A ALMA DE UM “OUTSIDER”


por Cristina Moreno de Castro

Comunidade para os admiradores da poesia de Talis Andrade, jornalista pernambucano que relata o mundo com a alma de um “outsider”. Que não desiste dos sonhos, mesmo quando os inimigos do povo permanecem à espreita:



”A vida não teria sentido

se não persistisse o sonho

o povo marchasse unido

para expulsar as quatro bestas espreitando

nas quatro esquinas do medo


a ganância do patronato

a covardia dos fura-greves

a brutalidade da polícia

a conivência da justiça


quatro bestas espreitando

co’as presas sujas de sangue”



Que conhece o poder da intimidade:



”Certos segredos

incertos desejos

devem permanecer
bem trancados

a sete chaves

as chaves jogadas

no rio Jordão”


Que conhece o carma de sua profissão:



”O jornalista vive

o presente finito

Tudo que escreve

tem a louvação

de um dia



O jornalista vive

o pressentimento

Amanhã pode ser dia de desemprego

Amanhã pode ser dia de enterro”



Que conhece bem a improvável prolixidade do amor:



”Te vendo

tudo pareceu

amor antigo”

É praticamente impossível definir qual o poema favorito. Porque poemas estão intimamente ligados aos momentos em que são lidos. A poesia só ganha vida quando as subjetividades do autor e do leitor são compartilhadas e se entrelaçam e isso pode acontecer de diversas maneiras, em múltiplas ocasiões, que dão maior ou menor representativi
dade a um poema.

Hoje, em minha leitura de “Romance do Emparedado”, alguns versos me chamaram a atenção.

Saltaram à minha frente, foram relidos várias vezes, como se eu os quisesse incorporar às minhas vísceras. Talvez, noutro momento, justamente esses trechos percam todo o poder que exerceram hoje e cedam lugar a versos antes incompreendidos.



Mas hoje elejo o poema Esquife Encarnado (que dá nome à primeira obra de Talis e à primeira parte deste “Romance”) como o melhor, em todos os sentidos. Trechos:



”Desde criança o sonho
vencer o ídolo de ouro
e o seu séqüito
O enlouquecido sonho
de mudar o mundo (…)

Veio o demônio a morte
e tomou a bandeira
A bandeira
apenas um fetiche
de pano e haste (…)

O cuidado dos pais
que iam à missa
todos os domingos
as roupas engomadas
as consciências leves
dos pecados lavados
no confessionário (…)

Vermelhas a insígnia de fogo nos sambitos dos afogueados

a insígnia de seda dos filhos do Coração Sangrante de Jesus

a cruz da Ordem dos Templários

a cruz gamada dos soldados de Hitler

a bandeira dos operários de Lenine

a bandeira dos piratas

com a ampulheta a caveira e a espada



Vermelho o lenço amarrado

no pescoço dos revolucionários de Trinta

Vermelho o pedaço de pano

o sinal abominável

os leprosos carregavam

pendurado nas vestes brancas


Vermelho o laço de fita

no alto da cabeça da menina

para quem o poeta recitou

rimados versos de amor

em noites de serenatas



Espanta o controverso oportunismo

Todos querem uma bandeira

e nem sequer entendem

o que seja vermelho”




E qual seria o poema de Talis que mais atormenta a sensibilidade de vocês hoje?


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