Brasil sem memória. Frei Caneca, o herói esquecido


Caneca 2

“Cidade Ingrata’, como diria o poeta Carlos Pena Filho, Recife se esquece dos 190 anos da morte de um dos seus principais heróis: Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, fuzilado por espingardas já que os carrascos convocados para enforcá-lo se negaram. Fundador de um jornal para divulgar as idéias liberais ( Typhis Pernambucano) foi o grande líder da Confederação do Equador (1824). Os jovens não sabem, os mais velhos e o Poder Público não se lembraram, e a data só não passa em branco por conta do historiador e jornalista, Leonardo Antônio Dantas Silva que, narra hoje, em artigo no JC, um pouco dessa história”, comenta Ricardo Antunes.

O Brasil está esquecendo, propositadamente, sua História. Este processo de desnacionalização começou com a ditadura militar, e dele fez parte Fernando Henrique Cardoso, que depois virou presidente, também apoiado pela CIA.

É uma política antipatriótica que envolve toda nossa Cultura. É uma estratégia antiga. Toda invasão dos exércitos dos Césares era precedida pela divulgação da cultura romana.

O governo do Estado de São Paulo retirou o ensino de História nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A preferência é aprender a língua inglesa.

 

190 ANOS DA MORTE DE FREI CANECA, O HERÓI ESQUECIDO…

Texto Leonardo Dantas Silva

Caneca 1

Ilustração de Murillo La Greca

 

Sem qualquer comemoração ou lembrança, Pernambuco vê transcorrer, neste 13 de janeiro de 2015, os 190 anos do espingardeamento do seu herói maior, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

Certa vez em visita ao Recife, o então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, desejou conhecer os Montes Guararapes, onde visitou a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, e o monumento em honra ao mártir pernambucano Frei Caneca.

O levaram ao Largo das Cinco Pontas, onde se encontra um pequenino busto e o resto de parede com uma lápide em mármore, assinalando o local do seu suplício em 13 de janeiro de 1825.

Extasiado, indagou o visitante se era tudo que existia no Recife em memória de tão ilustre liberal, e ao obter a confirmação exclamou irritado: É muito pouco para um Grande Brasileiro!

Os tempos passaram e nada foi feito para avivar a memória do mártir maior da Confederação do Equador (1824), restringindo-se tudo ao pequenino busto em cimento, junto a um resto de muro no qual se encontra afixada uma lápide em mármore, com inscrição em letras pretas maiúsculas, ali colocada pelo Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (sic) na data de 2 de julho de 1917:
Neste largo foi espingardeado junto à forca, a 13 de janeiro de 1825, por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo, o Patriota Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Republicano de 1817, e a figura mais notável da Confederação do Equador em 1824.

Nascido na Rua do Brum, filho de uma família pobre do Recife, em agosto de 1779, Joaquim do Amor Divino Rabelo entrou para o convento carmelita de sua cidade em 1796. Ordenando-se em 1801, substituiu o seu nome de família pelo “Caneca”, apelido dado a seu pai por sua profissão de tanoeiro.

Logo se notabilizou pelos seus conhecimentos de Direito Constitucional, Direito Natural, Retórica, Geometria, Filosofia Racional e Moral, com incursões nos estudos da mecânica e cálculo matemático.

Foi membro da Academia do Paraíso, e teve participação inflamada no movimento que instalou a República em Pernambuco, em 6 de março de 1817, tendo sido levado preso aos cárceres da Bahia, onde penou por quatro anos, sendo dele esses versos:

Não posso cantar meus males
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Decretada a anistia pelas Cortes Portuguesas, em 1821, voltou frei Caneca ao Recife e, após o episódio da dissolução da Constituinte pelo imperador Pedro I, resolveu fundar o Typhis Pernambucano, principal divulgador das ideias liberais que viriam a ser defendidas pela Confederação do Equador (1824).

O jornal circulou entre 25 de dezembro de 1823 e 12 de agosto do ano seguinte, tendo sido impressas 29 edições, transformando-se no ideário dos liberais de então, partidários de Manoel de Carvalho Paes de Andrade.

Com a província de Pernambuco invadida pelas tropas imperiais, é proclamada, em 2 de julho de 1824, a Confederação do Equador, movimento separatista de caráter republicano que mais uma vez põe em armas os liberais pernambucanos.

Derrotados no Recife, os revoltosos iniciam penosa marcha em direção ao Ceará, episódio narrado com cores fortes por Frei Caneca no seu Itinerário. Presos e agrilhoados retornaram ao Recife, aonde o frade vem a ser condenado à forca em sentença expedida em 10 de janeiro de 1825.

Debalde o Cabido Metropolitano comparece em procissão ao Palácio do Governo pedindo a suspensão da pena. Em represália os cônegos da Diocese de Olinda negaram-se a desautorar suas ordens tornando nulo, perante o Direito Canônico, todos os atos que se seguiram.

A execução foi marcada para a manhã de 13 de janeiro de 1825.

Na prisão mais uma vez escreve versos, despedindo-se dos amigos e das suas filhas, por ele chamadas de “afilhadas das minhas entranhas”, dormira sereno a sua última noite e, na manhã seguinte, marchou com altivez em direção ao patíbulo.

Diante de tal cena o inesperado aconteceu: os carrascos convocados para execução da pena capital negaram-se executá-la, pouco se importando com as promessas e com os suplícios que lhes foram imposto pela tropa.

Diante do impasse foi à pena transformada em execução por espingardeamento, o que aconteceu no Largo das Cinco Pontas, “por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo”.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

Os seus restos mortais vieram a ser sepultados no Convento do Carmo, em local não determinado, o seu nome, porém, é hoje reverenciado pela grande maioria das capitais do Brasil, onde sempre existe uma Rua Frei Caneca, muito embora continue esquecido na terra que lhe serviu de berço (!).

 

 

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