Papa Francisco: A corrupção corrói as bases morais de uma comunidade, tirando recursos fundamentais aos pobres


A mensagem dos pobres esteve no centro da viagem papal ao Sri Lanka e às Filipinas. O Papa Francisco recordou-o no longo diálogo como os jornalistas durante o voo de Manila para Roma – onde chegou pouco depois das 17h30 de segunda-feira 19 de Janeiro – denunciando mais uma vez as trágicas consequências da «cultura do descarte» e convidando os cristãos a tornar-se por sua vez «mendigos» em relação a quem nada tem, porque «os pobres nos evangelizam». Numerosos os outros temas enfrentados pelo Pontífice, que voltou a admoestar contra a «colonização ideológica» que ameaça a cultura dos povos e realçou a importância da «paternidade responsável» já valorizada por Paulo VI. Do Papa Francisco chegou também um reiterado convite a usar a liberdade de expressão com prudência e uma nova advertência contra a corrupção. Que corrói as bases morais de uma comunidade, tirando recursos fundamentais aos pobres

 

Sri Lanka

Entrevista coletiva durante o voo de regresso das Filipinas

(Papa Francisco)

Antes de mais nada, quero saudar-vos. Bom dia, obrigado pelo vosso trabalho. A visita foi trabalhosa e, como se diz em espanhol, pasada por agua. Foi bom, e muito obrigado pelo fizestes.

(Kara David, grupo filipino)

Bom dia, Santo Padre. Desculpe, vou falar em inglês. Muito obrigado por ter visitado o nosso país e por dar tanta esperança aos filipinos. Gostaríamos que voltasse ao nosso país. A minha pergunta: Os filipinos aprenderam muito, ouvindo a sua mensagem. Há alguma coisa que o Santo Padre tenha aprendido dos filipinos, do seu encontro connosco?

(Papa Francisco)

Os gestos! Os gestos comoveram-me. Não são gestos protocolares… São gestos bons, gestos sentidos, gestos que vêm do coração. Alguns quase fazem chorar. Neles está tudo: a fé, o amor, a família, a esperança, o futuro… Aquele gesto dos pais, quando levantavam as crianças para que o Papa as abençoasse. O gesto dum pai… Havia tantos que levantavam as crianças, quando eu passava pela estrada. Um gesto que não se vê noutros lugares. Era como se dissessem: este é o meu tesouro, este é o meu futuro, este é o meu amor; por ele vale a pena trabalhar, por ele vale a pena sofrer. É um gesto original, mas nascido do coração.

O segundo gesto que me impressionou muito foi um entusiasmo sincero, o júbilo, a alegria; eram capazes de fazer festa mesmo sob a chuva. Dizia-me um dos cerimoniários que ficou edificado porque os acólitos em Tacloban, com toda aquela chuva, nunca perderam o sorriso. É a alegria, a alegria sincera. Não era um sorriso maquilhado, não; era um sorriso que vinha de dentro. E, por detrás daquele sorriso, há a vida normal, existem as tribulações, existem os problemas… Outro gesto: as mães que traziam os filhos doentes; e o modo como as mães os traziam. As mães não levantavam tanto os filhos… até aqui [até ao braço]. Sim, viam-se tantas crianças deficientes, com deficiência que fazia um pouco de impressão; mas não escondiam a criança, levavam-na ao Papa para que a abençoasse. Este é o meu filho: é assim, mas é meu. Todas as mães sabem isto e fazem-no; mas a maneira de o fazer é que me impressionou.

O gesto da paternidade, da maternidade, do entusiasmo, da alegria. E há uma palavra que é de difícil compreensão para nós porque foi demasiado vulgarizada, usada demasiado mal ou mal compreendida, mas é uma palavra que tem substância: a resignação. Um povo que sabe sofrer e que é capaz de se levantar e ir para diante. Ontem, no colóquio que tive com o pai de Krystel – a jovem voluntária que morreu em Tacloban – fiquei edificado [com aquilo que me disse]: «Morreu em serviço», e procurava palavras para se confortar, para aceitar aquilo. Um povo que sabe sofrer. Foi isto o que eu vi, segundo a minha interpretação dos gestos.

