O terrorismo e a destabilização


EDITORIAL DO JORNAL DE ANGOLA

Ninguém sabe qual a resposta a dar a esse problema. Quem aparece a criar instabilidade no Ocidente são cidadãos ocidentais, mas os mandantes não têm rosto nem responsabilidade. Antes foi em Oslo, agora é em Paris.

Quando se deu o ataque do 11 de Setembro, foram dados passos no caminho errado. O clima mundial de crispação, medo e unilateralismo, elementos basilares que sustentaram a invasão do Iraque – onde todos “viram” armas de destruição em massa que afinal nunca existiram – foi uma má opção.

O terrorismo no Ocidente encontra paralelo em África nos conflitos armados causados por rebeliões – estas com rosto e patrões bem identificados.

Mas o combate, tanto a um como a outro fenómeno, só pode ser feito com medidas internacionais conjuntas e integradas.

Criar a crispação como realidade e o unilateralismo como solução, não são meios aceitáveis quando a doutrina democrática dá a primazia, de uma forma imperativa, aos direitos, liberdades e garantias.

Para começo de um diálogo internacional abrangente e ecuménico, há que convencer os construtores da estratégia aplicada no Iraque e depois reproduzida em outros teatros de guerra, que abriram Caixa de Pandora.

Ninguém sabe o que se vai seguir à retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, depois da coligação militar ocidental ter entrado num beco sem saída. A um Iraque deixado dividido, vem agora um Afeganistão incógnito e uma ascensão do islamismo radical no Paquistão e no mundo. A crispação, a fuga ao diálogo e ao consenso e o uso do poder militar foram os ingredientes do nazismo. As democracias não podem seguir por essa via.

Como resposta ao atentado de Paris, os líderes das grandes potências dizem agora que ninguém pode admitir que seja quem for queira impor aos outros o seu estilo de vida, a sua religião, os seus valores e princípios. Se as declarações são sérias, é caso para pensar. Estas declarações revelam uma mudança de paradigma muito significativa. Ao mesmo tempo que põem em causa a liberdade, reconhecem que podem retirar a Humanidade do beco sem saída do terrorismo em todas as suas formas. Washington, Paris e Londres podem estar a dizer que daqui para a frente não podem ir ao Iraque impor o seu estilo de vida e os seus valores, através de uma guerra cruel que já fez milhões de vítimas e transformou um estado laico e socialista num Estado Religioso.

Ao promover as “primaveras” árabes, o Ocidente quis aproveitar o momento para impor cegamente o seu estilo de vida e os seus valores, no Norte de África e Médio Oriente. Sabemos como essa aventura começou, mas ninguém sabe como vai acabar. Os episódios trágicos da semana em Paris são demonstrativos de que tudo está ainda longe de um desfecho pacífico no que diz respeito à insegurança dos terramotos provocados no mundo árabe e cujas ondas de choque começam a estender-se a outros pontos do planeta.

É altura de se encontrar soluções internacionais concertadas e coordenadas para fazer face à insegurança e não há melhor plataforma para isso que as Nações Unidas, cuja credibilidade deve ser recuperada.

Em Paris houve quase duas dezenas de vítimas inocentes. O mundo repudia esses crimes. Mas não nos esquecemos que Angola foi desestabilizada durante muitos anos por um grupo terrorista que atacou o comboio no Zenza do Itombe e matou 500 angolanos indefesos. Na capital francesa, os dirigentes políticos, comentadores e canais de televisão nada disseram nessa altura. Pelo contrário, muitos festejaram com os representantes dos autores do repugnante atentado.

As vítimas de Paris são de carne e osso como as do Zenza do Itombe. Era bom que os ocidentais mudassem um pouco esse estilo de vida. Um cidadão francês vale tanto como um camponês do Dondo, que morreu queimado no comboio do Zenza. Nem mais, nem menos.

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