícil equilíbrio de poder com seu contraditório parceiro de Governo, a direita nacionalista da ANEL, Tsipras deu a Kamenos outros quatro postos de menor categoria; um deles com significado especial: o de vice-primeiro-ministro (Terrence Quick), e teórico contrapeso ao próprio Tsipras. Em troca, Kamenos terá como número dois — e vigilante — na Defesa um veterano do Syriza.

O líder do ANEL voltou a lembrar nesta terça-feira que uma de suas linhas-mestras, a da imigração, “será respeitada”. Sua postura no caso difere radicalmente da do Syriza, assim como em questões como o reconhecimento da antiga república iugoslava de Macedônia. A separação de poderes Igreja-Estado também ficou estacionada em benefício da política econômica, onde a sintonia dos sócios é quase unânime.

O novo Gabinete, que se reunirá pela primeira vez nesta quarta-feira, adotará uma série de medidas urgentes, a primeira das quais será elevar o salário mínimo para 751 euros (cerca de 2196 reais) — valor anterior à crise, que depois de sucessivas reduções ficou nos 580 euros atuais —, restabelecer a negociação coletiva e os convênios sindicais. O segundo pacote consistirá em medidas para facilitar o pagamento de impostos atrasados — com um teto de 20 a 30% sobre a renda anual — e de contribuições à previdência social.

Nos próximos dias, o Gabinete adotará a legislação necessária para fornecer corrente elétrica grátis aos 300.000 domicílios que se encontram abaixo do limite de pobreza. Também reabrirá a antiga televisão pública ERT, fechada pelo Governo anterior em 2013, com a estrutura e o quadro de empregados anterior.

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