(Jean-Louis de la Vaissière, da France Presse, pelo grupo francês)

Santidade, já foi duas vezes à Ásia. Os católicos na África ainda não receberam a sua visita. O Santo Padre sabe que, desde a República Centro-Africana à Nigéria e ao Uganda, há muitos fiéis atribulados pela pobreza, a guerra, o fundamentalismo islâmico que esperam a sua visita este ano. Assim queria-lhe perguntar: Quando e aonde pensa ir?

(Papa Francisco)

A minha resposta é hipotética. O plano é ir à República Centro-Africana e ao Uganda; os dois, neste ano. Creio que será lá para o fim, por causa do tempo. Devem prever o estado do tempo, que não haja chuvas, que não haja mau tempo. Está um pouco atrasada esta viagem, porque houve o problema do ébola. É uma grave responsabilidade promover grandes encontros, por causa do contágio. Mas, nestes países, isso não é problema. Como hipótese, neste ano, serão os dois citados.

(Salvatore Izzo, da AGI – Agência Italiana de Informação, pelo grupo italiano)

Santo Padre, em Manila estávamos num albergue muito bom, eram todos muito gentis e comia-se muito bem. Mas, logo que se deixava o hotel, éramos – digamos assim – moralmente agredidos pela pobreza. Víamos crianças que vagavam no meio dos desperdícios; tratados, diria talvez Vossa Santidade, como desperdícios. Sabe?! Tenho um filho de seis anos e senti vergonha ao ver estes que estão tão mal. Mas o meu filho, que se chama Rocco, compreendeu muito bem aquilo que Vossa Santidade nos ensina quando diz para partilhar com os pobres. E assim, a caminho da escola, procura distribuir o lanche pelos mendigos da área. Para mim, porém, é muito mais difícil. E também para outras pessoas adultas é difícil. Um único Cardeal, há 40 anos, deixou tudo para ir estar com os leprosos (Léger). Bem, a minha pergunta é esta: Porque é tão difícil seguir aquele exemplo, mesmo para os Cardeais? Entretanto há outra coisa que lhe queria perguntar, mas diz respeito ao Sri Lanka. Lá vimos todas aquelas favelas, quando íamos para o aeroporto. São barracas apoiadas nas árvores; vivem praticamente debaixo das árvores. A maioria são tâmis, claramente discriminados. O Santo Padre, no dia a seguir ao massacre de Paris, talvez como primeira impressão, disse: «Há um terrorismo isolado e um terrorismo de Estado». Que queria dizer com a expressão «terrorismo de Estado»? Ocorreu-me aquela expressão ao ver o sofrimento e a discriminação daquelas pessoas.

(Papa Francisco)

Quando uma de vós me perguntava qual era a mensagem que levava para as Filipinas, eu disse: os pobres. É a mensagem que dá a Igreja hoje. Aquilo que o senhor diz do Sri Lanka, dos tâmis, da discriminação… Os pobres, as vítimas desta cultura do descarte. Isso é verdade. Hoje não se descarta apenas o papel, o que sobra. Descartam-se as pessoas. E a discriminação é um tipo de descarte. Descartam-se estas pessoas. Vem-me ao pensamento a imagem das castas… Isto não pode continuar. E o descarte hoje parece quase normal. O senhor falava do hotel de luxo ao lado das barracas. Na minha diocese de Buenos Aires, havia toda uma área nova, chamada Puerto Madero, até à estação ferroviária, e depois começa a «Villa Miseria», os pobres, uns atrás dos outros. Da parte de cá, existem 36 restaurantes de luxo, que, se lá fores comer, levam-te couro e cabelo; da parte de lá, temos a fome. Uma coisa pegada à outra; e nós temos tendência para nos habituar a isto. Sim, aqui estamos nós, e lá estão os descartados. Esta é a pobreza, e creio que a Igreja deve dar sempre maior exemplo nisto, deve rejeitar todo o mundanismo. Para nós, consagrados, bispos, padres, religiosas, leigos que acreditam verdadeiramente, o pecado mais grave, a ameaça mais grave é o mundanismo. É tão feio quando se vê um consagrado, um homem da Igreja, uma religiosa, mundanos. É feio. Este não é o caminho de Jesus. É o caminho duma ONG que se chama Igreja. Mas esta ONG não é a Igreja de Jesus. Porque a Igreja não é uma ONG, é outra coisa. Mas, quando uma parte da Igreja – estas pessoas – se torna mundana, transforma-se numa ONG e deixa de ser a Igreja. A Igreja é Cristo morto e ressuscitado para nossa salvação, é o testemunho dos cristãos que seguem a Cristo. Aquele escândalo de que falou é verdade: sim, muitas vezes nós escandalizamos os cristãos; escandalizamos quer sejamos padres quer leigos, porque é difícil o caminho de Jesus. É verdade; a Igreja deve despojar-se.

