“Do que temos medo é do depois”


por RACHEL DONADIO

Farid Ben Morsli

Farid Ben Morsli

Perto das 9h10 da noite de segunda-feira, os sobreviventes do Charlie Hebd romperam em gargalhadas e aplausos, logo seguidos dos gritos “Allahu akbar!” — uma alegre ironia. O grupo aplaudia Rénald Luzier, cartoonista conhecido por “Luz”, que à enésima tentativa conseguiu produzir a capa perfeita para o tão antecipado novo número deste iconoclástico semanário. Mostra o profeta Maomé segurando um cartaz a dizer “Je suis Charlie” (eu sou Charlie) e tem a frase “Tudo está perdoado”.

“Habemus capa” disse, sorrindo, Gérard Biard, o chefe de redacção do jornal, ao sair da redacção improvisada e usando a frase que anuncia um novo Papa. Explicou como tentaram chegar à imagem certa: “Perguntámos a nós próprios: ‘O que queremos dizer? O que devemos dizer? E de que forma?’ Sobre o tema, infelizmente, não tínhamos dúvidas.”

Desde sexta-feira, apenas dois dias depois de homens armados terem massacrado 12 pessoas no jornal, que 25 membros da equipa se reuniram nas instalações do jornal de esquerda Libération, debaixo de pesada protecção policial, para preparar o novo número. Ainda estavam em choque e desconcertados por, de repente, serem os heróis da liberdade de expressão perante os mesmos sistemas político e religioso que há muito satirizavam.

Ao mesmo tempo que os jornalistas lidavam com a tristeza, havia notas de humor mordaz. Os cartoonistas desenhavam, enquanto descreviam como foi difícil continuar depois do horror na sua redacção; outros expressavam a sua raiva em relação aos assassinos. A grande pergunta que pairava no ar: como conseguiriam ter piada num momento destes?

“Nós não sabemos fazer outra coisa a não ser rir”, disse Biard, que estava de férias no dia do ataque.

Por todo o mundo, o massacre motivou um debate sobre falhas de segurança, radicalismo islâmico e aquele ter sido um ponto de viragem. Milhões de pessoas abraçaram o slogan “Eu sou Charlie”. Mas aqui, numa sala de conferências no topo do edifício, com uma vista deslumbrante para a Torre Eiffel, só estavam um grupo de cartoonistas e de jornalistas: chorando, petiscando, rindo, violando a lei que proíbe fumar em espaços fechados e tentando aguentar-se o tempo suficiente para produzir um novo número.

A primeira reunião editorial, na sexta-feira, não começou com tiradas ou provocações editoriais, mas com a lembrança dos colegas assassinados, com o ponto de situação sobre os feridos e com a visita surpresa do primeiro-ministro, Manuel Valls, e de Fleur Pellerin, ministra da Cultura e das Comunicações — visitas raras na redacção de um jornal de quem só podem esperar troça e não um pedido de entrevista.

“Decidimos fazer uma edição normal, não um número de homenagem”, disse Biard na sexta-feira, dia em que decorreu uma reunião de três horas. Para a sala foram levados tabuleiros com salmão fumado, sanduíches e sobremesas com creme. Uma fiada de polícias à paisana guardou a porta. Cinco computadores cedidos pelo Le Monde foram montados numa mesa redonda de vidro. Desde os ataques, os donativos não páram de chegar, e foi criado um fundo — jaidecharlie.fr (Eu ajudo Charlie).

À medida que a redacção voltava à vida, na sexta-feira à tarde, Biard reflectia. “Eles mataram pessoas que desenhavam cartoons. Só isso. Era só o que estas pessoas faziam. Se têm medo disso…, que deus é o deles?”, perguntou enfaticamente.

Montar a logística para fazer sair o jornal não foi fácil. Foi preciso arranjar autorizações do tribunal para retirar material que estava na antiga sede, agora fechada, porque é uma cena de um crime. Com a ajuda do Libération, o Charlie Hebdo imprimiu três milhões de cópias; a sua tiragem habitual é de 600 mil exemplares. Previa-se também que o jornal fosse traduzido em várias línguas.

Uma ideia estava clara: manter a memória dos mortos viva publicando trabalhos antigos deles. E nesta edição haverá desenhos dos cinco cartoonistas mortos: Stéphane Charbonnier (Charb, o director), Jean Cabut (Cabu), Bernard Verlhac (Tignous), Georges Wolinski e Philippe Honoré. Também decidiram homenagear as outras vítimas, publicando trabalhos de Bernard Maris, um economista, e de Elsa Cayat, psiquiatra, que escreviam colunas, e talvez publicar uma coluna inédita de Mustapha Ourrad, que era o revisor de texto.

“Neste número eles não mataram ninguém”, explicou Biard. Os membros da equipa “aparecem como sempre apareceram”. Questionado sobre o que mais teria este número, Patrick Pelloux, médico que também escreve no Charlie Hebdo, respondeu, com uma gargalhada: “Oh, não sei. Não se passou grande coisa esta semana.”

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