UM POEMA ÉPICO


por José de Souza Castro

Recebo pelo correio cópia do original do livro “O Enforcado da Rainha”, de Talis Andrade. Uma semana antes, minha filha Cristina, poeta e jornalista, fora premiada com “Romance do Emparedado”, o sétimo livro já publicado desse poeta pernambucano. O primeiro, “Esquife Encarnado”, data de 1957. Seguiram-se: “Poemas” (1975), “Cantiga para um Ícone Dourado” (1975), “O Tocador de Realejo” (1977), “O Sonhador Adormecido” (2004), “Vinho Encantado” (2004), “Os Herdeiros da Rosa” (2006) e “Sertões de Dentro e de Fora” (2007).

“O Enforcado da Rainha” encabeça uma lista de quatro livros inéditos que, certamente, merecem o mesmo destino dos outros – a publicação.

Em fevereiro de 2007, ao comentar um escrito de outro poeta nordestino – Newton Navarro, que morreu 15 anos antes e virou nome de ponte em Natal –, Talis revelou que pagava pela publicação de seus próprios livros, “as não famosas edições do autor”. Nenhuma novidade, até aí. Carlos Drummond de Andrade também pagou as edições de seus três primeiros livros, sob um selo imaginário – Edições Pindorama. O primeiro, “Alguma poesia”, saiu com 500 exemplares, em 1930. Quatro anos depois, o autor lançou o segundo, “Brejo das Almas”, com 200. O terceiro, “Sentimento do mundo”, só veio à luz em 1940, com 150 exemplares. O mercado editorial brasileiro nunca valorizou nossos poetas.

E, de fato, nem o público leitor – como devo confessar. Milhares de livros de todos os gêneros imagináveis passaram por minhas mãos desde 1952, quando aprendi a ler, aos oito anos de idade. Nem me lembro mais qual foi o professor de português que me obrigou a ler e analisar “Os Lusíadas”, quase estragando definitivamente meu gosto por poesia. Isso só não aconteceu, desconfio, por causa da injeção de ânimo que recebi, nos anos seguintes, ao ler “O Inferno” de Dante Alighieri; “Navios negreiros”, de Castro Alves; “O Corvo”, de Edgar Alan Poe; “Vida e Morte Severina”, de João Cabral de Melo Neto, alguns poemas de Maiakovski e de Drummond e, naturalmente, todos os escritos por minha filha.

Redescubro esse gosto por mensagens significativas em forma de poemas lendo “O Enforcado da Rainha”.

Vim a conhecer Talis Andrade há uns quatro anos, por causa dos comentários dele na coluna de Moacir Japiassu, no Comunique-se, e de seus sábios escritos em três blogs do próprio poeta: Arte e Versos, Aqui não dá e Jornalismo de cordel. Não sei como, aos 70 anos, ele acha tempo para manter atualizados esses blogs e escrever poesia, ganhando um salário mínimo de aposentadoria pelo INSS. É um mistério: como um poeta brasileiro, ainda por cima nordestino, sobrevive?

Estive no Recife uma única vez, em meados dos anos 70, companhia do agrônomo Wellington Abranches Vianna, que se revelou muitos anos depois um talentoso escritor. Na época, trabalhávamos na Secretaria da Agricultura de Minas. Ficamos impressionados com a insuficiência quantitativa, para nossos hábitos alimentares, das refeições que nos serviam nos restaurantes locais e que, certamente, explicavam os corpos magros dos freqüentadores que encontramos numa praia de Olinda. Será que isso explica também os poemas de Talis Andrade? (São enxutos de palavras: “neste apartado mundo/ as palavras são secas/ secos os corpos”.) Apesar disso, ou talvez por isso, eles vão tecendo uma sucessão infindável de pequenos recortes que formam um painel magnífico de nossa história de esperanças sempre frustradas. Começando por Tiradentes, que recebeu “a escorregadia corda dos enforcados” e que na árvore balança “noite após noite/ até que a liberdade venha/ mesmo que tarde”.

Nesse ponto, socorro-me da professora Iracema Torquato que escreveu sobre o “Romance do Emparedado”: “Na dialética entre vida e morte, a poesia de Talis Andrade meticulosamente se constrói, entre fragmentos de lembranças que se completam mas não se esgotam, deixando sempre ao leitor a possibilidade de reconstrução do sentido e das imagens evocadas”.

É exatamente o que sinto ao ler “O Enforcado da Rainha”. Lampião a sangrar montado em um cavalo corredor por essas terras de cabeças cortadas. Lamarca a se deparar com velhos camaradas vagando pelos descampados. O corpo de Antonio Conselheiro desenterrado para ser fotografado e degolado. O Preto Velho, pós-Princesa Isabel, que tá de canseira no corpo. E o poeta faz perguntas que não consigo responder: “Pra que serve a justiça/ quando os longos braços da lei/ não alcançam a multidão?/ Como viajar/ entre luzes/ cores nuvens/ se tudo permanece proibido”?

O próprio poeta tenta projetar alguma luz sobre nossa confusão, buscando algumas definições – que, na verdade, são pouco animadoras: “A vida uma trama/ farsa que esconde/ a face da fera/ um jogo de mentiras/ do qual somos cúmplices/ pela boca fechada”.

Nesse caleidoscópio, não demora e nos vemos no meio da história, gritando slogans carbonários, e os investigadores refazem a ronda escura da ditadura. O poeta, nesse ponto, deixa de lado a história aprendida ou imaginada, para reviver os escuros dos bares freqüentados por esquerdistas “moças ricas/ bem nascidas/ filhas de deputados e ministros”. E denuncia: “A mão que dedura/ e tortura/ A mão que rouba o pão dos pobres/ A mão que rouba/ nossa infeliz nação/ A suja mão do sangue/ dos inocentes/ aponte o destino/ dos descendentes dos criminosos/ de colarinho (de) branco que/ protegidos pelo foro especial/ fornicam em berço esplêndido”.
Não me surpreenderia se visse, um dia, os poemas de Talis transformados em sucessos de rap.

O poeta pode às vezes se mostrar desiludido com a herança que nos deixaram os capitães dos reis de Portugal e Espanha que, por onde passaram neste país, deixaram a desolação dos cemitérios, mas não perde o bom humor:: “Se a finalidade dessa vida/ consiste em chorar/ prefiro o desdouro/ de chorar/ descansando a bunda/ em uma praia/ de areia fina/ de ouro”. Amargo, por vezes, ele acha que nada mais nos resta do que fincar uma cruz numa cidade fantasma. E essa cidade bem pode ser Brasília.

Talis Andrade termina o livro afirmando, equivocadamente, que “a quieta safra de poetas/ não possui fôlego/ para um poema épico”.

Afinal, “O Enforcado da Rainha” é um poema épico.

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