O senhor fez-me voltar com o pensamento àquela expressão terrorismo do Estado: que este descarte seja uma espécie de terrorismo. Verdadeiramente, eu nunca o tinha pensado; mas, deixa-me pensar. Não sei, de verdade, que lhe dizer; uma coisa é certa, não se trata de carícias; é como dizer: Não, tu não! Tu fora…

Ou aquilo que aconteceu aqui em Roma. Um sem-abrigo, coitado, tinha uma dor de barriga; e, quando tens uma dor de barriga e vais ao hospital, às Urgências, dão-te uma aspirina ou qualquer coisa do género, ou marcam-te consulta quinze dias depois: daqui a quinze dias volta cá. Então o homem foi ter com um padre, este viu-o, compadeceu-se e disse-lhe: «Levo-te ao hospital, mas tu faz-me um favor: quando eu começar a explicar aquilo que tens, finge que desmaias» E assim aconteceu: um artista, fê-lo bem. Era uma peritonite. Este homem estava descartado. Se fosse sozinho, era descartado e morria. Aquele pároco era sagaz e ajudou-o bem. Vivia longe do mundanismo. Isto será terrorismo? Bem… pode-se pensar que seja… pensá-lo com cautela. Obrigado! Os melhores votos para a Agência.

(Jan-Christoph Kitzler, da ARD, a rádio alemã, pelo grupo alemão)

Obrigado, Santo Padre. Eu gostaria de voltar brevemente ao encontro que teve com as famílias. Lá falou da «colonização ideológica». Poder-nos-ia explicar um pouco melhor a expressão? Depois, referiu-se ao Papa Paulo VI, falando dos casos particulares que são importantes na pastoral das famílias. Pode dar-nos alguns exemplos destes casos particulares e, quem sabe, dizer-nos mesmo se há necessidade de abrir as estradas, alargar o corredor destes casos particulares?

(Papa Francisco)

Quanto à colonização ideológica, direi apenas um exemplo que eu mesmo constatei. Vinte anos atrás, em 1995, uma Ministra da Educação pedira um grande empréstimo para construir escolas para os pobres. Deram-lhe o empréstimo com a condição de que, nas escolas, houvesse um livro para as crianças de certo grau de escolaridade. Era um livro escolar, um livro didacticamente bem preparado, onde se ensinava a teoria do gender. Esta senhora precisava do dinheiro do empréstimo, mas havia aquela condição. Sagaz, disse que sim e fez preparar outro livro, tendo dado os dois e assim resolveu o problema… Esta é a colonização ideológica: invadem um povo com uma ideia que não tem nada a ver com o povo: com grupos do povo, sim; mas não com o povo. E colonizam o povo com uma ideia que altera ou quer alterar uma mentalidade ou uma estrutura. Durante o Sínodo, os bispos africanos lamentavam-se disto mesmo: que, para certos empréstimos, se imponham determinadas condições. Limito-me a dizer este caso que vi. Porque falo de «colonização ideológica»? Porque agarram-se precisamente à necessidade dum povo: aproveitam-se das crianças para ali entrar e consolidar-se. Mas isto não é novo. Fizeram o mesmo as ditaduras do século passado; entraram com a sua doutrina. Pensai nos «Balilla», pensai na Juventude Hitleriana… Colonizaram o povo; queriam fazê-lo. Mas, quanto sofrimento! Os povos não devem perder a liberdade. O povo tem a sua cultura, a sua história; cada povo tem a sua cultura. Mas, quando chegam condições impostas pelos impérios colonizadores, procuram fazer com que os povos percam a sua identidade para se criar uniformidade. Esta é a globalização da esfera: todos os pontos são equidistantes do centro. Mas, a verdadeira globalização – como gosto de dizer – não é a da esfera. É importante globalizar, não como a esfera, mas como o poliedro, isto é, que cada povo, cada parte mantenha a sua identidade, o seu ser, sem acabar colonizada ideologicamente. Estas são as «colonizações ideológicas». Há um livro (desculpai, se faço publicidade!), há um livro intitulado Lord of the Worl [Senhor do Mundo]. Talvez inicialmente o estilo nos pareça um pouco pesado, porque foi escrito no ano 1907, em Londres; naquela época, o escritor viu este drama da colonização ideológica e descreve-o no livro. O autor é Benson; escreveu-o em 1907, recomendo-vos a sua leitura. Lendo-o, compreendereis bem o que quero dizer com «colonização ideológica».

Esta era a primeira questão. A segunda: Que queria eu dizer de Paulo VI? É certo que a abertura à vida é uma condição do sacramento do Matrimónio. Um homem não pode dar o sacramento à mulher nem a mulher ao homem, se ambos não estão de acordo sobre este ponto: estar abertos à vida. Tanto é assim que, se se puder provar que um tal ou uma tal se casou com a intenção de não estar aberto à vida, aquele matrimónio é nulo; a falta de abertura à vida é causa de nulidade matrimonial. Paulo VI estudou isto com uma comissão: como proceder para ajudar tantos casos, tantos problemas, problemas importantes que dificultam o amor da família. Problemas de todos os dias. Muitos, muitos… Mas era qualquer coisa de mais grave. A recusa de Paulo VI não incidia sobre os problemas pessoais, a propósito dos quais dirá depois aos confessores para serem misericordiosos e compreenderem as situações e perdoarem, isto é, serem misericordiosos, compreensivos. Mas, ele olhava para o neomalthusianismo universal em expansão. E como se reconhece este neomalthusianismo? É a natalidade abaixo de 1% na Itália; e o mesmo em Espanha. Aquele neomalthusianismo que visava o controle da humanidade pelas grandes potências. Isto não significa que o cristão deve fazer filhos em série. Há alguns meses, numa paróquia, censurei uma mulher porque estava grávida do oitavo depois de sete cesarianas. «Mas a senhora quer deixar sete órfãos?» Isto é tentar a Deus. Fala-se de paternidade responsável. Este é o caminho: a paternidade responsável. Mas aquilo que eu queria dizer era que Paulo VI não tivera uma visão antiquada, fechada. Não. Foi um profeta, que daquele modo nos disse: cuidado com o neomalthusianismo que está a chegar. Era isto que eu queria dizer. Obrigado.

(Padre Lombardi)

Entretanto, uma informação. Estamos de novo sobre a China. Até parece que estamos ganhando o hábito de fazer estas conferências com o Papa enquanto sobrevoamos a China, como já sucedeu ao regressar da Coreia.

(Valentina Alazraki, pelo grupo espanhol)

Santidade, no nosso voo para as Filipinas, usou uma determinada imagem e relativo gesto com o nosso bom Gasbarri, ou seja, que se ele insultasse sua mãe mereceria um soco. Esta frase criou um pouco de confusão e não foi bem compreendida por todos, no mundo, porque parecia dizer que, perante uma provocação, talvez se justificasse um pouco uma reacção violenta. Poder-nos-ia explicar um pouco melhor o que queria dizer?

(Papa Francisco)

Em teoria, podemos dizer que uma reacção violenta perante uma ofensa, uma provocação – em teoria, sim?! – não é uma coisa boa, não se deve fazer. Em teoria, podemos dizer o que diz o Evangelho, ou seja, que devemos apresentar a outra face. Em teoria, podemos dizer que temos a liberdade de exprimir e esta é importante. Em teoria, estamos todos de acordo. Mas somos humanos, e existe a prudência, que é uma virtude da convivência humana. Eu não posso insultar, provocar uma pessoa continuamente, porque arrisco-me de a irritar e receber uma reacção não justa, não justa. Mas é humano. Por isso, digo que a liberdade de expressão deve ter em conta a realidade humana, digo que se deve ser prudente. É um modo de dizer também que se deve ser educado. Prudente. A prudência é a virtude que regula as nossas relações humanas. Eu posso ir até este ponto; mais além, não. Era isto o que eu queria dizer: em teoria, todos estamos de acordo que há liberdade de expressão, que uma reacção violenta não é boa, que é sempre má. Todos estamos de acordo. Mas, na prática, contenhamo-nos um pouco, porque somos humanos e corremos o risco de provocar os outros e, por isso, a liberdade deve ser acompanhada pela prudência. Queria dizer isto.

(Nicole Winfield, da Associated Press dos Estados Unidos, pelo grupo inglês)

Santo Padre, pelo grupo inglês, queria de novo perguntar sobre as viagens deste ano. O Santo Padre disse-nos já que estava prevista a viagem à América. Mencionou três cidades: Nova Iorque, Washington e Filadélfia; mas, com a canonização de Serra, perguntamo-nos se não estará prevista também uma etapa na Califórnia ou nas fronteiras do México. E depois, na América do Sul, disse à nossa colega Isabel Piqué que estavam previstas três viagens ou uma viagem em três países da América do Sul. Quais são? E pensa beatificar pessoalmente o Arcebispo Romero, considerado recentemente mártir. Terminei.

(Papa Francisco)

Começo pelo último ponto. Aqui haverá uma guerra entre o Cardeal Amado e o Arcebispo Paglia; qual dos dois fará a beatificação? Não eu, pessoalmente: a cerimónia para os Beatos é normalmente celebrada pelo Cardeal do Dicastério ou outro.

Da última pergunta, passemos à primeira: os Estados Unidos. Sim, as três cidades são as indicadas: Filadélfia, para o Encontro das Famílias, Nova Iorque – tenho já a data, mas não me lembro dela – para a visita às Nações Unidas e Washington. São estas três. Gostaria de ir à Califórnia para a canonização de Junípero Serra, mas há o problema do tempo: são necessários mais dois dias. Penso fazer tal canonização no Santuário de Washington. É um acontecimento nacional. Em Washington (creio que no Capitólio), há mesmo uma estátua de Junípero. Penso que seja lá. Entrar nos Estados Unidos pela fronteira do México seria interessante, como sinal de fraternidade e ajuda aos emigrantes, mas o senhor sabe que ir ao México sem visitar Nossa Senhora seria um drama e poder-se-ia desencadear uma guerra! E também porque haveria necessidade de mais três dias. Enfim, ainda não está tudo definido. Penso que serão apenas estas três cidades. Haverá tempo depois para ir ao México. Esqueci-me de qualquer coisa? Ah, quanto aos países latino-americanos, estão previstos três para este ano (está tudo ainda em fase de estudo): Equador, Bolívia e Paraguai. Estes três. No próximo ano, se Deus quiser, desejava visitar (mas ainda não está nada resolvido) Chile, Argentina e Uruguai. E fazia falta incluir o Peru, que não sabemos onde colocá-lo… Mas é isto!

(Carla Lim, pelo grupo filipino)

Bom dia, Santo Padre. Agradeço-lhe por inspirar o meu país. Em nome do povo filipino, muito lhe agradeço. Perdoe-me por não poder falar italiano. O Santo Padre mencionou em alguns dos discursos nas Filipinas a corrupção, dizendo que esta tira recursos ao povo. Que se pode fazer, Santidade, para combater a corrupção, e não só no governo mas talvez na Igreja também?

(Papa Francisco)

Esta é forte! Hoje, no mundo, a corrupção é assunto de todos os dias e o comportamento corrupto encontra, rápida e facilmente, ninho nas instituições. Dado que uma instituição tem tantos sectores, aqui e além, tem tantos dirigentes e vice-dirigentes, é muito fácil que nela possa fazer ninho a corrupção. Toda a instituição pode cair nisto. A corrupção é tirar ao povo. A pessoa corrupta, que faz negócios corruptos, governa de forma corrupta ou se associa com outras para fazer um negócio corrupto, rouba ao povo. As vítimas são as pessoas que ele [aponta para Salvatore Izzo] viu perto do albergue de luxo: aquelas são as vítimas da corrupção. A corrupção não está fechada em si mesma: move-se. E mata, sabe? A corrupção, hoje, é um problema mundial. Uma vez, no ano 2001 mais ou menos, perguntei ao Chefe de Gabinete do Presidente de então (era um governo que pensávamos fosse menos corrupto; e era verdade: não era tão corrupto aquele governo): «Diga-me, as ajudas que enviais para o interior do país, em dinheiro ou coisas para comer, vestir… de tudo isso quanto chega ao destino?» Imediatamente aquele homem, que é um homem verdadeiro, com as mãos limpas, diz-me: «Cerca de 35%». Assim me disse ele. Ano 2001, na minha pátria.

E agora, a corrupção nas instituições eclesiais. Quando falo da Igreja, gosto de pensar nos fiéis, nos baptizados, na Igreja inteira. E é melhor falar de pecadores. Todos somos pecadores. Mas, quando falamos de corrupção, referimo-nos a pessoas corruptas ou a instituições da Igreja que caem na corrupção; e há casos, há. Recordo que uma vez, no ano de 1994 – tinha acabado de ser nomeado bispo do Bairro Flores, em Buenos Aires – vieram ter comigo dois trabalhadores ou funcionários dum Ministério, dizendo-me: «O senhor tem aqui tanta necessidade, com tantos pobres nas Villas Miséria». «Oh sim!» – retorqui; e contei. «Nós podemos ajudá-lo. Conseguimos, se quiser, uma ajuda de 400.000 pesos». Naquela altura, o peso e o dólar equivaliam-se: eram 400.000 dólares americanos. «E vós conseguis?» «Mas certamente». Eu ouvia-os, pois, «quando a esmola é demasiado grande, até o Santo desconfia» e eles continuaram: «Para isso, nós fazemos o depósito e depois o senhor dá-nos metade». Naquele momento, pensei: Que fazer? Ou insulto-os e dou-lhes um pontapé onde não bate o sol ou faço-me de desentendido. Fiz-me de desentendido. Disse-lhes (e era verdade!): «Os senhores sabem que nós, nas vigararias, não temos conta; os senhores devem fazer o depósito na arquidiocese com recibo». «Ah, não sabíamos… prazer…» E foram-se embora. Mas depois pensei: Se estes dois vieram directamente ter comigo, sem pedir autorização (é um pensamento mau!), é porque alguém já lhes disse que sim. Mas é um pensamento mau! A corrupção, é fácil de a fazer. Mas lembremo-nos disto: pecadores, sim; corruptos, não! Corruptos, nunca! Devemos pedir perdão pelos católicos, pelos cristãos que escandalizam com a sua corrupção. É uma praga, na Igreja; mas existem tantos santos… santos pecadores, mas não corruptos. Olhemos também para a outra parte, para a Igreja santa! Também há algum… Obrigado pela coragem de fazer esta pergunta.

(Anaïs Feuga, de «Radio France», pelo grupo francês)

Estamos a sobrevoar a China. Quando íamos para a Coreia, o Santo Padre disse-nos que estava pronto para ir à China já amanhã. À luz destas declarações, pode-nos explicar por que não recebeu o Dalai Lama, quando recentemente esteve em Roma, e como vão as relações com a China?

(Papa Francisco)

Obrigado por esta pergunta. Obrigado. É costume, no protocolo da Secretaria de Estado, não receber chefes de Estado ou pessoas desse nível, quando estão em Roma para uma reunião internacional. Por exemplo, por ocasião da reunião da FAO, não recebi ninguém. Por isso é que ele não foi recebido. Vi que alguns jornais disseram que não o recebi com medo da China: isso não é verdade. Naquela altura, a razão foi esta. Ele solicitou audiência, e foi-lhe referida uma certa data. Tinha-a pedido antes, mas não para aquela ocasião; temos bom relacionamento. Mas o motivo não foi a recusa da pessoa nem o medo da China. Estamos abertos, e queremos a paz com todos. E como estão as relações? O governo chinês é educado; e nós também somos educados. Fazemos as coisas passo a passo, como tudo o que se faz na história. Ainda não se sabe; mas eles sabem que eu estou disposto a receber ou a ir. Eles sabem disso.

(Marco Ansaldo, da «Repubblica», pelo grupo italiano)

Santo Padre, acaba de fazer uma viagem encantadora, muito rica, cheia de coisas belas, aqui nas Filipinas. Mas eu gostaria de recuar um passo, até porque o terrorismo atinge a cristandade, os católicos, em muitas partes do mundo. Vimo-lo ainda nestes últimos dias, no Níger; mas os exemplos são muitíssimos. Ora o Santo Padre, na última viagem que fizemos, ao regressar da Turquia fez um apelo aos líderes islâmicos dizendo que era útil um passo, uma intervenção muito firme da parte deles. Mas não me parece que isto tenha sido tomado em consideração e acolhido, apesar das suas palavras. Há alguns países muçulmanos moderados – pode-se muito bem dar o exemplo da Turquia – que mantêm, a propósito do terrorismo (cito os casos do IS ou mesmo do «Charlie Hebdo»), uma atitude pelo menos ambígua. Pois bem, não sei se o Santo Padre teve possibilidades, neste mês e meio, de reflectir e pensar como ir mais além do seu convite, que não foi acolhido, e contudo era importante. O Santo Padre ou alguém por si – penso na Secretaria de Estado, vejo aqui Mons. Becciu ou o próprio Cardeal Parolin –, até porque este é um problema que continuará a interpelar-nos.

(Papa Francisco)

Repeti aquele apelo no próprio dia da partida para o Sri Lanka, ao falar ao Corpo Diplomático na parte de manhã. No discurso ao Corpo Diplomático, disse ser meu desejo que se exprimam os líderes religiosos, políticos, académicos e intelectuais. O próprio povo moderado islâmico pede isto aos seus líderes. Alguns já fizeram qualquer coisa. Creio que é preciso também dar-lhes um pouco de tempo, porque, para eles, a situação não é fácil. Tenho esperança, porque há tantas pessoas boas entre eles, tanta gente boa, tantos líderes bons, e estou certo de que se chegará a isso. Mas queria dizer e salientar que repeti o mesmo no dia da partida.

(Cristoph Schmidt, pelo grupo alemão)

Santo Padre, antes de mais nada queria dizer-lhe muito obrigado por todos os momentos tão impressionantes desta semana. É a primeira vez que o acompanho e gostaria de lhe dizer mil vezes obrigado. A minha pergunta: O Santo Padre falou da multidão de crianças nas Filipinas, da sua alegria por haver assim tantas crianças. Mas, segundo as sondagens, a maioria dos filipinos pensa que o enorme crescimento da população filipina é uma das razões mais importantes para a pobreza imensa do país, já que, em média, uma mulher, nas Filipinas, dá à luz mais de três filhos na sua vida, e a posição católica relativamente à contracepção parece ser uma das poucas questões em que um grande número de pessoas nas Filipinas não está de acordo com a Igreja. Que pensa disto?

(Papa Francisco)

Creio que o número de três por família, mencionado pelo senhor, seja importante – de acordo com o que dizem os peritos – para manter a população. Três por casal. Quando se desce abaixo deste nível, acontece o outro extremo, como, por exemplo, na Itália onde ouvi dizer (não sei se é verdade) que, em 2024, não haverá dinheiro para pagar aos reformados. A diminuição da população. Por isso a palavra-chave para responder é esta expressão que usa sempre a Igreja, e eu também: «paternidade responsável». Como se consegue isto? Com o diálogo. Cada pessoa, com o seu pastor, deve procurar o modo como fazer esta paternidade responsável. Aquele exemplo, que mencionei há pouco, de uma mulher que esperava o oitavo filho e tinha sete com partos cesáreos: isto é uma irresponsabilidade. «Não! Eu confio em Deus». «Mas atenção! Deus dá-te os meios; sê responsável». Crêem alguns – desculpem a frase – que, para ser bons católicos, devem ser como coelhos. Não. Paternidade responsável. Isto é claro e por isso, na Igreja, há os movimentos matrimoniais, há os especialistas no assunto, há os pastores, e investiga-se. Eu conheço muitas e muitas soluções lícitas, que serviram de ajuda para o efeito. Mas fez bem em mo dizer. Há ainda outra coisa curiosa, que é diversa mas está relacionada com isto. Para as pessoas mais pobres, um filho é um tesouro. É verdade que aqui se deve ser prudente. Mas, para eles, um filho é um tesouro. Deus sabe como ajudá-los. Talvez alguns não sejam prudentes nisto, é verdade. Paternidade responsável. Mas é preciso também ver a generosidade daquele pai e daquela mãe que vêem em cada criança um tesouro.

(Isabel Piqué, pelo grupo espanhol)

Em representação do grupo espanhol, duas perguntas. Foi uma viagem comovente para todos: vimos chorar, em Tacloban, durante o tempo todo; nós mesmos, jornalistas, choramos; ontem o Santo Padre disse que o mundo precisa de chorar. Foi tudo muito intenso. Queríamos perguntar qual foi, para o Santo Padre, o momento mais intenso: a Missa em Tacloban e depois, ontem, quando aquela jovem se pôs a chorar… Esta é a primeira pergunta. Depois, a segunda: Ontem o Santo Padre fez história, bateu o recorde de João Paulo II no mesmo lugar, isto é, havia 6/7 milhões de pessoas. Como vive isto? O Cardeal Tagle contou-nos que no altar, durante a Missa, o Santo Padre lhe perguntou: «Mas quantas pessoas estão?» Assim, como vive o facto de ter superado este recorde, ter entrado na história como o Papa com a Missa mais numerosa da história?

(Papa Francisco)

A primeira: o momento mais intenso. O de Tacloban, a Missa, para mim, foi intenso, muito intenso. Ver todo o povo de Deus ali de pé, rezando, depois daquela catástrofe… Pensar nos meus pecados e naquela gente… Foi intenso, um momento muito intenso. Lá, no momento da Missa, sentia-me como que aniquilado, quase não me saía a voz. Não sei o que me sucedeu; talvez fosse a emoção, não sei. Mas, tudo o que sentia era isto: uma espécie de aniquilação. E, depois, momentos intensos foram os gestos, cada gesto. Quando passava e um pai fazia assim [faz o gesto de levantar a criança], eu dava a bênção, e ele dizia-me obrigado; para eles, era suficiente uma bênção. Pensei: e eu com tantas pretensões, quero isto, quero aquilo… Aquilo fez-me bem. Momentos intensos. Mesmo quando soube que aterrámos, em Tacloban, com um vento de 70 Km/h, tomei a sério o aviso de que deveríamos sair à uma hora da tarde, e não depois, porque havia perigo. Mas não tive medo.

Quanto à grande presença, senti-me tão aniquilado. Aquele era o povo de Deus, e o Senhor estava ali. É a alegria da presença de Deus que nos diz: pensai bem que sois os servidores destas pessoas. Os protagonistas são elas…

E depois o facto do pranto. Uma das coisas que se perde quando há demasiado bem-estar, quando não se compreendem bem os valores, ou quando nos habituamos à injustiça, a esta cultura do descarte, é a capacidade de chorar. É uma graça que devemos pedir. No Missal antigo, havia uma bela oração para se pedir o pranto. Dizia mais ou menos assim: «Ó Senhor, Vós que fizestes com que Moisés fizesse sair, com a sua vara, água do rochedo, fazei que da rocha do meu coração saia a água das lágrimas». É uma belíssima oração. Nós, cristãos, devemos pedir a graça de chorar, sobretudo os cristãos abastados, e chorar pelas injustiças, chorar pelos pecados. É que o pranto abre-te à compreensão de novas realidades ou de novas dimensões da realidade. Foi aquilo que disse a jovem, e também o que eu lhe disse a ela. Ela foi a única a fazer aquela pergunta a que não se pode responder: «Porque sofrem as crianças?» O grande Dostoiévski pôs a pergunta, mas não conseguiu responder: Por que sofrem as crianças? Ela, sim, com o seu pranto: uma mulher que chorava. Quando digo que é importante que as mulheres sejam tidas mais em conta na Igreja, não é só para lhes dar uma função de secretária num dicastério; isso também pode ser. Mas não é para isso; é para que elas nos digam como sentem e vêem a realidade, porque as mulheres olham a partir duma riqueza diferente, maior. Outra coisa, que desejo sublinhar aqui: aquilo que disse ao último jovem [no encontro com a juventude], ou seja, que verdadeiramente trabalha bem, dá, organiza, ajuda os pobres. Mas não esqueças – disse-lhe eu – que também nós devemos ser mendigos junto deles, porque os pobres evangelizam-nos. Se tiramos os pobres do Evangelho, não podemos compreender a mensagem de Jesus. Os pobres evangelizam-nos. «Eu vou evangelizar os pobres». Sim, mas deixa-te evangelizar por eles, porque têm valores que tu não tens.

Agradeço-vos imenso pelo vosso trabalho! Estimo-o. E muito obrigado. Sei que é um sacrifício para vós.

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